
Adolfo Mesquita Nunes: «Não sei escrever sobre a morte. Não falo da morte oficial. Falo daquela que se instala devagar, sem ninguém ver, e depois se vai revelando sem que alguém a possa registar. Dito de outra forma: não sei escrever sobre a morte que é morte antes de ser morte. Sei que essa morte tem outros nomes, mas nenhum desses nomes consegue ser tão preciso quanto a palavra morte. Porque há de facto quem morra antes de morrer. Quem se apague, e nos apague, sem querer e sem saber. E é sobre isso que eu, querendo, não sei escrever.»
João Carvalho: «Estou a assistir ao telejornal. Vejo câmaras municipais preocupadas com o frio que afecta os sem-abrigo e com a fome das crianças escolares. Vejo câmaras municipais preocupadas com as tolerâncias de ponto e com os carnavais. Fico estarrecido com este país assustador.»
José António Abreu: «Gosto do tempo frio e não desgosto do tempo cinzento. Temperaturas a rondar o zero, nuvens baixas e carregadas, neblina, vento, chuva, neve. Condições assim combinam comigo. Ou melhor: proporcionam-me uma imagem mais calorosa de mim mesmo. Fazem com que me sinta um ponto de calor perdido numa Natureza fria e hostil. E isso é agradável. Ridículo, talvez. Ligeiramente egotista. Mas agradável. Eu contra o Inverno. Molhando-me. Avançando contra o vento.»
Patrícia Reis: «Todas as doenças nos levam a um qualquer lugar onde pensamos que o mundo está ao avesso ou somos nós que nos vimos, de repente, de pernas para o ar.»
Teresa Ribeiro: «Gostava de chegar e sentir a casa só para si. O bafo quente da presença delas, os cheiros da cozinha, a respiração forte e ritmada da criança que se ouvia do corredor envolviam-no como uma benção. As marcas delas, que mudavam todos os dias de sítio, eram as provas de vida da casa. Jornais espalhados no sofá, alguma loiça por lavar, pingos de gordura no fogão. A desarrumação que as mulheres consentem. Saudável e harmoniosa. Precisava disso. De chegar ao fim de um dia cheio e voltar para o seu ninho disfuncional. Infrequentável aos fins-de-semana, mas adorável quando de madrugada o tinha só para si.»
