Antes de entrarmos na UE produzíamos mais de metade do que comíamos, tínhamos ainda um mundo rural e agrícola e um país relativamente equilibrado entre o interior e o litoral, a província e as grandes cidades. Mais de duas décadas depois, o que vemos? Produzimos menos de um quarto daquilo que comemos; à força de subsídios, desmatelámos a frota pesqueira e deitámos fora toda uma cultura e saber que demorara gerações infinitas a apurar, passando a importar todo o peixe que vem à mesa; gastámos fortunas a pagar aos agricultores para eles abandonarem os campos ou ficarem sentados a ver em que parávam as modas, sem investir, sem inovar, sem arriscar.
De caminho desmantelámos a fileira florestal tradicional, substituindo-a por um oceano de pinheiros e eucaliptos, contribuindo ainda mais para a desertificação e os incêndios de Verão.
Gastámos rios de dinheiros europeus que nos poderiam e deveriam ter garantido a solvabilidade e independência económica para sempre, a construir auto-estradas e duas megacidades onde as pontes e os terminais de transportes de toda a ordem nunca são suficientes para colher o Portugal que fugiu do interior morto.
Assim tornámos o país insustentável e não foi por falta de avisos nem de particular estupidez dos governantes. Foi claramente para servir os interesses particulares que vegetam perpetuamente à sombra o Estado, tornando impossível qualquer política que privilegie o interesse público. – Miguel Sousa Tavares, no Expresso, a 3 de Maio de 2008
Entre 1960 e 1995 houve uma verdadeira cavalgada: fomos o país que mais cresceu e se desenvolveu na Europa, com uma mudança demográfica completa, outra nos costumes, algo de absolutamente fantástico. De repente chegámos a 90 ou 95 e percebemos que não tínhamos inovado nem criado muito. Fizemos auto-estradas – qualquer país com um cheque na mão as faz – mas não fizemos novas empresas, novos projectos, novos produtos. E perdemos muito do que tínhamos. Demos cabo da floresta, demos cabo da agricultura, demos cabo do mar. Três coisas imperdoáveis, três erros históricos. Importamos 4/5 do que comemos.
Se não houvesse Europa e se ainda houvesse Forças Armadas, já teríamos tido golpes de Estado. – António Barreto, ao i, a 28 de Novembro de 2009


Pior do que isso é conhecer cidades no interior como Castelo Branco, Portalegre, Elvas, Estremoz, Évora, Beja ou Moura para as ver completamente transfiguradas em Cidades-Estado, na medida em que as suas economias dependem completamente do poder Político. A maior festa é mesmo o facto da iniciativa privada ser completamente manipulada pelo poder autárquico, quer pela elegibilidade dos investimentos que permitem efectuar nas suas zonas industriais, quer depois tornando-se nos seus principais clientes, ou mesmo sendo os Municípios as maiores entidades empregadoras dos seus concelhos (vejam-se Elvas, Alandroal ou Monforte!).
A fama de provincianos das gentes do interior é completamente merecida, pois as suas vistas raramente alcançam para além da cidade onde moram. Com honrosa excepção para aqueles que tomam a iniciativa de rumar a outras paragens onde o mérito seja minimamente reconhecido.
Se fosse só ao nível autárquico que a iniciativa privada é completamente manipulada…
Há mais de 15 anos que não vou às cidades que menciona, com excepção de Castelo Branco onde estive o mês passado.
Encontrei uma cidade desenvolvida não só economicamente (a crise ainda não chegou lá), mas também e bastante, no campo cultural, artístico e social. Não cheguei a perguntar de que cor política é o EDIL.
Registei com agrado, que ambos os autores atribuíram a NÓS (governantes incluídos ), a responsabilidade do que consideram mal feito. É discutível se a “desertificação do interior” se não se poderá chamar “alívio da carga demográfica sobre a natureza”.
Gostaria de perguntar ao Sousa Tavares, acérrimo inimigo dos campos de golfe, o seguinte:
– Quem emprega mais gente e paga melhores salários? Um campo de golfe ou uma área agrícola equivalente?;
– Com a riqueza obtida num campo de golfo, quantas vezes mais comida podemos comprar do que a que produziamos antes numa área agrícola equivalente?
O dia 28 de Maio assinala a implantação do Estado Novo em Portugal e para mim ainda estamos a pagar o preço dessa mudança.
O país fechou as portas ao exterior, cultivou os vícios de um regime totalitário, e hoje em dia ainda vivemos com as cicatrizes.
Quem conhece o país sabe que as coisas são assim. Toda uma geração continua parada no tempo e avessa à mudança.
Com a revolução de Abril tentou-se o impossível: mudar as matrizes política, social e económica duma vez só. Tal é impossível num regime democrático. Apenas o tempo pode transformar um país e pela ordem certa: primeiro políticamente, depois social e finalmente económicamente.
Vai ser preciso uma renovação de gerações para que os nossos problemas económicos sejam resolvidos, pois continuam acorrentados aos vícios dum passado muito recente.
A nossa democracia só agora começa a aprender a andar e cabe à geração da Revolução pôr este país de pé, para que aprenda a pensar por si.
Por agora continuamos de gatas…