Dar a Bola de Ouro (voltando à vaca fria)


joaomsandre,

Há 4 anos escrevi um post sobre a atribuição da Bola de Ouro. Na altura o prémio era concedido pela FIFA juntamente com o France Football. Desde o ano passado que voltou a ser atribuído apenas pelo France Football, com a FIFA a passar a conceder o prémio The Best. A diferença entre um e outro é que o prémio da FIFA é atribuído após a votação dos seleccionadores e capitães das selecções do mundo inteiro, enquanto que o prémio da France Football advém do resultado das votações de jornalistas seleccionados a partir de publicações europeias.

 

A diferença na escolha do júri não é incipiente. Se a votação em 2010 e 2013 tivesse sido a partir dos jornalistas, os vencedores teriam sido Sneijder e Robben em vez de Messi e Ronaldo, respectivamente. Aliás, ver o pódio de 2000 para cá (escolhi 2000 para coincidir com maior uso de internet e maior mediatização do prémio) dá a ideia que jogadores menos mediáticos serão mais facilmente escolhidos pelos jornalistas que pela FIFA e pelo seu painel de seleccionadores e capitães. Basta ver algumas das escolhas. A FIFA colocou no pódio apenas dois jogadores (Kahn e Cannavaro, uma vez cada) que não fossem médios atacantes ou avançados. Por oposição a FF fê-lo 6 vezes (ignorando o período de atribuição conjunta).

 

Estas considerações não servem para indicar qual o melhor troféu (eu tenho a minha preferência, mas não a imponho, é apenas isso, uma preferência). Serve apenas para demonstrar que grupos diferentes de pessoas podem ter critérios diferentes. Em 2013 fiz o exercício sobre quais poderiam ser os escolhidos de acordo com diferentes critérios. Farei agora o mesmo.

 

1. Jogador mais talentoso. Este ano eu continuaria a votar em Messi por continuar a ser o mais talentoso. Em segundo teria provavelmente Neymar e em terceiro escolheria mais rapidamente Isco que Ronaldo se obrigado a ir ao Real Madrid.

 

2. O jogador mais decisivo. Difícil escolher. Ronaldo foi decisivo na fase mais importante da Liga dos Campeões, mas Isco andou com a equipa às costas na liga e até na LdC (embora fosse Ronaldo a marcar os golos). Messi manteve o Barcelona vivo na Liga apesar da letargia dos colegas. A importância de Lewandowski notou-se essencialmente quando teve que jogar contra o Real Madrid preso com cuspo e arames. Ainda assim é perfeitamente legítimo escolher Ronaldo no ano em que o Real Madrid venceu liga e Europa.

 

3. O melhor jogador da melhor equipa. Depende de como escolher o melhor da melhor equipa (que foi o Real Madrid). Ronaldo marcou os golos mais importantes na Europa para o Real Madrid. Isco fez a equipa jogar e levou a bola às zonas onde Ronaldo (que já não é dado a cavalgadas) pode ser decisivo. Modrić foi o pêndulo de toda a equipa. Casemiro deu-lhe equilíbrio e Marcelo largura. Cada um escolhe o que prefere. Eu teria ido por Isco neste critério.

 

4. O jogador mais completo. Sobre o que se considera “completo”, reveja-se o que escrevi no passado. Para mim é difícil imaginar jogadores mais completos que Pogba. Outros candidatos: Kroos, Modrić, Messi, Verratti, Dybala, De Bruyne, Kanté. Este ano eu teria ido por um de 3: Kanté, Pogba ou De Bruyne.

 

5. Estatísticas. Quem quiser verificar isso, pode ir a WhoScored.com e procurar os seus jogadores preferidos. Especialmente com as novas múltiplas métricas por onde escolher. Eu fiz uma análise simples usando as estatísticas do site acima. Escolhi as métricas de golos, assistências, tackles, intercepções e passes chave (tudo por jogo). A seguir dei uma pontuação a cada métrica: 8 por golo, 5 por assistência, 1 por tackle, 2 por intercepção e 2 por passe chave. Cada um poderá fazer o mesmo e dar valores diferentes. Duas observações: não especifiquei apenas o ano de 2017, usei antes os dados disponíveis para 2016/17 e 2017/18, pelo que os jogadores que tenham tido um bom final de 2016 serão beneficiados. A segunda observação é que tratei todas as métricas como iguais, não dando qualquer peso a jogos específicos (como a final da LdC). Com esses dados cheguei ao gráfico abaixo para uma selecção (pessoal, apenas de jogadores das 5 principais ligas e que tenham jogado na Europa) de jogadores.

grafico estatisticas jogadores 2017.jpg

Pontos totais por jogador e por jogo. A cores diferentes Cristiano Ronaldo, Lionel Messi, Neymar e Alexis Sanchez. A linha laranja indica a pontução de Ronaldo.

 

Com este exercício, acabamos com 14 jogadores com pontuação superior à de Ronaldo. Mais uma vez, isto não indica importância das acções, apenas a estatística específica. Nesta métrica, Messi venceria, com Neymar muito por perto e Coutinho a encerrar o pódio.

 

6. Uma mistura de todos os critérios acima. Seria a minha escolha e, suponho, a da maioria das pessoas, embora com pesos diferentes para cada aspecto (texto copiado de há 4 anos). Desta forma eu iria por Messi dada a forma como carregou com o Barcelona às costas com os colegas completamente irreconhecíveis. Estejam à vontade para discordar. Daqui por um mês eu poderei fazer o mesmo.

13 comentários em “Dar a Bola de Ouro (voltando à vaca fria)”

  1. Este texto parece-me traduzir aquele sentimento, muito português, de subvalorizar o que é nosso e sobrevalorizar o que é dos outros.
    Resumindo, para concluir, o objetivo do futebol são os golos e as vitórias.
    Ronaldo marcou mais golos e conquistou mais vitórias.
    Ponto.
    Todos os argumentos aduzidos no texto são um mundo de subjetividades.
    João de Brito

    1. Não foi quem marcou mais golos (Lewandowski, Messi e Kane) marcaram mais por jogo. E os colegas de equipa venceram tanto quanto ele.

      Aquilo que me irrita no seu comentário, como no de muitos outros, é a mania que eu tenho que apoiar Ronaldo só porque é português. Não posso discordar da atribuição do prémio a Ronaldo? Não posso preferir outro jogador?

      Eu dei os meus critérios. Avance os seus além da nacionalidade e dos golos. Senão começamos a argumentar que Gerd Mueller poderá ter sido o melhor jogador europeu de todos os tempos (ou lá perto).

      1. Concordo, parcialmente, consigo. Afirmar que o goleador-mor é o melhor jogador é, a meu ver, incompreensível. O futebol é um jogo de equipa. A preponderância de cada jogador numa posição, o equilíbrio e a estabilidade que dão à equipa são importantes. Dizer que o Jardel era o melhor jogador do F.C. do Porto, ou que o Nené era o melhor do Benfica ou, ainda, que o Van Bast é o mais influente do Sporting de hoje, é desvalorizar a influência dos colegas de equipa nos feitos destes jogadores. O Messi é, sem dúvida, muito mais influente que o Ronaldo. Basta ver que nunca foi ponta-de-lança (quem é, habitualmente, no Barcelona é o Suarez) e que o Ronaldo nunca foi um “10” que joga e faz jogar. O Ronaldo pouco faria se não tivesse uma equipa forte que lhe coloque a bola ou que lhe permita completar os lances dos colegas. O Messi necessita de colegas para fazer rolar a bola.

        João Moreira

        1. Dizer que Messi nunca foi o ponta de lança é só se alinharmos pelo diapasão do “falso 9” e ignorarmos que não havia nenhum “verdadeiro 9” (por exemplo: Platini – que era chamado de 9 e meio – era essencialmente um “falso 9”, mas jogava com “verdadeiros” pontas de lança). Com Suárez, Messi passou a estar de facto mais longe, mas nos tempos de Guardiola, Villanova e Martino era Messi quem jogava mais perto do golo (foi essa a razão para terem despachado Ibrahimović).

          Mesmo com Enrique, Messi começava nominalmente na direita mas flectia sempre para o centro, para as costas de Suárez, enquanto Rakitić ocupava a faixa direita. Agora com Valverde o Barcelona joga mais em 4-4-2 com Messi no tal “9 e meio” de Platini. A verdade é depois de Guardiola que nunca esteve longe da zona de concretização.

          Mas claro que tem razão que o futebol é um jogo de equipa. O Real Madrid demonstrou-o ao incorporar Casemiro. Aliás, Zidane sabe-o perfeitamente: quando o Real Madrid vendeu Makelele para comprar Beckham, Zidane perguntou porque razão se adicionava mais uma camada de ouro ao Bentley quando se vendia o motor…

          1. Nem Messi, nem Platini é/foi ponta de lança ou avançado-centro. Não têm características para essa posição e seriam totalmente desaproveitados. O talento de Messi está em inventar, criar e improvisar, com a bola nos pés. É um predestinado. Ronaldo baseia a sua acção na força e na velocidade. Com o tempo, passou a jogar mais na área deixando a ala, devido a vir perdendo velocidade.
            As equipas ajustam-se aos jogadores que têm e que estão disponíveis. No Barcelona que referiu, não era Messi o avançado-centro. O mesmo nas formações onde Platini jogou (Juventus).
            Num outro comentário refere Neymar e Hazard. Quanto ao primeiro, é um bom jogador, mas pouco mais que isso. Felizmente, para o Barcelona, saiu. A humildade e a qualidade de Messi ofuscou-lhe a vaidade. Necessitava de um palco mais de acordo com o seu ego. Quanto a Hazard, é um grande jogador. Falta-lhe a projecção mediática de Ronaldo, o virtuosismo de Messi e o de pertencer a um clube que a imprensa não aprecia.

            João Moreira

  2. João: um grande jogador de futebol é muito mais do que a soma de dados estatísticos.
    Se bastassem esses quantitativos não seria necessário qualquer júri: um banal computador bastaria. No dia em que deixasse de ser imprevisível para se tornar mecanizado e dependente dos ditames da estatística, esta modalidade estará condenada à morte.

    Porque o futebol de altíssima competição é muito mais que desporto: é teatro, é cinema, é música, é pintura, é bailado, é arquitectura, é ópera, é moda. É lírica, épica, drama. Tem personagens que se integram na mitologia da sua época e a transcendem por completo – libertando-se da lei da morte, abraçando a imortalidade.
    Como escreveu Javier Marías num dos seus magníficos textos sobre futebol, o encanto supremo desta modalidade é que aqui não se trata apenas de vencer, mas de “vencer sempre”. Superando não apenas todas as metas já conhecidas mas criando novas metas para superar.

    «A primeira lição de todos os jogadores e de todos os treinadores devia ser esta: “neste desporto, se não há drama não há nada”.» Palavras do grande escritor espanhol.
    Cristiano Ronaldo encarna isto melhor que nenhum outro. Além do seu talento ímpar, é também uma personagem de romance, de filme, de enredo dramático. É um expoente do sonho que resta neste mundo globalizado: algures numa aldeia remota do Nepal ou da Bolívia ou do Bangladeche ou de Timor-Leste encontramos um miúdo que aspira a ser como ele e aprende a tratar a bola por tu.
    Convicto de um dia poder lá chegar também.

    Ronaldo gera emoções contraditórias: ninguém lhe fica indiferente. Mas até isso contribui para o seu carácter icónico. Nesse sentido, estará sempre num patamar superior a um Sneijder ou mesmo a um Robben.
    O próprio despique que mantém há uma década com Messi tem traços de um ‘western’ que nos leva de imediato a tomar partido. Por ele ou contra ele.
    O grande futebol é isto, será sempre isto. Ou não será nada. Digam os computadores o que disserem.

    1. Concordo contigo em quase, quase tudo. Apenas discordo que Ronaldo encarne tudo o que escreveste melhor que nenhum outro. Sou da opinião que Messi o faz melhor (e Neymar também, embora me chateie com ele…).

  3. Eu também escolheria Messi. Para os nacional-porreiristas, também afirmo que jamais escolheria o auto-intitulado “melhor jogador da história”, exactamente porque há uns quantos jogadores iguais ou melhores do que ele, excepto no marketing.

    1. Neymar está bem mais presente no marketing. E já Pelé era um mestre nisso. Bem como Cruijff.

      Mas marketing é marketing. Eu olho para o futebol (e ocasionalmente para as estatísticas) e decido. Não posso considerar-me imune ao marketing (não acreito que alguém o seja), mas tento ignorá-lo.

  4. Na altura do Barcelona do Guardiola o Messi não era, quanto a mim, o jogador mais influente. O jogador mais influente era o Xavi, um dos melhores centro-campistas dos últimos 20 anos. Quando ele se lesionava ou não jogava a equipa ressentia-se.

    Em 2008 o melhor jogador do Mundo devia ter sido o Xavi. Em 2010 o Iniesta.

    Em 2017 eu julgo que o prémio de melhor jogador do mundo fica bem entregue, por um conjunto de fatores:

    – Ronaldo foi influente na conquista da Liga dos Campeões
    – Ronaldo foi influente no apuramento de Portugal para o campeonato do Mundo
    – Ronaldo marcou manteve a média de golos por epóca acima dos 40 pelo 7 ano consecutivo(se bem que o Messi tem 10 anos seguidos)

    Resumindo foi o jogador mais influente durante o ano de 2017.

    O Messi e o Ronaldo estão acima de todos, quer pelo que jogam, quer pelas emoções que transmitem isso é um facto adquirido.

    O Neymar, quanto a mim, não passa de um jogador um pouco acima da média mas que nunca atingirá o patamar de Ronaldo e Messi devido ao seu comportamento arrogante, tal como o Hazard.

    1. Gostei bastante do seu comentário. Mostra como pensou bem nos seus critérios e justifica-os perfeitamente, independentemente de se concordar ou não. A mim não teriam incomodado minimamente essas bolas de ouro de 2008 e 2010, se de facto atribuídas a Xavi e Iniesta.

      Já o seu critério para escolher Ronaldo este ano é perfeitamente lógico. No meu ponto 2 do post eu concordo consigo. E tamnbém ressalvo que as estatísticas que compilei não diferenciam a qualidade da oposição.

      Discordo um pouco da sua opinião sobre Neymar. Concordo que não atingirá o mesmo nível, de facto pela sua atitude. Mas não o considero apenas um pouco acima da média, antes o melhor (pelo menos potencialmente) dos mortais a seguir aos extraterrestres Ronaldo e Messi.

      Hazard éum jogador que, num dia bom, está quase ao nível de Messi e Ronaldo, mas tem poucos dias mesmo bons e depende demasiado da inspiração. Entre os belgas prefiro de longe de Bruyne, capaz essencialmente do mesmo nos dias bons e faz a equipa toda jogar em todos os outros.

      1. Eu não sou fã do Neymar.
        O Neymar tem 25 anos. Está na idade de dar o salto para chegar ao patamar do Messi e do Ronaldo, mas julgo que não vai chegar lá. Ainda por mais com a decisão, quanto a mim errada, de se transferir para o PSG.
        Aqui só demonstrou que quer ser a estrela da equipa.. Tem aqueles tiques manientos dos brasileiros que se acham os melhores do mundo

        Mas de qualquer das maneiras julgo que esta terá que ser a época dele, mas avizinha-se complicado:
        Embate nas Champions com o Real Madrid (Neymar-Ronaldo)
        Mundial de Selecções
        Ronaldo talvez faça o último mundial e deverá querer fazer um Mundial avassalador
        Messi tem talvez o seu último mundial em grande forma (2024 terá 34 anos)
        O Brasil tem uma boa equipa. Esperemos para ver o que faz Neymar.

        Julgo que nos próximos 3 anos o melhor do mundo ainda vai andar nas mãos do Ronaldo e Messi. Só a partir daí é que vamos ter novos bolas de ouro.

        Deixo aqui a minha lista de possíveis bolas de ouro a partir dessa data:

        Kane se se transferir para o Real
        Lukaku se for regular nos golos
        Neymar se não se perder

        Mesmo assim nenhum deles cria um impacto “mitológico” nas pessoas

  5. O melhor futebolista na actualidade Messi que é um predestinado, como Maradonna o foi por exemplo.
    Messi não precisa de grande treino, inventa jogadas.
    O melhor atleta a jogar futebol, ainda Ronaldo. Porque marca golos de cabeça, de pé esquerdo de pé direito, livres, penaltis, arrasta defesas consigo abrindo brechas na área recuada dos adversários, enfrenta qualquer adversário, marca em qualquer jogo, e treina, treina até à exaustão.
    Jogador que lamento nunca tenha ganho nenhum destes títulos, Iniesta, eximio no controle, inteligência em movimento.
    Não me atrevo a sequer comentar o seu texto porque não tenho acesso a toda a informação que teve, e mais do que isso, porque o mesmo está muito bem fundamentado assim lhe tirando o chapéu.
    Craque do futuro – M Bappé! Tem força, técnica, joga com para a equipa e sabe jogar sozinho.

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