
Helena Sacadura Cabral: «Hoje dei com uma carta que o meu filho Miguel me escreveu, por ocasião dos seus 50 anos, depois de uma festa de aniversário que juntou só duzentos amigos. Os que ele considerou terem sido as pessoas mais importantes desse seu meio século de vida, pais e irmãos incluídos, e Tito Paris a cantar as suas maravilhosas canções. Infelizmente, ele não viveu o tempo suficiente para dizer, como eu digo, que “o mais importante da minha vida – à excepção dos filhos – me aconteceu depois dos cinquenta”. Nada, mas absolutamente nada do que foram as duas décadas anteriores valerá, alguma vez, o que me trouxeram as duas décadas que se lhe seguiram.»
Eu: «Sendo [John] Le Carré um escritor que leio há 30 anos, tenho a obrigação de conhecer algumas das suas características fundamentais. Uma delas – na linha de outros autores que muito aprecio – é fazer da topologia um ingrediente essencial dos seus romances. Nas obras deste escritor o cenário é sempre determinante: tem clara influência no perfil das personagens, moldando-lhes as características, e no desenrolar das situações. Seja em Berlim, em Hamburgo, em Hong Kong, no Panamá, na Cornualha ou no continente africano, sabemos de antemão onde situar as cenas. E quanto mais cedo melhor. Diz-me onde estás, dir-te-ei que riscos corres ou farás correr, que luzes e sombras se atravessarão no teu caminho. Há muitas maneiras de escrever romances. Esta é uma delas. No princípio era o topos: toda a abstracção geográfica sucumbe ao claro enunciado desta terceira linha.»
