DELITO há dez anos


Pedro Correia,

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Ana Vidal: «Fez as malas e foi viver para o facebook. Encontrou mil novos amigos de infância, o amor virtual da sua vida, gente famosa para conviver tu-cá-tu-lá. Povoou quintas, cidades e castelos, deixou likes e smiles em timelines alheios, cuscou o que os amigos andavam a fazer. Partilhou músicas, poemas e citações, aderiu a eventos e causas, assinou petições, postou fotografias de poentes sobre o mar e lolou muito com piadas em inglês. Uma vida em grande, sempre em festa. Um dia, o telefone tocou. Surpreendida, levantou o auscultador, abriu a boca com esforço e tentou articular um “sim?”. Nada. Forçou as cordas vocais, uma e outra vez, mas não emitiram um único som. Tinha emudecido.»

 

André Couto: «Ano após ano o filme é o mesmo. Ou bem que o Benfica faz uma boa época, ou bem que vêm os arautos da desgraça, quais abutres, debicar o frágil e quase inanimado cadáver. Gente desta, que não contribui com ideias ou debate, que não festeja conquistas e limita o seu benfiquismo a sentenças e alarves saltos para o poleiro quando o barco afunda, repugna-me. Estes são ainda menos fiáveis que o outro que era sócio dos três grandes.»

 

Fernando Sousa: «Nunca tinha dormido numa igreja mas a experiência acabou por não ser má.»

 

João Campos: «Mas é o tabaco – a desculpa (esfarrapada) da saúde pública perdoa muita coisa a muita gente (que não vai gostar nada quando a ofensiva chegar ao vinho, ao café, à carne vermelha). Quem vai perder com isto vai ser, justamente a tasquinha lá do bairro. Não vale a pena frequentá-la com a mesma regularidade quando for proibido fumar naquele espaço – o Benfica posso ver em casa, e, de resto, sai mais barato fazer café em casa, tal como comprar minis ou whisky no supermercado. E sempre se pode fumar à vontade (pelo menos por enquanto – há-de chegar o dia).»

 

João Carvalho: «Fico a saber pela televisão que uma aldeia espanhola organizou um referendo para que os eleitores digam se concordam ou não que a autarquia passe a plantar cannabis, com vista a ultrapassar dificuldades orçamentais. Que tal começar a plantar cannabis no jardim da Maternidade Alfredo da Costa?»

 

José António Abreu: «O homem capaz de construir uma guitarra eléctrica a partir de um pedaço de madeira e de uma garrafa de Coca-Cola está de volta, agora a solo. Enfim, mais ou menos. O álbum chama-se Blunderbuss e sai no dia 23.»

 

José Gomes André: «Tenho saudades do Luís M. Jorge no Delito.»

 

Leonor Barros: «Lavo o manto da noite num revigorante duche matinal e desço as escadas acompanhada da Julieta, uma das madrugadoras, as outras gatas reservam-se o direito de longos e preguiçosos sonos devido à idade vetusta e respeitável. Depois de um pequeno almoço frugal acompanhado das notícias matutinas, hábito que vou ter de perder se me quiser poupar uns anos, pego no carro que me guincha com falta de gasolina e grita-me em letras vermelhas NÍVEL DE COMBUSTÍVEL BAIXO. Temos pena.»

 

Luís M. Jorge: «Fazia-te cá falta um Gnomo do Mal, José André? Estás farto de ver fadistas e carros a vapor? O jaa exauriu-te com argumentos de austeridade ad terrorem? (“É o fim dos tempos, continuamos a viver acima das possibilidades, a América finge que encontrou outro caminho mas é tudo mentira – a Sra. Merkel tem sempre razão, vocês vão ver, etc”). Está bem, pronto. Logo cá venho. Mas só escrevo em acordês, claro.»

 

Luís Menezes Leitão: «Não há nada pior para um político que não compreender os sentimentos dos cidadãos. Mário Soares gabava-se de fazer presidências abertas. Cavaco acabou de fechar a sua.»

 

Eu: «Hemingway viu-se forçado a abandonar Cuba em 1960, o que lhe apressou a morte. Vivesse ele hoje e talvez acabasse por escrever um romance sobre aquele desassombrado cubano detido simplesmente por dar vivas à liberdade – anónimo herói da vida real. Robert Jordan – o protagonista de Por Quem os Sinos Dobram – gostaria de o conhecer. E era bem capaz de juntar a sua voz àquele corajoso brado solitário.»

2 comentários em “DELITO há dez anos”

  1. Esta arqueologia é tramada, Pedro..! Ou para vermos como o mundo muda: deixei de fumar vai para quase dez anos, precisamente; deixei de ver o Benfica desde que os jogos do campeonato deixaram de dar em sinal aberto; mudei de casa três vezes, e de emprego vai para quarta agora em Maio.

    A tasquinha a que me referia ficava ali ao Rio Seco, onde a Aliança Operária (onde vivia) cruza com o largo e com a Travessa do Giestal. Boa zona, que há muito não visito. Não faço ideia se os cafés que frequentava ou o talho onde comprava óptima carne ainda estão abertos. Bons tempos!

    1. É curioso sermos confrontados com os nossos próprios textos, João. E, por via deles, com as nossas memórias. Tenho gostado muito de revisitá-los nesta rubrica que já vai longa. Demonstra semelhanças e diferenças, também o que vai ficando naquilo que inevitavelmente passa.
      E saudades, também. Nomeadamente os textos do João Carvalho, aqui já na contagem decrescente para o adeus definitivo. Um blogue como espelho da vida, com as suas luzes e sombras.

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