Deep shit – 9


Teresa Ribeiro,

Mas estava a falar do bom capitalismo, do capitalismo dos países escandinavos. Acha que é possível transpô-lo para cá?

 

Nós cá temos um mau capitalismo. Hoje temos a crise que não tem nada a ver com isso, e que atingiu todos, ninguém escapou. Mas o nosso mau capitalismo tem um crescimento do produto muito baixo, meio por cento, e esse mau capitalismo… Hoje vimos aqui (numa conferência no CCB) Francisco Louçã enunciar alguns aspectos do pior do nosso capitalismo; mas para o Francisco Louça não há mau capitalismo. O capitalismo para ele é mau. Ponto. Acabou. A conclusão dele é que o capitalismo é mau em si. O PS e o CDS e o PSD, como são a expressão política desse mau capitalismo, não o podem denunciar. Isto é trágico. Os partidos com um programa que podia ser realista estão comprometidos com as piores formas de capitalismo. Aliás, para citar um homem do PSD, o Pacheco Pereira, são escolas do crime. Criam o crime. Não vale a pena tentar dizer mais. Quer dizer, nós não podemos ir a lado nenhum enquanto uma auto-estrada custar não 500, mas mil. Não podemos. Não há meios suficientes para fazer isso. Agora quem denuncia esse tipo de práticas são apenas aqueles que são contra o capitalismo.

 

Ou seja, acha que não temos nenhuma força partidária que possa pôr em prática esse bom capitalismo de que fala? 

 

E que se revolte contra o mau capitalismo. Não temos. O PC denuncia o mau capitalismo de forma atabalhoada, o Francisco Louçã denuncia-o brilhantemente, mas ambos acham que o capitalismo nunca pode ser bom. Portanto, há que ser abatido porque não há bom capitalismo. Isso é uma tragédia. Partidos políticos que governem e podem governar não têm qualquer tentativa séria para acabar com a corrupção, para acabar com as disfunções que tornam o capitalismo em Portugal algo que não pode funcionar.

 

Estamos a duas semanas das eleições e vêm aí muitas promessas… 

 

Mas isso é normal. É a venda. A democracia tem uma oferta, uma procura e tem a venda e quando eu vendo uma casa digo que a casa é boa. O grande problema é que das eleições vão sair partidos com as mesmas práticas de passividade perante a corrupção, de passividade perante os desvios básicos ao funcionamento da economia e vamos continuar com o chamado mau capitalismo e o mau capitalismo não permite o crescimento económico.

 

Saldanha Sanches em entrevista ao Diário Económico.

5 comentários em “Deep shit – 9”

  1. Li pela 1.ª vez o post de maneira superficial. Quando vejo quem era o entrevistado, voltei novamente ao princípio e foi um deleite perfeito. Que diferença entre as conclusões da primeira leitura, muito poucas, e da segunda. Estamos sempre a aprender.
    A perda de Saldanha Sanches é cada vez mais irreparável.

    1. Acredito, é preciso acreditar, na nossa capacidade de autoregeneração, Ariel. Acho que passará, ncessariamente, pelo fortalecimento da sociedade civil. Temos que passar a ser mais reivindicativos e exigir dos políticos outra atitude. Este modelo esgotou-se.

      1. Não duvido das nossas capacidades individuais, Teresa, o que duvido e muito é da nossa capacidade enquanto colectivo, dentro deste espaço territorial que dá pelo nome de Portugal. nunca fomos grandes cá dentro, e não é agora que vamos ser. estou errada? como eu gostaria….

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