Dave, this conversation can serve no purpose any more. Goodbye.


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Douglas Rain faleceu ontem, aos 90 anos. É possível que o nome diga muito pouco à maioria dos leitores; a sua fotografia, se aqui fosse publicada, pouco mais diria. Mas este círculo vermelho e a sua voz grave tornaram-se inesquecíveis quando, há cinquenta anos, construíram a mais famosa inteligência artificial da ficção científica: HAL 9000, o tripulante incorpóreo da Discovery na sua expedição à órbita de Júpiter para confirmar o elusivo primeiro contacto feito com o monólito lunar. Falo de 2001: A Space Odyssey, claro; todo o segundo acto do filme pertence à expressividade impossível que Rain confere ao olho inescrutável que vigia cada recanto da nave espacial, um feito notável quando pensamos que, num filme com tão pouco diálogo, praticamente todas as palavras relevantes são proferidas pela personagem tornada presente pela sua voz. Do orgulho inicial ao impulso homicida, da determinação pela continuidade de uma missão que não consegue compreender até ao desespero dos momentos finais, quando Dave Bowman, suspenso em gravidade zero, lhe desliga os circuitos de memória um por um – o tom enganadoramente monocórdico de Rain transmite todas as emoções da personagem com subtileza, sem esforço aparente. Voltei a confirmar isto mesmo nos últimos meses, nas duas oportunidades que tive de rever a obra-prima de Stanley Kubrick no grande ecrã: inúmeras visualizações depois, o HAL 9000 continua tão fascinante e ameaçador como da primeira vez que o ouvi. Douglas Rain, o actor, talvez tenha tido uma passagem discreta pela Terra; mas a sua voz, essa, perdurará entre as estrelas. 

8 comentários em “Dave, this conversation can serve no purpose any more. Goodbye.”

  1. Passei uma vida inteira a lamentar duas coisas – uma, não ter jeito nenhum para desenhar; outra, não ter uma boa voz, daquelas ditas mais ou menos radiofónicas.
    João de Brito

    1. Desde a adolescência que me dizem ter uma boa voz para rádio (não o saberia dizer; a minha voz sempre me soou horrível em gravações. Felizmente não tenho de me ouvir com frequência…), e isso não me serviu de muito quando estudei jornalismo.

      Jeito para desenhar também não abunda. Ainda me esforcei durante uns anos, mas era um exercício de frustração. Enfim, já que não faço desenhos, vou lendo banda desenhada. Já é qualquer coisa.

  2. Inesquecível HAL 9000!
    Felizmente as duas primeiras vezes que vi o 2001 (2 dias seguidos) foi num écran decente – no CinemaTivoli, que parece que agora já só é Teatro.
    Depois vi-o inúmeras vezes: em Betamax, VHS e DVD, respectivamente.
    E nunca me canso de o ver…
    Maria

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