Declaração de voto


José Meireles Graça,

(Continuação de ontem)

Resta Tiago Mayan. Sofre por não ser conhecido, ter o patrocínio de um partido que, por não ter massa crítica nem história, ainda se permite alguma rigidez ideológica, e por a sua inexperiência propiciar alguns faux-pas – muito menos, porém, do que seria de esperar. O resultado é uma incógnita: beneficiará, pelo menos, do eleitorado da IL, mas não é provável que, por puro desconhecimento (quem viu os debates, hem?), vá arrebanhar muitos mais.

E então, Marcelo é de direita, uma direita social, como ele diz? É sim senhor, na exacta medida em que isso o faça ser popular. Porque se para conservar a popularidade for necessário acentuar o social a ponto de se confundir com uma governação socialista (a governação socialista mais à esquerda que o país já teve, desde logo porque apoiada por comunistas), então Marcelo não hesitou.

Na retórica marcelista, a sua benevolência decorre da necessidade de estabilidade, do facto de o Presidente não dever ser uma força de bloqueio, e da legitimidade democrática do Governo, que foi eleito para governar, enquanto ele para presidir.

Tretas. A estabilidade é um meio para atingir um fim. E o fim não pode ser uma governação que engordou o Estado enquanto a dívida se manteve em níveis estratosféricos, com uma redução duvidosa e tímida, num pano de fundo em que o único crescimento foi o engendrado pelo turismo, um bodo que caiu do céu. Isto enquanto o BCE passou a ser acomodatício, sem nenhuma garantia de que o será indefinidamente, e com o país a deslizar consistentemente para os últimos lugares do desenvolvimento.

O Presidente pode e deve ser uma força de bloqueio, na medida dos limites constitucionais, e tem para isso legitimidade porque, ao contrário do Governo, recheado de anónimos, foi directamente eleito. E isto para não falar da famosa magistratura de influência, que Marcelo diz ter exercido nos bastidores. Devem ter sido abraços, selfies confidenciais, e pedidos, face a escândalos sucessivos: vejam lá se dão um jeitinho.

Para termos um Presidente que reina, talvez não fosse pior optar pela monarquia: ao menos o Rei tinha fardas de gala, entretínhamo-nos com as trincas e mincas da Família Real, ganhávamos uma visibilidade internacional que ajudava o turismo que há-de voltar, e ficava-nos mais barato.

O social da argumentação marcelista está lá para justificar a imensa máquina do Estado patrão, regulador, intervencionista, paternalista, e para lembrar aos distraídos que é social-democrata da variedade Rio – não da variedade Passos Coelho, que um dia lhe chamou, com razão, catavento.

Marcelo não é de direita, a menos que por isso se achasse que basta ser católico, não comunista (em vez de anti), titubear umas coisas equívocas em questões sociais e derramar há décadas em torno de si um imenso caudal de banalidades respeitadoras do ar do tempo, com a única marca distintiva – essa sim, genuína – de agradar.

Amanhã continua, se a paciência dos leitores não estiver já, tristemente, exaurida.

12 comentários em “Declaração de voto”

  1. Pelo contrário prossiga sff, pois que ler boa análise, genuína, sobre a actualidade nacional é coisa rara.

  2. CONTAGIOSO INFETADO
    Marcelo não passa de um ator falacioso, com máscara de sorriso montado, hipócrita e manhoso, que ao ouvir nos debates quem o enfrenta, deixa frequentemente cair o disfarce, quando alarvemente interrompe opositores numa postura professoralmente ameaçadora de vara em riste.
    Como se em vez de concorrente fosse comentador e sentenciador implacável.
    Padece de de uma falta de coragem de morbidez assustadora, ao ponto de para dar uma pedalada ter que pedir licença à bicicleta.
    Será que sobre a estupidez de não fechar as escolas nesta situação calamitosa nunca ouviu falar?
    Esta figura, com roupagem de manequim de montra simplesmente não é de confiança.
    O homem pode escorregar e cair todo esfarrapado, mas tem sempre carregadores de serviço para o içarem escadote acima para o pedestal das tão solenes como inquinadas aparições.
    Ele não confunde o lado institucional de presidente com a figura comum de candidato, simplesmente usa qualquer das fatiotas ao sabor da sua conveniência umbigada.
    Quando será que alguém atira cara a cara ao extenso moralista de pecados alheios, a sua própria postura em todo o mandato, chorando baba e ranho, carregado de sofreguidão pelo palco que ele próprio pratica acusando outros?
    Perante a insinuação de que um seu adversário em debate, por ser dirigente de um novo partido, estava ali na mira de mais altos cargos a nível politico faz-se ruidoso silêncio.
    Além do mais, parece que toda a gente se esqueceu de lhe lembrar que o seu miserável objetivo se foca essencialmente em bater o recorde de Mário Soares.
    Merecedor do cognome de fastidioso e dogmático sacristão itinerante, calcorreando várias paróquias à conta de enganosa cartilha de algibeira.

  3. Ventura representa o facilitismo. Responde a problemas complexos com a simplicidade que a sociedade das redes sociais do mundo a preto e branco e da satisfação rápida aprecia.
    Temos um problema com a atribuição indevida de RSI? Ora bem, retire-se o RSI aos ciganos. Problema resolvido.
    Temos pedófilos? Castração química neles. Claro que não está provado que penas e castigos mais severos impedem crimes (é isso que se quer, certo, impedir a pedofilia?), caso contrário não havia tráfico em países onde tal é punido com pena de morte, mas há o sentido de dever cumprido.
    Desemprego? É correr com os imigrantes que a coisa se resolve. O quê, não há gente para limpar latrinas? Mande-se para lá os presos. Problem solved.

    A realidade é que as pessoas diariamente têm e sentem problemas que os afecta directa ou indirectamente, e o Candidato Ventura, qual vendedor de elixir capilar, tem resposta para todos eles. É difícil pensar de barriga vazia, pelo que alguns votos podem resvalar por engano para o senhor..

    1. Não querendo criticar a sua análise, porque já foi a minha, não posso deixar de sugerir, para bem da formação de uma opinião assente em informação completa, que procure mais esclarecimento sobre esses assuntos.
      Quando ouvi e li sobre isso, a minha primeira atitude foi de repulsa. Depois questionei se seria de facto assim tão linear e básico, pouco fundamentado e anti democrático. E tomei a iniciativa de me inteirar, percebendo, com alívio, que as coisas não eram assim tão cruas, como propalado e pouco explicado.
      Temos um problema com o RSI. Sim temos e temos porque a fiscalização é nula, dependente apenas de folhas de rendimentos que podem se manipulados, escamoteados e nunca de verificação in loco do subsidiado. Uma eficaz atribuição, poderia até resultar num aumento do subsídio de quem realmente dele necesssita e que é insuficiente actualmente.
      Ri-me com a reportagem da SIC, sobre ciganos e o CHEGA. Ter um indivíduo a dizer que passa muitas necessidades e precisa do dinheiro do estado para não passar fome, quando o jornalista se esquece que atrás do entrevistado está a sua casa, gratuita, com ar condicionado e tv por satélite, e estacionado à porta de casa está um SUV Volvo, dá que pensar se de facto o estado é rigoroso na atribuição e mais ainda, se o estado exige retribuição do beneficiado, nos termos do cumprimento das regras de vida em sociedade, como escolaridade para os filhos, preservação do património, cumprimento das leis e de hábitos de higiene pública.
      Sobre a mais polémica de todas, a castração química, novas dúvidas sobre se seria assim algo tão cruel. Mas quando me informo sobre o assunto e verifico em que circunstâncias a medida pode ser aplicada, a quem, depois de quê e acima de tudo, apenas com o consentimento do visado, numa perspectiva terapêutica, percebo que não é bicho nenhum.
      A pena perpétua é outra que tal. Encarcerar alguém até à sua morte, é inconcebível para mim. Mas também é inconcebível aplicar-se 25 anos de cárcere a alguém que mata outro, e quando na mesma pena incorrre alguém que mata 100, ou 200. Nessa medida, a pena perpétua, ou pelo menos a possibilidade de várias penas se sobreporem, não é descabida, muito menos quando se prevê a sua revisão de tempos a tempos, de modo a aferir a recuperação e integração do criminoso.
      Ou seja, quando devidamente analisadas, as propostas, supostamente anti democráticas, já não parecem assim tão execráveis.
      E o que falta é de facto coragem para as debater, para as analisar publicamente, para as dissecar e dar oportunidade às pessoas de as conhecer realmente. Esconder, ou omitir, ou não esclarecer as pessoas, é que não pode ser, nem é uma atitude democrática.

      1. A questão do RSI é paradigmática. Como em tanta lei nacional, temos má legislação, pouca fiscalização, e rara aplicação. A solução é melhorar a criação, fiscalização e execução da Lei, e não atacar A ou B.
        porque não tenho dúvidas de que há ciganos que mamam o RSI sem razão para tal, mas tenho certeza de que existem casos idênticos em bons caucasianos lusitanos. As orientações políticas devem ser dirigidas ao país, e não a grupos específicos. Claro que isto é difícil…
        Castração química, não quero saber se é doloroso, humano ou o que for. Era o melhor, o Estado andar agora a aplicar castigos corporais, desde que doa poucochinho. Sou a favor de penas de prisão mais pesadas (e contra isso dos cúmulos jurídicos), até porque vejo o encarceramento não apenas como um castigo/reabilitação mas também como um modo de proteger a sociedade de diversos indivíduos e comportamentos.

        1. Sem dúvida. Os subsidio-dependentes não são exclusivos de uma parte da sociedade.
          E creio que a utilização dos ciganos para expor este problema se deve em parte, ao facto de exercerem um ofício, sem pruridos, sem esconder, à vista de todos. Esse é o principal motivo. Porque a aplicação do RSI é feita a quem não tem rendimentos, nem fontes de rendimento, ou eventualmente a quem necessita de os completar. Ora, neste caso, existe o exercício de uma atividade rentável, à vista de todos, que não é tributada, pois se fosse, não haveria RSI.
          O problema cigano não o problema em si, é o problema que tem impacto nas comunidades que vivem em seu redor.
          Sob a castração, é erro olhar para o programa como um castigo, ou um que dói menos. O programa é uma terapia e uma medida acessória a uma pena, que poderá fazer a diferença ao criminoso. Encarcerar um pedófilo reincidente, e esta palavra é muito importante, reincidente, não lhe resolve o problema. Quando libertado, a sua doença mantém-se. Se é reincidente, a probabilidade de os seus impulsos o levarem a cair nas mesmas tentações, são grandes.
          Por fim, não podemos esquecer que, a partir do momento que a medida é opcional, prevê-se que apenas aqueles que de facto percebem que têm um problema, que esse problema prejudica terceiros e que não têm força para o reprimir, irão optar por esta via.
          E a esses, que demonstram esta vontade de melhorar, as penas privativas de liberdade, seriam reduzidas.
          Mas isto é algo que não passa. Ninguém tem vontade de partilhar estas informações sobre a questão. Diabolizam e impedem o português de saber o que de facto é.
          Para se saber é preciso pesquisar, procurar. Não deveria ser assim, porque não é com outras questões.

        2. Quer o anonimus dizer que resolve a questão social matando peixe miúdo. E usa a castração como símbolo de castigo/reabilitação.
          Em resumo o problema de Portugal está no RSI e nos não castrados. Mas os não cadastrados (sim, eu disse não cadastrados), e até se conhecem alguns, podem continuar em roda-livre para mamar subsídios para suas corporações, empresas, bancos e até mesmo fundações.
          Concluindo, você admite manter a adulteração do sistema se este parecer que faz alguma coisa, isto é, fingir que vive do trabalho.

          Você e o aVentura estão bem um para o outro.

  4. Hoje em dia um tipo assumir-se católico é um dilema. O catolicismo, semelhante às demais, não é uma religião mas uma instituição.
    Com o devido respeito pelos que merecem respeito pela abnegação que vão revelando – felizmente encontram-se alguns -, devo confessar minha incapacidade em poder compreender quem tanto fale de Deus, e refiro-me a todos ou todas, e pouco ou nada o revele e tampouco o conheça.

    A institucionalização do pensamento, à semelhança dos estados ditos laicos, é a forma mais devastadora de se propagar a apostasia e de adorar o secularismo.
    As instituições ao invés de se dedicarem ao serviço daqueles para quem dizem ter sido criadas transformam-se em ministérios de servidores de si mesmas que se alimentam de quem devem alimentar. Em conclusão desta primeira parte, transformaram-se em funcionários administrativos que cumprem regras internas que abusivamente transferem para o exterior em forma de culto. É este o princípio do secularismo, isto é, substituir a norma de uns para introduzir as próprias. São ambas, estados e religiões, instituições na aparência separadas e semelhantes na forma. Parece contraditório mas o paganismo é isto mesmo: o culto do nada em favor da figura.

    Poderá sempre usar-se uma imagem actual para melhor compreender isto: determina a Constituição a separação dos diferentes poderes. Mas o poder político tem primazia na nomeação, mesmo que adulterada, de quem melhor o sirva para representação da justiça. E isto também se aplica para o Tribunal de Contas. É caso para dizer: morra Marta mas morra farta.
    Alimentar isso é propagar o erro e a mentira. Mas virar as costas a isto também propícia o anteriormente afirmado.

    1. Profundo. Melhor as primeiras partes do que as últimas mas, na primeira, tenho uma discordância insanável: O catolicismo, semelhante à demais, É uma religião mas também é uma instituição.

      1. Francisco, religião é uma palavra que na sua etimologia pressupõe religar, isto é, voltar a ligar.
        Para melhor compreender o que significa isto de re-ligar, o cristianismo, na pessoa de Jesus, leva entre muitas uma notícia que se espelha na visão do baptismo de Jesus.
        Tradicionalmente o baptismo de João (o baptista) transportava em si mesmo a ideia da penitência, isto é, conversão, melhor ainda: mudança de sentido. Assim sendo, e é, pressupõe-se que o Deus-Homem ou o Homem-Deus, Jesus, nascido do Espírito na carne de uma mulher, estaria dispensado deste baptismo, o da água, por João, no rio Jordão.
        Porém para mim o valor substantivo deste baptismo de Jesus é pré-figuração do “mergulho” que Ele faria na morte através da Cruz.
        Para ser mais concreto: na narração do dilúvio e da arca de Noé encontramos esta penitência e também o símbolo da existência de uma Nova Vida que é lembrado pela pomba que regressa com uma raminho de oliveira no bico.
        Por isto mesmo, o baptismo de Jesus nas águas do Jordão é o mergulho neste dilúvio para Resgatar a humanidade e voltar a ligá-la (re-ligar) ao seu Mentor (Deus). E não é por acaso que a narração do baptismo de Jesus refere que o Espírito de Deus surge em forma de POMBA (assinalando a existência da Vida na pessoa de Jesus como antes tinha ocorrido com a pomba) para sinalizar onde Ele coloca Sua Complacência.

        Significado de Complacência: Inclinação para concordar frequentemente com outra pessoa com a intenção de satisfazer a mesma ou de ser agradável; gentileza, indulgência ou condescendência.
        Significa isto que Deus pela abnegação de Jesus e em Seu favor, de Jesus, se torna favorável à humanidade.
        Daqui fazer todo o sentido Jesus ser O salvador e o vencedor da Morte, para nos tornar Livres e RE-LIGAR a humanidade à sua origem.

        Portanto, faz todo o sentido a Religião para Re-Ligar. Mas é necessária a intimidade através do Mediador para que assim aconteça.
        Em conclusão, infelizmente Jesus tornou-se um slogan em detrimento de sua Oferta, a oferta de Si mesmo.
        É pena que poucos cristãos O conheçam, mas ainda mais que os não cristãos também O não conheçam.

        1. Pois já calhou eu aqui mencionar sentido de re-ligar das religiões e assisti à última eucaristia dominical tendo ouvido a leitura e o sermão sobre o baptismo de Jesus, que na liturgia, encerra o tempo do Natal para dar início à primeira parte do tempo comum, que durará até quarta-feira de cinzas.
          Mas, sinceramente, gostei de o ler e, esquecendo por momentos o meu pessimismo estrutural, até admito que que possa ter sido apreciado por alguns que nunca o confessariam.

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