DELITO há dez anos


Pedro Correia,

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Ana Vidal: «Os tempos estão difíceis: já não basta aos políticos porem-se em bicos de pés. Agora têm de subir às mesas e mostrar o que valem.»

 

João Campos: «Se em circunstâncias normais a série Discworld seria sempre merecedora de leitura – pela imaginação, pela qualidade da escrita e pela sátira –, numa época como esta ainda é mais recomendável. O humor, afinal, ainda está livre de impostos; e ainda que o riso não resolva todos os problemas, sempre ajuda a descontrair. Em Discworld, começando com The Colour of Magic, Pratchett dá aos leitores um stock interminável de gargalhadas.»

 

João Carvalho: «Gostei de ouvir António José Seguro interrogar o primeiro-ministro no Parlamento sobre o cumprimento da aplicação do desacordo ortográfico. Tocou-me e comoveu-me. Mas não deixo de sugerir a Seguro que, antes desta suma preocupação que agita a sua veia política, comece por pôr muitos dos deputados socialistas a falar português correcto, que é uma coisa que anda tão arredada dos hábitos dos dirigentes políticos como dos hábitos dos dirigentes desportivos.»

 

José António Abreu: «Como outras grandes empresas, os bancos nacionais gastaram nos últimos anos dezenas ou centenas de milhares de euros a delinear «planos de continuidade do negócio». É irónico como tiveram o cuidado de prever a possibilidade de incêndios, terramotos, ataques à bomba ou através de vírus informáticos mas nenhum conseguiu antever os riscos inerentes ao próprio negócio (por exemplo, os relacionados com o excesso de crédito concedido ou com a falta de qualidade dos títulos adquiridos). Mas, enfim, a nossa especialidade sempre foi pensar no acessório.»

 

José Navarro de Andrade: «Cada um de nós tem que escolher que vida pretende: a de Zurbarán ou a do seu nemesis Velázquez, contemporâneos e rivais; aquele provinciano e apologista da Contra Reforma, este cortesão e cheio de delicadezas. Escolho Diego sem hesitar, mas estes Zurbaráns, de Guadalupe, condensam tudo que há a dizer na pintura e valem um mundo. Para mais, são os únicos que podem ser vistos en su sitio original de acolhimento e não em museus, instituições muito  práticas para o amador, mas que desvirtuam o sentido da arte, sobretudo a que foi concebida com o fito de servir e decorar os lugares para onde se destinava.»

 

Laura Ramos: «Sou contra o acordo ortográfico e, por feitio, gosto de causas e de afrontamento, em nome de uma ideia. Acredito também que as reformas só são legítimas quando traduzem um sentimento dominante da sociedade, nascendo, como costuma dizer-se, de baixo para cima, onde mora um Governo que nos representa. E que, quando o sentido é inverso, de cima para baixo – onde moramos nós – essa legitimidade se resume à soberana imperatividade da lei.»

 

Luís Menezes Leitão: «Fico perplexo quando leio no Diário da República palavras como “adoção” que me lembra mais “adoçante” do que “adoptante”. Querer abolir consoantes mudas, em certos casos quando nem os brasileiros as suprimiram, implica tornar a ortografia do português europeu mais brasileira do que o próprio Brasil. E já se percebeu que em África ninguém vai seguir esta medida, caindo Portugal no puro ridículo de ficar como uma ortografia que ninguém compreende e mais nenhum país lusófono adopta.»

 

Rui Rocha: «Vasco Graça Moura sempre disse o que pensava do coiso. E agora que assumiu novas funções, agiu em coerência com as suas convicções. Digam o que quiserem sobre o enquadramento de tal acto no âmbito da gestão de uma fundação de direito privado e interesse público. Repito, fundação de direito privado. D-i-r-e-i-t-o p-r-i-v-a-d-o. Repitam as vezes que quiserem até, por muito que custe, se convencerem. Digam o que quiserem. Sobre um ponto penso que estaremos de acordo. Sim, de acordo. Um acordo desses que pressupõe o encontro de vontades livres e esclarecidas. Um acordo a sério. Em matéria de acordo Vasco Graça Moura não é mudo. Nem é consoante.»

 

Eu: «Desacordo ortográfico aplicado no Centro Cultural de Belém? Nem pensar. Vasco Graça Moura deu instruções para acabar com isso. Não há dúvida: o País está a mudar. No CCB já mudou.»

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