DELITO há dez anos


Pedro Correia,

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Ana Vidal: «Fui ontem ver “Amigos improváveis“, acabado de estrear nas salas portuguesas. Confesso que ia de pé atrás: a história, por ser verídica e delicada, poderia facilmente resvalar para moralismos e lamechices insuportáveis: a amizade entre um milionário francês tetraplégico e um senegalês delinquente, dois mundos aparentemente inconciliáveis e cheios de contrastes chocantes. Mas não há moralismos nem lamechices, pelo contrário: o filme está repassado de um humor tão política e socialmente incorrecto que percebemos depressa que seria impensável no cinema americano, tão preso a limitações e preconceitos desta ordem.»

 

Francisco Seixas da Costa: «Não duvido que o AO [Acordo Ortográfico] provoque algumas confusões, lexicais ou outras. E concordo em que tem coisas bizarríssimas, como as que derivam da eliminação de alguns acentos e de hífens. Além disso, por exemplo, o arbítrio na manutenção ou não do “h” inicial nalgumas palavras é altamente discutível.»

 

Helena Sacadura Cabral: «Não é possível passar uma hora, em Portugal, sem que o nome de Socrates – o nosso, não o outro, que seria melhor – seja mencionado por uma qualquer razão. Admito que durante a Semana Santa seja um sacrifício que alguém se tenha lembrado de nos impor. Mas no resto de todos os outros dias, Senhor, porque nos impões tanta dor?!»

 

Ivone Mendes da Silva: «Há tempos, andei à procura de fotografias de princesas que tivessem morrido nos finais do séc. XX. Uma daquelas demandas que faço de vez em quando por razões que ninguém entende. Encontrei muitas fotografias e muitas princesas. Tristes infantas defuntas, tristes retratos de princesas de casas reais depostas há séculos, vestidas de seda branca com solene compostura e um diadema de família a prender-lhes o véu de noiva. Eram retratos dos anos 20, 30, 40, mas todas elas pareciam tão antigas como se chegassem da infância da História.»

 

João Carvalho: «O Domingo de Ramos foi instituído a partir do século IV como um modo de recordar essa entrada de Jesus de Nazaré na cidade de Jerusalém. Vários outros costumes foram associados ao Domingo de Ramos e somente na segunda metade do século VII é que o Vaticano restaurou a ordem dos Domingos da Quaresma.»

 

José António Abreu: «Como artista performativa que, para além de escritora, actriz e realizadora, também é, Miranda July nem sempre consegue evitar a construção de situações ligeiramente obscuras e/ou artificiais. Mas torna-se fácil perdoá-la porque, ao contrário do que sucede com outros artistas contemporâneos, em July a encenação tende a ser benigna – parece que acontece sem ela querer, por excesso de entusiasmo e não de presunção.»

 

José Navarro de Andrade: «Orson Welles era demasiado inteligente para gostar de metáforas. Com ele era tudo literal. Donde o medo dela, nem é bem medo, será ansiedade?, diante de uma parede de vidro. Sabemos que é azul porque já ali estivemos, mas o que deles vemos é contra uma luz líquida e branca.»

 

Leonor Barros: «Lembremo-nos de quem nos governa.»

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