DELITO há dez anos


Pedro Correia,

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Gui Abreu de Lima: «Já vai longa a nossa história. Tu tens séculos para contar e eu décadas. Quando me acolheste era ainda uma menina. Vinha de outro hemisfério, de paisagens cheias de sonhos. Tomaste-lhe tu o lugar. Eras a terra prometida. A saída. O horizonte onde os dias haveriam de medrar. Que o passado, por amor à vida, passado era. Em ti cresci o maior bocado de que tenho memória. E aprendi que embora aos homens fossem destinadas diferentes sortes, tu te davas de igual modo a todos eles. Nunca tiveste reservas, era essa a tua lei. Por isso depressa me apaixonei. (…) Para mim ainda és a mesma, sempre, sempre o hás-de ser. A brisa fresca, a verdura insinuante, os campos até ao rio, montanhas até ao céu, a saia de florinhas, bordada a muros de pedra. Para mim, és sempre a mesma, desde aquele primeiro dia em que me deitaste a mão. Já não tenho aquela força de te correr dia a fio, de subir a cada galha, de aguentar a geada, de amassar uma fornada. Resta-me, vila, olhar-te serenamente. Dizer para dentro de mim “soubesse as pândegas que já vivemos, esta gente…”. Agora é que sou fidalga. Repouso pelos relvados, à sombra dos castanheiros, em vez do vira, ouço fados.»

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