DELITO há dez anos


Pedro Correia,

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Gui Abreu de Lima: «Naquele último ano em Angola eu tinha feito uma exemplar 1.ª classe. Lia todos os reclames da cidade com destreza, contava dinheiro sem dúvidas e inaugurava-me nos caminhos da Liberdade. Vagueava pelas ruas, juntava-me a uns quantos como eu, e a praia Morena era toda nossa. Eu já estava lançada e a minha família habituada, quando vossemecê apareceu todo badalado. Foi vir e ver: só desgraça, só confusão. A bem dizer, tramaste-me a vida. E não foi pouco. Estava tudo muitíssimo bem encaminhado lá em Benguela. Tudo sobre rodas, 25! A minha Liberdade acabou quando a tua começou. Isso não gostei. Não gostei mesmo, ó 25.»

 

Laura Ramos: «À tarde não houve aulas. O almoço foi de família italiana. E depois saímos, competentemente tutelados pelos irmãos mais velhos, deambulando pela Praça em grupos cada vez maiores, para acabar em frente à PIDE, entre centenas e centenas de povo unido: uns a berrar, outros a rir, outros a chorar, outros a pensar. Entretanto, o liceu feminino perdera a virgindade. Entravam amigos a toda a hora. O Sérgio, o célebre Sérgio S. – nosso colega de ano, mas do liceu masculino, o ‘D. João III’ -, inflamava as hostes femininas, de giraço que era… Culto, civilizado, brilhante, inspirador. Falava magnificamente, como Che: em cima de um muro, no palco do ginásio, onde quer que fosse. Bonito, inteligente, ardente, luminoso (um cocktail fatal). Eram as primícias do MRPP, sem que soubéssemos.»

Um comentário em “DELITO há dez anos”

  1. A liberdade da Gui Abreu de Lima era bela, mas estava edificada sobre uma coisa a que em Finança se chama “risco político”.

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