DELITO há dez anos


Pedro Correia,

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Ana Lima: «Daqui a algum tempo, a restauração da independência ou a implantação da república serão esquecidas para serem apenas mais umas datas nos manuais. E a culpa será de uma conjuntura económica particular, de três organizações exteriores e de um governo que certamente, à semelhança de outros, não ficará para a História.»

 

João Carvalho: «Para ultrapassar as chatices das restrições salariais impostas pela austeridade que nos afecta, a Caixa Geral de Depósitos já resolveu o problema: vai promover o pessoal que trabalha lá dentro. Tudo legal, portanto. Só precisamos agora que a famigerada Troika nos faça o mesmo. Portugal está de rastos? Muito bem, mas que tal promover os portugueses a alemães, por exemplo, até ver se a coisa passa?»

 

Leonor Barros: «Neste país ninguém se demite por faltar à sua palavra e mentir vilmente aos portugueses. Deve ser o fado. Admitamos a nossa condição de enganados ou façamos como na Islândia e metamo-los dentro. Diz que o país prospera agora.»

 

Luís Menezes Leitão: «A Grécia vai transformar-se num protectorado alemão e provavelmente Portugal terá  já a seguir o mesmo destino. Nem de propósito o Governo anuncia de imediato a supressão dos feriados que festejam a restauração da independência do país e o regime republicano. De facto neste momento Portugal já não é um país independente e nem sequer merece o nome de república. Mas não deixa de ser estranho que o Governo do nosso país o assuma tão claramente.»

 

Rui Rocha: «A propósito do episódio da alteração do apelido do líder cessante da CGTP no ticker das notícias da SIC, os comentadores mais entendidos nestas matérias salientaram exclusivamente a importância do “v”. Defenderam todos eles que a ausência da dita consoante seria decisiva na deturpação do sentido da palavra. Por acaso, não concordo. Procurarei concretizar o que pretendo afirmar através de um exemplo. Tomemos o apelido Silva. Façamos cair o “v”. Fica Sila, certo? Pois é. Não fica nada de especial. Ora exactamente o mesmo se passa em Carvalho.»

 

Eu: «Para Graham Greene (1904-91), a vida humana dividia-se em duas etapas essenciais: a “idade da confiança” e a “idade do cinismo”. O grande escritor britânico havia entrado já nesta última fase quando decidiu entregar-se à arte do conto, que sempre desdenhara até então, praticando-a com sofisticada ironia, como exímio herdeiro de um Oscar Wilde. Daí nasceu uma das suas mais singulares obras de ficção: May we borrow your husband? (1967), que tem como subtítulo “and other comedies of the sexual life”. Para trás ficara a etapa dos excelentes romances em que o Greene da “idade da confiança” nos legou títulos inesquecíveis como O Poder e a Glória, O Fim da Aventura e O Nó do Problema.»

2 comentários em “DELITO há dez anos”

  1. façamos como na Islândia e metamo-los dentro

    Exatamente, vale sempre a pena lembrar que a Islândia (e a Hungria) seguiram a via de calotear os países estrangeiros. Com sucesso. Sem punições.

  2. May we borrow your husband? (1967), que tem como subtítulo “and other comedies of the sexual life”

    Atualmente, pedir emprestado o marido de outra não é comédia nenhuma, é uma atividade séria que tem por nome swing.

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