
Ana Cláudia Vicente: «Quase no final do DocLisboa tive a oportunidade de ver Constantin e Elena, primeira longa realizada por Andrei Dascalescu, romeno que, ainda nos vintes, tem já folha de trabalho em montagem e sonorização. Um acaso bem-afortunado (o último filme de Coppola, rodado na sua terra natal) deu-lhe oportunidade de trabalhar durante mais de um ano com uma das suas grandes referências, Walter Murch. No final da experiência Andrei decidiu dar a Walter um obrigado em forma de tapete, acrescentando-lhe um pequeno rol de imagens dos dias da octogenária que o tecera. O veterano agradeceu, dizendo-lhe sem favor que o que ali tinha era um filme a haver.»
Leonor Barros: «Maria Odete saiu do hospital pelo seu pé, – velha não era e estava recuperada de algo que não se soube o que foi – e voltou à sua casa. Logo agora que já estava tudo tratado com o lar lamentaram os filhos Ó mãe, sente-se mesmo bem? Ó mãe, veja lá, parece que a vi cambalear… Maria Odete perguntou-se para que serviam os filhos afinal mais céleres a descartar-se dela do que em ir vê-la ao hospital, mais rápidos a arranjarem-lhe um lar do que a saber o que tinha. E a história da Maria Odete é esta. Apenas um dos rostos visíveis e apenas uma das Maria Odetes que outrora foram mulheres e mães e agora são apenas velhas descartáveis à mercê do egoísmo dos filhos.»
Sérgio de Almeida Correia: «A democracia é um exercício constante, a procura de um equilíbrio muitas vezes difícil de manter no vaivém dos debates e da guerrilha política, mas há alturas em que é fundamental que venham à superfície os valores que distinguem um exercício puramente formal de uma verdadeira democracia. O sucesso de um governo saído de eleições livres e democráticas virado para a resolução dos problemas do país será também o sucesso do país.»
Teresa Ribeiro: «Não é por acaso que John Malkovich é convidado frequentemente para fazer papéis de mau carácter, às vezes até de indivíduos cuja maldade já trilha os ínvios caminhos da patologia. Há qualquer coisa no seu facies que nos facilita a associação com o mal. Não o que identificamos com os vilões comuns, entenda-se, mas o mais sofisticado, próprio de seres requintados, de inteligência superior.»
Eu: «É confrangedor ouvir “analistas” políticos nas televisões debitarem banalidades do género “O Presidente e o primeiro-ministro estão preocupados com o desemprego”, “cada pasta é uma pasta”, “a uns vai correr bem, a outros não” e “vamos ver no que vai dar”. Acabei de ouvir estas inanidades enquanto assistia à tomada de posse do segundo Governo Sócrates. Consegui manter o televisor ligado apesar de tais “analistas” que tudo fazem para convidar o espectador a sintonizar canais onde o comentário político está rigorosamente interdito por elementares motivos de sanidade mental.»
