
Abaixo o Pedro Correia questiona-se sobre os que indiferenciam democracias de ditaduras. Tal não se deve a um mau juízo ou a desconhecimento pois, por fluida que por vezes seja a distinção num ou outro caso real, essa indiferenciação é uma posição de princípio por parte daqueles que são adversários da democracia, os crentes das virtudes das ditaduras, e por estas ansiosos. Aquilo que por vezes pode acontecer é ficarem os amigos da democracia algo confundidos, desprovidos de argumentação diante da propaganda alheia e seus veementes ecos nos adeptos da autocracia. Isto porque os contextos ditatoriais não só têm conteúdos diferentes como estes se têm vindo a alterar.
Nem que seja por isso, para aclarar algumas ideias que são mais pressentidas do que sistematizadas (falo por mim mas creio que não vou só nisso), é interessante ler este pequeno livro, “O Regresso das Ditaduras?” de António Costa Pinto, uma edição da Fundação Francisco Manuel dos Santos, daquela tão simpática colecção pois segue ao custo de 3,15 euros por volume e se vende no Pingo Doce – isto para além da(s) Feira(s) do Livro(s) se aproximar(em).
O livro já é uma breve (e acessível) súmula da literatura sobre o assunto, pelo que seria descabido fazer eu aqui uma súmula da súmula, mas ainda assim deixo como lamiré algumas ideias que lá colhi. O autor – que há quarenta anos foi meu professor de História Contemporânea e que julgo depois ter enveredado pelo rumo da ciência política – lembra que tem vindo a aumentar o número de Estados sob regimes ditatoriais, num refluxo da “terceira vaga de democratizações” cerca do fim do milénio. E constata que não só têm uma grande variedade institucional como se afirmou um modelo dominante, pois se [tra]”vestem como democracias” , surgindo como “regimes híbridos”, “autoritarismos competitivos” – têm eleições multipartidárias e não têm censura rígida mas controlam a informação e manipulam os resultados eleitorais (p. 8). E encontra-lhes traços comuns: uma forte (e crescente) personalização do poder; uma vincada des-ideologização, comparativamente às ditaduras passadas (com particular contraposição face às comunistas e fascistas de XX) – ainda que convocando um nacionalismo e apelando à “ordem e progresso” como função dos regimes; a tal mimetização da parafernália institucional (parlamentos, eleições, “livre” imprensa, etc.) das democracias; uma menor repressão política face às do passado, de cariz mais cirúrgico e preventivo; uma censura de informação menos directiva, num “pluralismo limitado”; uma generalizada integração nos mecanismos de mercado como fundamento da ordem política (pp. 85-88). Mais ainda, recorda que estas ditaduras se vão estabelecendo muito mais pela erosão dos mecanismos democráticos do que por rupturas imediatas revolucionárias. Isto explica Costa Pinto em cerca de 80 páginas, num formato de livro de bolso. Justifica-se ler.
Deixo apenas uma adenda: o livro foi publicado em 2021. O seu autor é relativamente conhecido – não só como renomado académico mas também porque presença habitual na televisão. A edição é popular – barata, da Fundação ligada à marca Pingo Doce, de uma colecção que já faz parte do horizonte do público leitor. Ou seja, não é normal que livros destes sejam totalmente ignorados. Ora Costa Pinto recorre a vários exemplos de regimes autocráticos, pretéritos e actuais. Destes últimos na Europa fala da Bielorússia, da Turquia e da Hungria. Mas também recorre, e com insistência, à Rússia de Putin como exemplo da ditadura. Ora, é verdadeiramente surpreendente que um argumento destes num livro destinado ao grande público, de um autor conhecido, tenha passado incólume ao crivo crítico dos nossos generais Branco, Costa e Cunha, do activo ex-deputado António Filipe e do intelectual José Goulão, para não falar de outros do mesmo ramalhete. Distraídos estavam diante desta manobra, insidiosa, da propaganda capitalista…

Boa sugestão. Não conheço, irei ler muito em breve.
Este é um tema fundamental. Direi mesmo: este é o tema. Com artigo definido.
Recomendo também, a propósito, a excelente entrevista que Francis Fukuyama dá à jornalista Luciana Leiderfarb na mais recente edição da revista do Expresso.
Excelente para definir ideias e arrumar conceitos, designadamente em torno do que é realmente a democracia liberal, que anda por aí travestida sob outras fórmulas que nada têm a ver com ela enquanto Brancos e outros broncos lhe lançam lama sempre que podem nos numerosos palcos ao seu dispor.
Não tenho de momento possibilidade de deixar ligação à entrevista nem creio que esteja acessível a não-assinantes digitais. Mas tenciono dar-lhe o devido destaque assim que puder.
Francis Fukuyama publicou recentemente um livro sobre o liberalismo (que não é necessariamente democrático, aliás até tem algumas contradições com a democracia). A edição portuguesa é recente (2 ou 3 meses).
não é normal que livros destes sejam totalmente ignorados
Depende. Eu nunca faço compras no Pingo Doce. Haverá muitas outras pessoas como eu.
recorre à Rússia de Putin como exemplo da ditadura. Ora, é verdadeiramente surpreendente que um argumento destes num livro destinado ao grande público, de um autor conhecido, tenha passado incólume ao crivo crítico dos nossos generais Branco, Costa e Cunha
Os generais Branco e Costa e Cunha não têm que se preocupar em saber se a Rússia é uma democracia ou uma ditadura. Do ponto de vista deles – que eu compartilho – a Rússia é um Estado, que tem direitos enquanto tal independentemente do regime político que perfilha. Um Estado, pelo facto de não ser uma democracia – ou de ser menos democrático do que alguns outros, uma vez que a democracia não é um conceito absoluto mas sim relativo – não desmerece os seus direitos enquanto Estado.
No momento em que se contabilizam mais de 5000 civis ucranianos assassinados na guerra do Putin, com que direitos do estado russo nos deveremos preocupar?!
Lavoura, a sua converseta é – como sempre – lateral ao tema e denota uma tremenda dose de falta de senso.
A minha querida avozinha diria entredentes e seguida de um “que deus me perdoe.”: “Só com um pano encharcado nas ventas!”. Eu consigo dizer bem pior.
O anónimo tem nome: Eduardo do R. E tive uma súbita vontade de ir às compras ao Pingo Doce, afinal é bem frequentado.
Aqui fica a hiperligação para a entrevista do Expresso, que recomendo muito: 9-Entrevista-a-Francis-Fukuyama-A-democr acia-liberal-e-uma-construcao-constante-8 f8e9ebe
https://expresso.pt/revista/2022-07-0
Os USA arranjaram uma “habilidade” no Afeganistão para ultrapassar uma ditadura. Os talibãs criaram um Emirado como o do Catar, Dubai, Omã e outros dos EAU.
Arranjaram, por ter havido conversações no Catar com cabecilhas talibãs e americanos do governo Trump antes de toda aquela confusão/entrega.