
Eu: «Fotos a preto e branco, de uma nitidez perfeita. Fotos sem pessoas. Apenas fixando fragmentos de neve, límpida e pura, cobrindo árvores e muros e bermas e vielas, no início de uma manhã já tingida pelo sol. O espectáculo assombroso da natureza, como uma espécie de hino ao milagre do mundo, fixado para a posteridade por quem estava prestes a despedir-se dele.
Há quem receba dinheiro. Ou palavras. Ou diários íntimos. Há quem não receba nada. Eu recebi como testamento do meu avô esta poesia muda das últimas fotografias que tirou, recolhidas durante mais de uma década no interior da sua antiquíssima Rolleiflex. Quase em jeito de epitáfio, como se pretendesse transmitir por imagens ao neto que nunca mais veria: não procures mais, o essencial da vida é isto.»
