DELITO há dez anos


Pedro Correia,

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Ana Vidal: «Fui vê-lo há poucos anos, quando ele veio ao CCB para um concerto único. Levava na alma a memória de um êxtase de adolescência e a absurda esperança de voltar a senti-lo através daqueles magníficos poemas, daquelas melodias inimitáveis. Arrependi-me amargamente. Por culpa das minhas expectativas rebeldes, que sempre ignoram a passagem dos anos, não estava preparada para o choque: o meu ídolo tinha-se transformado num velhinho arfante, de cabelo e voz igualmente ralos, a arrastar os pés no palco (era mesmo capaz de jurar que estava de chinelos). Um drama em gente, como diria Pessoa. Quem me manda medir forças com o Tempo? Agora será eterno, como merecia. A toujours, inoubliable métèque.»

 

Bandeira: «Sabe que as visitas ao paço de Vila Viçosa são guiadas? Saem de hora a hora, acho eu. De uma das várias vezes que lá fui, o cicerone tropeçou na língua, mas fê-lo com filosofia. Falou das virtudes históricas de certa cadeira; contou-lhe os episódios;  e no fim, compungido, olhando tão para baixo que o olhar dele atravessava a cadeira e o chão e a Terra toda, abanou a cabeça e disse: “Não tem valor”. O Oscar Wilde já tinha posto a questão em perspectiva quando fez um dos seus personagens dizer (perdoe a tradução, sei que fala inglês bem melhor do que eu): “O que é um cínico? Um homem que sabe o preço de tudo e o valor de coisa nenhuma”. No Mundo das Ideias do cicerone de Vila Viçosa, preço e valor correspondem-se, eles são uma e a mesma coisa. No bairro Clemente Vicente, honestamente, não sei.»

 

Helena Sacadura Cabral: «Vou falar-vos dos homens que estão na minha memória e que embalaram as minhas paixões. São vários. Na música, quatro: Sinatra, Montand, Cohen e Aznavour. Georges Moustaki é da mesma fornada mas não ocupava o lugar dos outros. Vinha na segunda linha. Acaba de morrer. Ficará o registo da sua voz, já que o da imagem se degradou muito. Quando veio a Lisboa já era um velho. Ao contrário dos outros dois vivos que citei, nos quais o passar dos anos foi menos cruel.»

 

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