
Patrícia Reis: «A cabeça. Não se pensa na cabeça. Há o cabelo, a cara, os dentes, o sorriso, o pedaço de alface que ficou no dente. A cabeça? Não. Talvez quando se compra um chapéu, para saber que número temos, qual o que nos cai melhor. Seja como for, dou comigo a pensar na minha cabeça pela simples razão de estar há três dias em dor permanente. Sim, uma queixa lamecha, peço desculpa.»
Teresa Ribeiro: «Como pode um génio interessar-se seja pelo que for que esteja fora do seu universo mental se tem uma feira popular a funcionar 24h por dia na cabeça? Como escapará a sentimentos de superioridade quando constata, desde cedo na vida, que as suas capacidades estão muito acima da média? E nesse caso como poderá estabelecer com os outros relações que não sejam meramente instrumentais? E não manifestar desprezo pelas convenções sociais através de múltiplas excentricidades? E não acumular agressividade em bolsas que explodem se sofre de um atroz sentimento de solidão? Em suma, é possível a um génio não ser egocêntrico e socialmente disfuncional? E se não é, podemos enfim dizer dos génios que são todos iguais?»
Eu: «Se não sabem, aprendam. Vejam, leiam, informem-se, comparem. Estudem as nossas melhores tradições nesta matéria. Ou, pelo menos, atentem em bons exemplos estrangeiros. Deixo aqui duas capas, muito diferentes, em que podem inspirar-se: The First Forty-Nine Stories, de Ernest Hemingway (Arrow Books), e The First World War, de A. J. P. Taylor (Penguin Books). São ambas competentes sem precisarem de ser extraordinárias. Enquanto escrevo, escuto aquele que considero o melhor disco de música popular anglo-americana de todos os tempos: Pet Sounds, dos Beach Boys. “Wouldn’t it be nice if we could wake up / In the morning when the day is new?”»
