DELITO há dez anos


Pedro Correia,

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Bandeira: «Pensava eu que o Euclides tinha oferecido umas sardinhas ao senhor Sequeira, mas afinal foi o contrário: o dono da casa encarregou-se das batatas, do vinho e da mesa, o cliente trouxe o petisco. Nem um nem outro mastigam – o Euclides porque tem sempre muito apetite, o senhor Sequeira porque, enfim, “já não pode”, diz um grande bigode que lê o jornal noutra mesa. O brincalhão quer aproveitar a entrada da mulher do senhor Sequeira para se meter um pouco mais com o vizinho, mas a Dona Zulmira faz-lhe que se cale palerma com um gesto largo e ralha com o marido por ter posto o pão em cima das batatas – “As outras pessoas”, entenda-se o Euclides, “ainda podem querer comer”.»

 

João Campos: «A minha relação com a música dos norte-americanos The National é curiosa. Em 2008, altura em que muito se falava deles a propósito do excepcional Boxer, vi-os ao vivo no festival Optimus Alive (fui lá pelos Rage Against the Machine – ainda não estava bem no mood indie rock, caso isso não seja óbvio). Lembro-me de ter achado o concerto morno, sem chama ou qualquer outra coisa que o fizesse sobressair. Dito de outra forma, não entendi de todo o hype promovido por alguns blogues que acompanhava na época. Isto, claro, até chegarmos a 2010 e High Violet cair nos meus ouvidos como uma bomba. A todos os níveis notável, High Violet fez-me redescobrir uma banda que julgava sobrevalorizada.»

 

José Navarro de Andrade: «As “tias da linha” podem irromper de súbito e assumindo formas inesperadas, às vezes em aparente contradição com o que delas é expectável. Um caso muito discutido recentemente tem sido o da Doutora (por extenso) Raquel Varela (DRV). Alguns estudiosos ficaram surpreendidos por DRV perfilhar um dos alelos da célula trotskista, o que deveria situá-la mais ou menos do lado esquerdo do espectro político. Para esses especialistas, semelhante ideologia, ao manifestar-se no seio de uma grelha comportamental, mental e emocional, tipicamente de “tia da linha” faria de DRV uma impostora. Outros estudiosos, porém, não cessam de apelar à abertura de espírito, declarando que DRV em tudo se conforma ao estereótipo da “tia da linha” e não será por um pormenor de somenos que o deixa de ser.»

 

Eu: «E, de súbito, o reencontro com a excelente escrita de um autor – um dos meus eleitos, um dos meus de sempre. Vergílio Ferreira. Livro: Pensar (Quetzal, 2013).»

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