DELITO há dez anos


Pedro Correia,

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Bandeira: «Alguns dias atrás, a Dona Francisca celebrou o seu 93º aniversário (ela diz 82,mas o Euclides, do Café Africano, diz-me que 82 faz ela há já uma quantidade de anos). Cabo-verdiana de S. Vicente, a Dona Francisca responde a tudo com um inclinar de cabeça e um “Como é?”, por ser quase surda, mas a verdade é que faz uma grande companhia para a conversa.  Abre o jornal, lê as gordas em voz alta, ri-se delas, canta, “Estás no meu coração”. Sentamo-nos à mesma mesa e eu peço-lhe para tirar um retrato. “E porquê não?”,  diz, “Com o vento a soprar assim, eu não posso ir dar o meu passeio da manhã”.  A Dona Francisca parece uma folha seca de tão leve. O marido é mais novo, anda pelos oitentas e carrega malas na estação de Algés. É disso que vivem, parece. Ainda me lembro de quando lhe vi a figurinha pela primeira vez. Entrou na tasca, chamou o pai do Euclides – que a trata por tia, embora não lhe seja nada – e deu-lhe um pacotinho de leite, daqueles pequeninos, dentro de um saco de plástico.»

 

Fernando Sousa: «Quis de repente escrever sobre ele e não consegui. Incapaz de resumir a sua vida e obra – o regime militar argentino que instaurou em 1976 e chefiou nos primeiros cinco anos – ou mesmo de mencionar sequer o seu nome, remeto os leitores do DO para este pequeno texto – Murió la muerte. Não era realmente um marciano e esse é que é o problema: era humano.»

 

Helena Sacadura Cabral: «Começo por fazer uma declaração de interesses: gosto muito de Nuno Lobo Antunes. É difícil explicar porquê, uma vez que não convivemos muito. Eu diria que assim como no amor, também na amizade, existem coups de foudre. É o caso. E posso confessá-lo porque gosto muito da sua Mulher. Há uma serenidade e uma doçura neste pediatra que se ocupa de crianças com graves problemas de saúde que me cativa profundamente. É um inspirador de bondade, se é que entendem.»

 

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