
José António Abreu: «Vamos supor que alguém nos emprestava cem mil milhões de euros a juro zero (sim: zero, nada, nothing, rien, nichts, niente, Τίποτα δεν, nicles) e que os distribuíamos equitativamente pelos portugueses. Se não me enganei nos zeros, dá dez mil a cada um, contando com os bebés (e gostaria de salientar que estou a prescindir da comissão pela autoria da ideia). Seguia-se uma festa, a reposição da tolerância de ponto no Carnaval e, mais importante, um aumento no consumo. O qual faria com que parte desse dinheiro voltasse imediatamente a sair do país, uma vez que importamos a maioria dos bens que consumimos.»
José Maria Gui Pimentel: «Numa altura em que a Grécia sepulta cada vez mais a cabeça no chapéu do aluno mal comportado, Portugal não tem outra solução senão tentar a todo custo ser o totó bem comportado da turma. Sim, reconheço que é uma postura irritante, sobretudo num país que se tem colocado nessa posição muitas vezes nos últimos anos. Porém, a alternativa é o país afundar-se agarrado à Grécia. E isso, parece-me, é algo que ninguém deseja. É pois apenas prosseguindo o caminho actual que se poderá chegar a um plano estável em que, aí sim, as diferentes perspectivas para o país podem e devem (a bem da democracia) ser equacionadas.»
Patrícia Reis: «A vencedora dos óscares, Meryl Streep, disse que a amizade é o mais importante. Eduardo Lourenço, nas correntes d’escrita, disse que a amizade é o mais importante. Rubem Fonseca, hoje homenageado pela Câmara de Lisboa, disse que o mais importante é a amizade. Quando era pequena, o meu tio-avô disse-me: se tiveres amigos tens uma casa e, assim, nunca estarás sozinha e desprotegida. Bom conselho.»
Rui Rocha: «A nostalgia é, antes de mais, a ressaca das grandes ausências. Do que nunca foi ou do que, tendo sido, se ausentou de forma irreversível, não deixando sequer ruínas, uma fachada se não for pedir muito, onde possamos ancorar uma possibilidade, ainda que remota, de reconstrução. A saudade que sinto vive da memória do abraço do meu pai. A nostalgia, essa pressinto-a nos grandes espaços desertos dos momentos que nunca fomos e que, como pai e filho, devíamos ter sido.»
Eu: «Já escutei hoje mais de dez vezes a frase “sem surpresas” referente à distribuição dos Óscares. Se não há surpresa, não há notícia. Mas houve notícia. O cineasta galardoado com a estatueta de melhor realizador é francês (quantas vezes isso já sucedeu na história da Academia de Hollywood, ó jornalistas nada surpreendidos?). A película vencedora, O Artista, é uma produção franco-belga (lembram-se da última vez em que isto sucedeu ou se alguma vez ocorreu nestas oito décadas de distribuição dos Óscares, caros amigos?). O actor que recebeu o prémio para o melhor desempenho masculino, Jean Dujardin, é também francês (digam-me, por favor, qual foi o actor fancês que antes dele levou um Óscar para casa). E Christopher Plummer, veterano de longas-metragens que há muito fazem parte do imaginário universal, como Música no Coração, foi o mais velho actor de sempre a conquistar uma estatueta, neste caso destinada a premiar o melhor desempenho secundário: triunfou aos 82 anos numa indústria rendida ao culto da juventude.»
