A agência Lusa apressou-se, no início do ano, a “unificar” a ortografia ao abrigo do acordo que faz tábua rasa da etimologia em benefício da “clarificação” da escrita no nosso idioma, como sustentam os seus doutos promotores. Acto passou a ato, afecto passou a afeto – e por aí fora. Presumo que mictório continua a escrever-se desta forma, segundo o novo livro de estilo da agência, que só suprime as consoantes supostamente mudas (continuando no entanto a escrever hino, hoje e hossana, apesar de não haver consoante mais muda do que o H).
Perceberam? Eu também não. E os 113 mil portugueses que subscreveram a petição à Assembleia da República destinada a suspender ou revogar o disparatado acordo que institui a “novilíngua sub-brasileira”, na acertada expressão do António Godinho Gil, certamente estão tão confusos como eu. O mesmo deve acontecer, aliás, com o Ministério da Educação, que adiou o ensino da cambalhota ortográfica, revelando bastante mais bom senso do que os responsáveis da Lusa.
E já que falo na agência noticiosa, reparem nisto: a Lusa difundiu em Março uma notícia intitulada “Alemanha: Vaticano nomeia bispo para acompanhar casos de pedofilia”. Foi no dia 12, às 14.01. Um dos parágrafos desta notícia rezava assim:
«Segundo Zollitsch, “o papa está muito impressionado com o relato dos fatos”.»
Ora bem: nos termos do acordo, que nada unifica, serão respeitadas as diferenças fonéticas entre o Brasil e Portugal, continuando a escrita portuguesa a assinalar as consoantes aqui pronunciadas. É o que sucede ao C da palavra facto. Mas a Lusa não quer saber disso. No seu afã de aplicar a norma brasileira, viola o acordo por excesso de zelo, chamando fatos aos factos. Daqui à supressão definitiva do C na expressão oral desta palavra será certamente um curto passo, que espero venha a ser creditado à agência noticiosa portuguesa pelas autoridades de Brasília. De facto. Quero eu dizer: de fato. E com gravata, já que no Palácio do Planalto – e falo do que sei, pois já lá estive – não nos deixam entrar sem ela.


Uma grande confusão e um enorme desânimo para quem sente a língua portuguesa… É o que me apraz dizer a estas horas tardias.
Isso á-de passar.
Essa foi boa! O desânimo foi momentaneamente ultrapassado pelo estremecimento que o seu comentário me provocou.
Vejo que já faz um esforço de adaptação!
A Lusa é um veículo de enriquecimento da língua lusitana. É como as velhas naus que cruzaram outrora o Atlântico: partem com carne salgada, chegam lá sem nada e trazem as riquezas que acharam.
Extraordinária é a incompreensível discrepância, porque a Lusa não só corre a adoptar o acordo, não só ultrapassa o próprio acordo, como continua a escrever mal como antes.
A Lusa é um veículo constante de revelações. A tal ponto que chega a noticiar o que nunca existiu. Recentemente distribuiu um “take” a falar do “palácio presidencial” da Malásia, um país que não tem presidente, mas rei. Muda a ortografia, mas os disparates permanecem.
Não seria palácio prudencial?
Talvez palácio monarcal. Consta que também há um em Madrid. Há não, à. Ou á. Tenho de perguntar ao Lavoura e à «Bola» como se escreve.
Eu, podia viver sem a Lusa? Podia, mas não seria a mesma coisa.
A quem o diz, Teresinha. Depois daquela “notícia” que nos revelava em primeira mão que Gibraltar é “ilha”, a Lusa tornou-se para mim imprescindível.
O Pedro deixa suficientemente claro neste texto que aquilo que aborrece nesta reforma ortográfica é o facto de ela aproximar a ortografia portuguesa da brasileira. Em suma, a oposição à reforma ortográfica é motivada por anti-brasileirismo, ou seja, por xenofobia.
Boa, Luiz. Olha aqui: essa é à primeira vez qui tchi vejo falando com graça, viu? Eu tô mais é com você: o Pedro é um xenôfobo mezmo, né? Qui é qui tem dji mau esse acôrdo? Volta logo, meu. Você é um barato. Dji fato.
O que aborrece nesta pirueta ortográfica é, sim, o facto de ela aproximar a ortografia portuguesa da brasileira – porque o acordo é apenas isso, e é por isso inútil. Não serve para rigorosamente nada, e, como apontou o Pedro, sacrifica a etimologia. Para nada.
Xenofobia? A estas horas? Isso pede um pequeno-almoço melhorzinho.
“é apenas isso, e é por isso inútil”
Não, por isso mesmo é que é útil, pois permite um maior intercâmbio cultural, nomeadamente com os países africanos, nos quais a ortografia muitas vezes varia entre a norma portuguesa e a brasileira.
“sacrifica a etimologia”
E qual é o mal disso? A maior parte das palavras já hoje tem a etimologia sacrificada, de qualquer forma. A etimologia é uma coisa de eruditos, que andam em busca de saber de onde vem uma palavra. Para as pessoas que no dia-a-dia escrevem a língua, saber a etimologia de uma palavra é irrelevante.
Olhem, o italiano, a língua mais próxima do latim, é a que menos se preocupa com escritas etimológicas – nem tem hs nos princípios das palavras!
Ó Luís, você nunca se cansa de dizer disparates? Acha que a etimologia é uma coisa de eruditos, irrelevante para quem escreve a língua no dia-a-dia?
Não percebe então que o facto (e não “o terno”, viu, cara?) de conhecer a etimologia das palavras, nos ajuda – pelo mero uso da lógica e da associação – a não fazer erros ortográficos? É por muitos pensarem como você que se escreve tão miseravelmente hoje em dia, e cada vez pior.
«Permite um maior intercâmbio cultural»? O Miguel Sousa Tavares diz que fez questão de vender no Brasil sem alterar uma letra e não tem razão de queixa: vende(u) como tremoço.
Ó Luís, se é assim a gente passa é a falar italiano.
Luigi soa melhor.
Lavoura utiliza um truque rasteiro da retórica de café: para contrapor o que se diz ou o que se escreve, aplica um rótulo negativo ao autor da tese que pretende rebater. Quem ousa contestar o “desacordo” é xenófobo. Brilhante raciocínio. Não percebo como é que a Fátima Campos Ferreira não o convida rapidamente para ir ao “Prós & Prós”.
Eu continuo a escrever como aprendi. l
Continuo a dizer e escrever factos…
Ou então tenho que ir para a escola de novo.
Isto de abrasileirar as coisas é uma consequência das telenovelas.
É que os Portugueses de tanto ouvirem falar Brasileiro,já nem conseguem escrever Português e o (des)governo interessado em aumentar cada vez mais o nivel cultural dos Portugueses decidiu fazer a sua generosa contribuição…
Ou será isto influência das casas de Alterne?
Aos poucos estamos a perder a nossa identidade.
Mas valia adoptarmos(escrevi o p antes do t) o “Galramento”:
http://molelos.no.sapo.pt/galramento.htm
Os gavios num atiscam nentes do galramento dos lhegos…
Oi cara, sai dessa! Cê é xenôfobo!!
Acho que somos quase todos,embora continuemos a dizer que não…
Aliás embora não se deva brincar com estas coisas até acho que deviamos devolver umas centenas de Brasileiros à proveniência para repôr o “estoqui”…
É triste mas é verdade; se um domingo à tarde entrarmos no palácio do gelo em Viseu; até lá só se vêm Brasileiros.
As lojas estão infestadas de Brasileiros(as) e depois ainda dizem que há falta de emprego.Pois como pode haver emprego para os Portugueses se está tudo ocupado com estrangeiros?
E acima de tudo são intriguistas e extremamente mentirosos a maior parte,com excepções à regra claro.
De facto recuso-me a escrever “umidade”.
Pois olhe que os italianos escrevem “uomo”. E “ore”.
Oje á umidade.
Será que os italianos têm casamentos omossexuais?
‘Bora lá fazer um “acordo” também com a Itália para aumentar o “intercâmbio cultural”. Como é que se escreve Lavoura em italiano?
…e os franceses humidité…os ingleses humidity, so what?
São uns reaças, estes franceses. E os ingleses pior ainda: nem sequer celebraram um acordo com os américas. Ainda escrevem Pearl Harbour, enquanto os américas escrevem Pearl Harbor. São uns atrasados da treta. E xenófobos.
Pois olhe Pedro fiquei agora a saber que os américas escrevem Pearl Harbor . Aqueles rapazes sempre foram muito mais económicos.
:))
Pois é, Ariel. E escrevem “neighbor” em vez de “neighbour”. Nem imagino como é que ingleses e americanos conseguem entender-se com estas diferenças de ortografia. Precisam de um prof. Malack Castleire que chegue lá e resolva isso. Com música de fundo da Cavalgada das Valquírias.
E “colour” em vez de “color”. Etc.
São tão poupadinhos que nem escrevem um acordo…
E eu até fico húmido…
De raiva com o assassinio da lingua do Camões…
Agora quem não é xenófobo escreve «úmido».
Então eu sou xenófobo.Também tenho essa doença sim senhor.
Mas isso trata-se. Basta ir à consulta do dr. Lavoura.
Para acordar morto…
O acordo ortográfico não passou de um negócio de dicionários. E, para quem não tenha memória curta, todos os que estiveram contra foram apelidados de reaccionários (deve ser só com um “c” agora?). Mais um exemplo de modernidade à portuguesa, encabeçada por gente ilustríssima como a eminente Edite Estrela. É que a ignorância é um vírus que se propaga à velocidade da luz, sobretudo quando aterra num país de analfabetos e de chico-espertos.
O principal entusiasta do acordo tem agora um livrinho já à venda por aí a ensinar aos tugas como o dito acordo se aplica. Saiu-lhe ao mesmo tempo o totoloto e o euromilhões.
Assegurou uma reforma confortável. Sem precisar de ser presidente da EDP.
Um dia destes descasco o livro aqui. O chato é ser preciso comprá-lo e não me apetece contribuir com um só cêntimo para a conta bancária desse senhor.
Este post foi muito instrutivo. Não fazia a miníma ideia de quais eram as alterações do novo acordo ortográfico. Mas deu para ter uma ideia. Á-de? Oje? Úmido? Fónix!! Isto mais parece um dialecto esquisito ou do tipo linguagem de desenhos animados, em que ninguém entende nada.
E apreciei o argumento:”do truque da retórica de café”
Ão-de acabar com todas as consoantes mudas. Ão, ão.