
Ana Cláudia Vicente: «Vi carrinhos de bebé quitados com os mais variados e coloridos impermeáveis; pais ataviados como quem comprou bilhete para ir à Patagónia; casais de miúdos com aquela pinta de quem acabou de chegar da viagem à Serra da Estrela. Poucos com medo da chuva e de molhar o sapatinho. Sempre gostei deste ambiente todo-o-terreno.»
Ana Vidal: «A mulher olhou o homem demoradamente. Escorria pelo sofá abaixo, descomposto, de comando na mão e olhos fixos no écran da televisão. “Se algum dia deixar de te amar, é porque morri”. Afirmara ele um dia, pomposo, ainda príncipe encantado. Quantos anos passados? Tantos, tantos. Não sabia porque se lembrara agora daquilo. Olhou-o de novo, quase condoída, mas não resistiu ao masoquismo do teste.»
João Carvalho: «Mário Soares não se limitou a ir buscar o socialismo à gaveta: já declarou que o primeiro-ministro está a governar mal, juntou-se aos que faltaram ao 25 de Abril (mais parecido com o sempre perspicaz Vasco Lourenço e menos com o faustoso Presidente da República que foi) e agora até diz que o País deve romper com a Troika e que o PS deve mandar às urtigas o acordo que subscreveu.»
José António Abreu: «Os meus instintos flutuam entre uma seriedade mal amanhada e uma idiotice plenamente conseguida. Baseado na ideia de que é preferível apostar naquilo em que se é bom, tento com frequência convencer a minha faceta séria a deixar-me abraçar em definitivo a via da idiotice. Ela recusa e cobre-me de insultos. Nas pausas entre eles, uma vozinha diz-me que se trata de uma péssima ideia por, nesse campo, a concorrência ser numerosa e feroz mas ignoro de que faceta provém.»
Rui Rocha: «Já estou por tudo. Que aumentem impostos, que cortem na saúde, que esqueçam compromissos, que prometam repor os subsídios às pingas, que nos mandem emigrar, que ponham 30 alunos em cada turma, pronto, um tipo torce-se todo, mas ainda vá que não vá. Agora isto, isto já me parece um bocadinho de mais: Corpo de Deus suspenso até 2017.»
Eu: «Remarque e Saramago: dois destinos que se cruzaram nesta obra. O alemão que sonhou com o Nobel e nunca o recebeu por ser considerado demasiado “comercial” (só A Oeste Nada de Novo, lançado em Janeiro de 1929, vendeu mais de um milhão de exemplares no decurso desse ano) e o português que venceria o cobiçado prémio em 1998, mais de quatro décadas depois de ter feito esta tradução – e apesar de ser já então um autor de grande sucesso em Portugal, Espanha, Brasil e vários outros países, numa demonstração óbvia de que vender bem não é sinónimo de falta de qualidade literária.»
