De cara descoberta e em pé


Pedro Correia,

 

É, desde já, uma das imagens icónicas do ano: um jovem de camisa clara e calças escuras, mãos nos bolsos e olhar fixo num retrato descomunal de Atatürk, o fundador da Turquia moderna. Em silêncio num mundo cada vez mais dominado pela vozearia. Em pé, contrastando com as legiões contemporâneas de cidadãos acomodados. Uma espécie de estátua viva à desobediência civil através do mais inesperado dos gestos: o que contesta a força bruta sem exaltação nem agressividade.

Como se lhe bastasse a força da razão. E basta.

 

Esteve assim na segunda-feira durante oito horas este homem, chamado Erdem Gündüz e coreógrafo de profissão. Na praça Taksim, epicentro de todos os protestos na maior cidade turca.

Uma original forma de luta logo copiada por centenas de turcos – em Istambul, Ancara, Antália e outras cidades. Um exemplo de dignidade, carregado de simbolismo.

 

A imagem substitui todas as palavras neste admirável símbolo de resistência cívica, digno de um Gandhi ou um Luther King.

De cara descoberta e em pé, num orgulhoso desafio às forças da desordem. Outros ocultam-se e rastejam: quem tem força moral não.

 

10 comentários em “De cara descoberta e em pé”

  1. O protesto do silêncio é duro. É profundo. Não existem palavras, não existem pedras atiradas. Apenas silêncio. Um silêncio que diz tudo, sem dizer. Nada pode ser feito contra o protesto do silêncio. Não é crime, não é ofensivo. É apenas silêncio.

  2. Subscrevo: um admirável símbolo de resistência cívica. E nem isto foi permitido. Quando um regime reage assim, está muito longe de poder ser qualificado como uma Democracia.

    1. A democracia nunca pode ser vista numa perspectiva hegeliana, Carlos. Nunca é um fim definitivo. É sempre um meio para algo mais. E nunca está definitivamente alicerçada ou conquistada: a História não é uma caminhada linear. Pelo contrário, está cheia de passos à retaguarda.

  3. Pedro, esta imagem e este protesto é o maior desafio que pode ocorrer. Se durante os protestos ocorreram cargas policiais, este silêncio só pretende dizer isso mesmo: calem-me se puderem!

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