Domingo há eleições, mas têm pouco interesse.
Os executivos municipais sabem que não podem mexer no quadro de pessoal senão para o engordar, que devem subsidiar festas e a “cultura”, arranjar os jardins e tratar da recolha de lixos, dar uma mãozinha às freguesias, regular o trânsito e o estacionamento, tratar dos cemitérios e do abastecimento de água, e, em todas estas coisas e uma miríade de outras, serem muito modernos.
Se a moda é infernizar a vida do automobilista, “requalificando” ruas pelo expediente de lhes alargar os passeios, que se limitam com pilaretes, pois que seja; se a UE dá milhões para fazer ciclovias, mesmo onde as cidades não são planas e por isso nem um só automóvel é substituído pela bicicleta, que não serve para ir às compras nem para levar os miúdos à escola, ou os velhos ao centro de saúde – venham elas, as ciclovias, que a canalhada vai para lá pedalar ao lá-vem-um, equipada a preceito no Decathlon; se há dinheiro para separar o lixo é que é já a seguir, umas vezes enterram-se uns contentores gigantones e outras faz-se umas ilhas às cores onde os munícipes separam com gosto os detritos, seguros que é assim que se faz “lá fora”.
Pavilhões multiusos onde os cantores da moda vão ganir as melodias que ficam no ouvido, e mesmo as que não ficam, ou onde se fazem feiras temáticas; um museuzinho onde se recolhem uns trastes com vago interesse regional ou histórico; o centro cultural onde se fazem exposições de fotografia ou de pinturezas contemporâneas, quando não se passam umas fitas cinematográficas cujo enorme interesse um indivíduo encardido, com caspa e óculos, vem explicar aos gentios; a piscina, se não houver mar ou rio, casos em que, no primeiro, se autoriza a construção de um paredão de prédios em frente à praia e no outro se instala com desvelo uma praia fluvial; a rotunda que artistas consagrados enriquecem com as suas esculturas, ou o que por isso passa no parecer dos entendidos: são tudo exemplos do que se toma por gestão municipal. E, embora geralmente sem grande entusiasmo, as câmaras municipais chegam a ponto de fazer saneamento e pavimentar arruamentos degradados, ainda que nestes, desgraçadamente, jamais consigam que as tampas do dito fiquem à face.
Esta, a gestão municipal, entra em paroxismo com o aproximar das eleições, seguros que estão os edis de que o eleitor médio, se vir muitas obras, fica satisfeito, mesmo sabendo que a urgência é interesseira, e as obras nem sempre as mais judiciosas ou necessárias.
Tudo isto está próximo da vida do cidadão, muito mais por vezes do que o que se discute na AR. Mas o salário mínimo, ou o médio, ou a pensão, ou o que diga respeito à saúde, ou ao ensino, ou à liberdade de opinião, ou à legislação penal, ou qualquer outra legislação que não seja de posturas, não está em discussão. E por isso estas eleições são vistas, com alguma razão, como um ritual.
Há no plano nacional escolhas de políticas, e no local sobretudo de pessoas, que se distinguem umas das outras porque quem não está diz que fará melhor as mesmas coisas que faz quem está. Que isto é assim prova-se pelo facto de quase sempre quem esteja ganhe, mesmo que tido por corrupto, mesmo que parlapatão, mesmo que, em casos extremos, um completo imbecil, da variedade que chega a acreditar no que diz em discursos de Mirabeau de aldeia com internet. O eleitor que acha muito bem o que faz o senhor Presidente vai lá, à urna; o que não acha bem nem deixa de achar, mas é ferrenho do mesmo partido ou pelo contrário da oposição, também; e os outros ficam em casa, que de todo o modo isto de políticos, como sabe com grande certeza e imensa superioridade quem não se dá ao trabalho de votar, é tudo farinha do mesmo saco.
Uma visão demasiado negativa, a minha? Talvez, mas de um abstencionista é que não é, mas antes da variedade de eleitores que, não tendo ilusões sobre o prodigioso acervo de tolices que mora nas municipais cabeças, que reproduzem democraticamente os disparates que habitam as dos eleitores, ainda assim não esquece que estas eleições, como todas, têm uma leitura nacional.
Leitura nacional no conjunto e também num ou noutro município em que as coisas possam mudar, por razões circunstanciais.
Lembro-me de dois casos: um é o da Figueira, onde o antigo menino dourado do PSD se reformará, produzindo talvez algum bem. É justo: Santana Lopes nunca teve gravitas, que sempre substituiu por uma mercurial inconstância, mas é impoluto e serviu. Os pecadilhos que Sampaio pretextou para lhe calçar uns patins empalidecem perante os abusos sul-americanos do governo em funções, que Marcelo e os comunistas de serviço amparam; e quem lhe verberava a inconsistência para o desempenho das funções de líder do PSD deve estar satisfeito porque lá consistente Rio é – na asneira.
O outro é Lisboa, a sala de visitas do país. Uma sala de visitas onde todos os erros da gestão municipal aparecem magnificados pela mediocridade estentórea de Medina e a abundância de dinheiro: a descaracterização, o ódio ao automóvel, a obscuridade da gestão das empresas municipais, o caos dos transportes públicos, a torrefacção de recursos, a elefantíase dos quadros, a via dolorosa dos licenciamentos, a obsessão com ciclovias e quanto modernismo acéfalo anda no ar, e um longo etc. que boas cabeças na Assembleia Municipal e no espaço público não cessam de denunciar.
Moedas não é, por muitas razões, personagem que esteja no meu altar de figuras públicas, aliás singularmente pouco povoado. Mas tem superfície, enquanto Medina, a despeito do colo da comunicação social, é uma inexistência intelectual. E em Lisboa como no resto do país o PS faz parte dos problemas, não das soluções. No dia em que a direita regresse ao poder (e esse dia virá, fatalmente) será precisa uma oposição, cujo papel é essencial. Mas nem para isso este PS serve, embrulhado que está em comprometedoras alianças com partidos antidemocráticos, envenenado com tiques autoritários e manipuladores e mexicanizado na promiscuidade com uma comunicação social que, na sua maior parte, para renascer precisa de falir.
De modo que, seja por amor a Lisboa (sim, há quem ame aquela cidade, valha-os Deus) ou ao país, há que votar Moedas.
E aqui, na minha cidade? O candidato da coligação PSD/CDS nem sei quem é, nem desejo saber o que pensa, que é para não me incomodar, mas tem o meu voto – o PS é quem está, e deve ser removido.
CDS? Foi desse partido que me desfiliei publicamente, em texto que a mim já interessa pouco, ao partido quase nada e à opinião pública absolutamente, o que tudo está na ordem natural das coisas.
Mas o Chega! defende soluções, em matéria penal, que bastam para me pôr a milhas, mesmo sem escabichar outros aspectos programáticos; e a IL, para onde se inclina a maior parte dos meus amigos, é regionalista, credo. Como a regionalização é uma porta aberta para o gigantismo do Estado, a promoção da corrupção e a diminuição da liberdade (308 terreiros do Paço são uma visão dos infernos, o original tem ao menos a virtude de ficar longe), e eu sou centralista com um Estado mínimo, t’arrenego.
Temos então que me ofereço para exemplo. Quem não for comunista, não tiver negócios com o município, nem dele depender, ou não acreditar no senso de frei Anacleto Louçã e na fé venezuelana que as suas assessoras no Parlamento professam; ou quem for socialista mas achar que este PS precisa de uma cura de oposição: tem um remédio, vota onde vir o símbolo do CDS.

Ainda que eu não conclua da mesma forma: grande texto!
Obrigado. Lá muito muito “grande” não deve ser, senão tinha-te convencido.
Isso seria pedir demais. Ao leitor.
Declaração de voto só como delito de opinião, doutra forma é também a mesma coisa.
a IL é regionalista
É? De verdade? Eu sou militante da IL e nunca me tinha apercebido de que fosse.
De qualquer forma, pergunto: o que é, exatamente, na definição do JMG, ser regionalista?
Eu não sou militante da IL mas não tenho qualquer dúvida sobre isso, sem precisar de me dar ao trabalho de escabichar o programa. Do ainda hoje, a meu ver, principal impulsionador da IL, Carlos Guimarães Pinto, já ouvi apaixonadas declarações nesse sentido, e tem pelo menos um texto, publicado algures, nesse sentido.
O Carlos Guimarães Pinto (CGP) foi de facto um importante impulsionador da IL numa certa fase (campanha eleitoral para as legislativas de 2019), mas não foi (creio eu, não posso garantir) sequer um dos fundadores da IL e atualmente, se fôr militante da IL, é-o somente por pagar quotas – não tem nenhum cargo no partido. Não se pode de forma nenhuma confundir as posições do CGP com as posições da IL.
Eu estive na última Convenção Nacional da IL que teve objetivos programáticos, em dezembro de 2019 (já depois de CGP ter abandonado a liderança do partido), e li a principal moção aprovada, e nela não me lembro de ter visto qualquer referência a qualquer forma de regionalização. Se tal referência lá estivesse teria sem dúvida sido muitíssimo polémica, porque há sem dúvida muitos militantes da IL que são tão pouco regionalistas quanto o José Meireles Graça, e a IL procura evitar grandes dissensões internas, assumindo-se pelo contrário como “o partido de todos os liberais”.
Nem estou a ver por que razão um partido liberal teria de ter uma opinião sobre isso. Creio que um partido liberal não sentiria a necessidade de legislar sobre uma reconfiguração da divisão administrativa. Pelo contrário, tenderia a dissolver esse tipo de legislação e esse tipo de estruturas.
Pelo menos era se fosse eu a mandar, mas eu sei lá já não confio em ninguém.
Se experimentar uma bicicleta eléctrica perceberá porque em cidades cheias de colinas como Lisboa a bicicleta ficou um meio de transporte com as mesmas limitações que nas cidades planas, nem mais nem menos.
Sim, mas uma bicicleta elétrica é consideravelmente mais cara de utilizar do que uma bicicleta normal. Uma viagem em bicicleta elétrica fica mais ou menos ao mesmo preço que uma viagem em transporte coletivo. De facto, a maior parte das pessoas que usa bicicleta elétrica fá-lo em substituição do transporte coletivo (autocarro, metro) e não em substituição do automóvel.
Quanto às bicicletas, e do alto da experiência de quem esteve meio ano estacionado no país delas:
– o relevo é importante, pedalar em terreno plano não é o mesmo que em subidas íngremes (ou descidas, que isso dos santos ajudarem é mentira)
– a cultura demora anos, não pode ser imposta. Quer dizer, poder, pode, como alguns países o mostram
– enquanto que nos países de cultura velocípede as cidades são desenhadas e construídas a pensar TAMBÉM na bicicleta, em Portugal a ciclovia é uma coisa martelada. Em muitos casos incomoda peões, veículos automóveis e as próprias bicicletas
– o uso dos veículos a pedais depende também das distâncias a percorrer. Em Portugal, os locais de residência. trabalho e ensino nas grandes cidades têm grande distância entre si.
A liderança pelo exemplo continua a ser das mais valiosas. Dos políticos defensores da mobilidade suave, quantos fazem as suas deslocações diárias em bicicletas? Ou mesmo em transportes públicos, fui utente da Linha de Cascais durante anos e nunca lá vi o Costa. Teríamos horários desfasados, certamente.
Os executivos municipais […] devem subsidiar festas e a “cultura”, arranjar os jardins e tratar da recolha de lixos, dar uma mãozinha às freguesias, regular o trânsito e o estacionamento, tratar dos cemitérios e do abastecimento de água
(1) Não há qualquer obrigatoriedade de os municípios subsidiarem nem festas, nem “cultura”.
(2) Muitos municípios não tratam do abastecimento de água. Alguns fazem-no, mas em muitos outros quem o faz são empresas.
(3) Quem arranja os jardins são as freguesias, não os municípios.
1) Pois não, enunciei o que os municípios fazem por exigência, real ou presumida, dos eleitores, não o que são legalmente obrigados a fazer; 2) As empresas são concessionárias, porque a água é um bem público. É uma ingenuidade imaginar que estas gestões são minimamente transparentes, mesmo que em tese prefira concessões a administrações directas; 3) No meu concelho, como em muitos, quem trata dos jardins é o município, o que faz aliás sentido por razões de escala.
fazer ciclovias, mesmo onde as cidades não são planas e por isso nem um só automóvel é substituído pela bicicleta
As cidades não serem planas tem pouco a ver, hoje em dia, com a utilização de bicicletas. Boa parte das bicicletas atualmente são elétricas. Muita gente atualmente usa bicicleta (elétrica) para ir trabalhar, mesmo em cidades pouco planas. O meu filho, por exemplo, usa-a para ir para a universidade. Embora seja verdade que a bicicleta raramente substitui o automóvel – mais frequentemente, ela substitui o transporte doletivo.
“o ódio ao automóvel”
O automóvel é visto como autonomia do individuo e família em relação ao estado. No socialismo isso não pode acontecer.
Como o PM desavergonhadamente tem frizado, as finanças -bazuca ou não- das autarquias, estão completamente dependente do poder central, ou seja do PS.
Os regulamentos da UE, quanto à forma de utilização dos fundos “bazuca”, terão sido elaborados para ser executados por governos democratas, a sério, mas….
A partir das exaustivas intrevenções nestas eleições autárquicas do PM, sejamos claros, todos os votos não-PS nestas eleições autárquicas, serão, deverão ser interpretados como um corajoso grito de revolta dos eleitores locais contra o PS, contra este PM. Apesar de semelhante chantagem.
As abstenções são o costumeiro desprezo, ou alienação, pelo fenómeno “dito” democrata como por cá se pratica e como é protagonizado.
DECLARAÇÃO DE EMBUSTE
Depois de meses e anos de observação e calibragem do desempenho dos nossos eleitos, quase sempre os mesmos, querem sempre reduzir-nos ao foguetório de uma torpe campanha de engodos por alguns dias, e de um miseravelmente repulsivo dia de encolhida reflexão.
Estes especialistas de enlatados merecem ser entalados.
Então não se construíam espaços desportivos e não se realizavam festas populares?
Não se fazia absolutamente nada para não ser eleitoralista?
Ora bem. Um dia explico-te Lisboa.
Está bem, João. Desde que não seja num restaurante gourmet.