1. O sentido de voto de muitos britânicos terá sido determinado por factores secundários ou conjunturais. Todavia, acontece sempre assim, em referendos e até em eleições. As pessoas votam no sentido que entendem pelas razões que acham mais relevantes. Por vezes, a História mostra que cometeram um erro. Isto não significa que o processo esteja errado.
2. Há ironia na circunstância de, não obstante vivermos num mundo onde a informação está cada vez mais acessível, continuarem a ser as mensagens simples – até mesmo simplistas – a decidir eleições e referendos. Quase sempre com a recusa do outro em papel de destaque.
3. Este referendo poderá significar o fim do Reino Unido tal como o conhecemos. Escócia e Irlanda do Norte – e, se alguma vez o desejar, Gales – têm todo o direito a escolher se preferem a independência. Saem também reforçadas as tendências independentistas noutros países (em Espanha, desde logo).
4. Com os anos, a União Europeia foi-se transformando numa entidade demasiado burocrática e controladora. Esta evolução gerou anticorpos, em parte benéficos (a oposição do Reino Unido ao excesso de regulamentação era muito útil), em parte resultado de oportunismo (partidos e governos nacionais aprenderam a culpar Bruxelas por tudo o que corria mal nos seus países). O referendo britânico reforça os discursos anti-UE, abre a porta a outras saídas e cria pressão para que se operem mudanças no modo de funcionamento da União – mas talvez não no sentido que tanta gente parece esperar.
5. As probabilidades de que se entre numa fase de laxismo orçamental são reduzidas. A saída do Reino Unido, para além de diminuir o orçamento comunitário de onde países como Portugal recebem há décadas os fundos que lhes permitem atenuar problemas de crescimento e fortalecer redes de interesses, tenderá a extremar posições nos países do Norte. Para a Alemanha, será muito mais importante garantir a manutenção destes na União – numa União – do que a de Portugal, da Grécia, ou até da Espanha ou da Itália.
6. Nos países do Sul, sair custa muito caro. Muito mais do que no Reino Unido. Qualquer saída será um processo sujo, desagradável, caótico – que, como os mercados bem percebem (à hora a que escrevo, a taxa de juro da dívida portuguesa a 10 anos sobe 11%), acabou de se tornar mais provável, não menos.
7. Resta França. Um mastodonte aparentemente irreformável, em risco de cair nas mãos do populismo. França é o verdadeiro problema da Europa. E a ameaça que constitui a extrema direita francesa a única verdadeira esperança da esquerda portuguesa, grega e espanhola.
8. Escrevi «esperança da esquerda» e não «esperança da extrema esquerda» porque ainda há uma diferença entre os socialistas e o pessoal situado à esquerda deles. Os socialistas apenas desejam poder continuar a gastar à custa da Europa (i.e., dos países do Norte). A Frente Nacional serve-lhes como meio de pressão, nada mais. Para a extrema esquerda, quaisquer sobressaltos no processo de construção de um bloco de nações relativamente homogéneo, com contas públicas equilibradas, moeda forte, crescimento assente no sector privado e política externa unificada, são boas notícias. Para a extrema esquerda (Bloco, PCP, Podemos, Syriza, …), a Frente Nacional representa um forte aliado. E pensar que ainda há quem diga que fascismo e comunismo são coisas totalmente distintas…

É curioso com agora se diz que a Escócia e o País de Gales têm o direito de sair do Reino Unido e aderir à UE. Quando a Escócia fez o referendo a Comissão Europeia apressou-se a dizer que não poderia ficar como país independente na UE. Disse o mesmo em relação à Catalunha. Não é a extrema direita nem a extrema esquerda que estão a destruir a UE, são estes troca-tintas sem moral nem memória.
Quanto ao “bloco de nações relativamente homogéneo, com contas públicas equilibradas, moeda forte, crescimento assente no sector privado e política externa unificada, são boas notícias”. Eu sei que custa admitir para os crentes, mas a politica económica seguida nos últimos tempos pela UE falhou. O crescimento é anémico ou inexistente, o desemprego sobe, as desigualdades aumentam. A versão musculada de pôr os países na ordem resultou no falhanço ou, no caso da Grécia, num caos.
A propósito! onde estão os que se rejubilaram com o esmagamento das intenções dos gregos de tentarem uma nova resolução aos problemas? Resolveram alguma coisa? Ou simplesmente satisfizeram o ego vendo bater em moribundos?
“É curioso com agora se diz que a Escócia e o País de Gales têm o direito de sair do Reino Unido e aderir à UE.”
Como tinham antes. O direito de sair do Reino Unido e de negociar uma entrada na UE. A grande diferença é que os eleitores escoceses estão hoje perante uma realidade nova.
Quanto à Catalunha, nunca lá existiu um referendo. Apenas um acto de propaganda.
Eu sei que custa admitir para os crentes, mas a politica económica seguida nos últimos tempos pela UE falhou.
Claro que sim. Onde estão as reformas políticas – da responsabilidade dos governos, não da Comissão ou do Eurogrupo – para apoiar as medidas do BCE? Eu até discordo destas mas se ao menos – como Draghi reclama insistentemente – tivessem sido acompanhadas por medidas de aumento de competitividade, talvez existisse uma hipótese. Deste modo, a tendência é para piorar. Ainda por cima, com geringonças no governo de Portugal e talvez da Espanha, e quiçá a Frente Nacional a tomar o poder na França.
Por motivos de clareza, o segundo trecho em itálico devia estar antes entre aspas, para o diferenciar do primeiro, onde o itálico foi usado como ênfase.
A grande diferença é que a chantagem deixou de ser possível.
As políticas económicas são como as orações à santinha da Ladeira: se resultam foi porque rezámos bem, se falham é porque não rezámos o suficiente. Nunca se pode é pôr em causa a santinha.
Ganhar competitividade é, no fim, produzir bens mais baratos que vão melhorar a vida de quem os compra. Aumentar a competitividade piorando o nível de vida de quem os produz não é produzir mais riqueza, é deslocá-la para outros. Mas como aos outros estamos a dizer que diminuam a sua riqueza para aumentarem a competitividade estes vão ter menos capacidade de comprar.
Há quem ganhe temporariamente no processo e pense que a longo prazo estamos todos mortos.
Quanto à UE e aos extremismos, eles se calhar não teriam tanta importância se não fosse a sequência de escândalos que vimos assistindo diariamente.
Ninguém respeita uma organização que diz que um dos seus membros é imune a sanções, ou em que uma reunião informal, não regulamentada, da qual não saem atas, resolva decidir quem são os governos bons e os governos maus. E que parece não ter nada a dizer quando as suas políticas falham.
Claro que se pode chamar extremistas a quem diz que este modo de proceder não é aceitável.
Esperemos que esta moda adquirida de etiquetar os que pensam diferenet de extremistas, perigosos, irarcionais…não venha um dia a sair caro a todos nós. Como todos os tudologos lusos já deviam ter aprendido, não caiu nada, não se começaram a comer criancinhas ao pequeno almoço, nem estamos todos a construir os muros de defes ad aUE por comunistas (e logo os mais ortodoxos de toda a UE) e liricos do BE estarem a apoiar o governo do PS – que curiosamente aplaudiu de pé o socrates no seu congresso(grande prova de democracia viva !!)