DELITO há dez anos


Pedro Correia,

21523202_SMAuI.jpeg

 

Gui Abreu de Lima: «Quando te vejo assim até me dás medo. Não bule uma palha, está tudo sereno. Nem uma onda, nem uma aragem. Não há receio que te belisque, contratempo que te catrapisque. Vá, sacode essa tentação diabólica. Deixa-te descer ao reboliço da mente, às agruras do ego, à causa alheia. Inverte o sentido, dá-te à condição dos homens. Continua aqui, pelo mistério da vida. Mais uma ladeira, mais uma descida. Já sei que te pões assim, por mor do sossego. Mas agora não podes. É cedo. Há-de vir o dia. Anda, separa-te lá, antes que alguém veja e olhe para nós com olhos de inveja.»

 

José António Abreu: «É verdade que, até certo ponto, o Estado tem obrigação de ajudar: de socorrer, de tratar, de procurar minorar consequências, de alojar provisoriamente. Mas o Estado não tem nem deve ter a obrigação de pagar todos os estragos nem de reconstruir tudo que foi destruído. Fazê-lo implica usar recursos extraídos à totalidade dos cidadãos para compensar quem, tendo muitas vezes forma de se proteger, escolhe não o fazer.»

 

José Navarro de Andrade: «O sr. Lino é o dono do café de esquina onde todas as manhãs sorvo a bica que me põe em marcha. O sr. Miguel é o barbeiro que se distrai com digressões de fervor sportinguista e me rapa valentíssimas carecadas. Ora ambos já me avisaram, com o IVA a 23% o sr. Lino fecha as portas e volta para a terra que o negócio nem para o tabaco, e o sr. Miguel do alto dos seus 70 anos, não está para aturar “lampiõezices” e vão-se todos foder (eu não queria escrever isto, mas, para quem não saiba, é esta a linguagem nas barbearias de bairro).»

 

Patrícia Reis: «Quando se começa no mundo empresarial há ilusões que enchem várias caixas. Uma década e meia mais tarde, em plena crise, as caixas estão vazias ou cheias de outras coisas. Podemos falhar melhor? Não sei. O que sei é que o atelier 004, onde se faz a Egoísta, por exemplo, é uma estrutura quase familiar que começa a ser uma casca de noz num mar que se agita. Oiço as notícias, faço as minhas contas. Observo a vida das pessoas e, no fim, percebo que a única solução é continuar a fazer o melhor possível. Dá o mesmo trabalho que fazer mal feito.»

 

Eu: «Mandar fora a troika seria mandar fora o euro mas sem que nos livrássemos da pressão dos credores. Porque, mesmo de regresso ao velho escudo, necessitaríamos de financiamento externo como de pão para a boca. Nenhum dos nossos actuais problemas terminava – e vários outros começariam. Resta saber que slogans iríamos gritar então.»

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *