
Ana Vidal: «Chego de fora mesmo a tempo de não precisar de me beliscar para saber que estou de volta a casa. Enquanto o país arde triste e realmente, no Chiado brinca-se aos fogos num simulacro comemorativo para turista ver, com figurantes e cheiro a fumo em spray. Enquanto morrem bombeiros e as populações se queixam de uma aflitiva falta de meios, corporações inteiras sobem e descem escadas de incêndio, de mangueira na mão, fingindo apagar um fogo inexistente. Diria o velho Camões, habituado aos lusos absurdos, que foi “um fogo que arde sem se ver”. Digo eu, entre a estupefacção e a vergonha alheia, que isto é de um mau gosto atroz e de uma total falta de senso. E ainda falam da Cristina Espírito Santo.»
José António Abreu: «Do mesmo modo que noticiar suicídios tende a fazer com que ocorram novos suicídios, o espectáculo televisivo das chamas, do fumo, do medo, da impotência, opera simultaneamente como prémio e incentivo aos pirómanos. Há pouco mais de vinte anos somente existia a RTP e os incêndios ocupavam dois ou três minutos de um noticiário que demorava meia hora. Há pouco mais de trinta, as chamas nem sequer tinham cor. Hoje, as televisões dedicam aos incêndios mais de meia hora de cada serviço noticioso (alongado para hora e meia) e mostram aos pirómanos, com som, cor, transpiração, desespero, a grandiosidade dos seus actos. O que fazer? A única solução credível passaria pela auto-regulação e isso significa que dificilmente algo mudará.»
