
Bandeira: «Eu queria ser mais crítico, escrever uma recensão digna do nome, falar em como o estilo cirúrgico de Lydia Davis contém e transforma, mas de todo anula, as emoções; fico com a sensação de que já escrevi palavras a mais quando o que queria dizer era tão-só “Leia Lydia”. Ponto. E desculpe as citações em inglês, mas tenho apenas a versão na língua original.»
Eu: «Primeira decepção: um corpo de letra demasiado reduzido. Sempre achei uma falta de consideração pelos leitores editarem-se livros nada recomendáveis a quem possua o mais leve indício de miopia ou tenha já a vista irremediavelmente fatigada. Mas insisti, ainda embalado pela beleza do título. Recordo-me bem das páginas iniciais, que nos transportavam à praia de Venice, na Califórnia. Numa noite carregada de maus presságios. Prometia, mas tardou em cumprir. Virava as páginas, o enredo adensava-se de tal forma que se tornava um quebra-cabeças para o leitor. Voltei atrás, recomecei, insisti. Em vão. Para cúmulo, a letra parecia-me cada vez mais pequena — à dimensão do fio da história. Parei a meio. Ou antes disso. Não foi preciso contratar nenhum detective para chegar a esta conclusão: a estreia de Bradbury no policial não passava afinal de um pastiche mal sucedido de Chandler. E eu sempre preferi os originais às cópias, seja em que género for.»

o mais leve indício de miopia ou a vista irremediavelmente fatigada
Vista fatigada e miopia são coisas, em princípio, exatamente opostas.
Os míopes vêem bem ao perto e não têm dificuldade em ler livros com letra miúda.