Não sei se é tabu, mas há uma praxe triste – ritualmente repetida e pouco reportada – na vida de muitas escolas portuguesas que neste ano lectivo coincidiu com a morte de José Saramago, escritor que aprendeu à sua custa, já crescido, tanto do muito que não pôde em miúdo. Dou por isto há pelo menos vinte anos, mas se calhar acontece há mais. Falo da queima e rasganço de manuais (e cadernos, e livros) frente aos portões principais, na aproximação às férias. Se quem o faz tem a total noção do que expressa – nem todos ouviram falar do tempo em que esses livros passavam de uns irmãos para os outros, encadernados com cuidado – é difícil saber; mas não me parece que se acenda um isqueiro para um gesto de desprezo desses sem o mínimo de percepção do que se está a fazer. Falta muito para sermos um país com amor ao saber, por isso é melhor não perdermos mais tempo.
Da praxe
Ana Cláudia Vicente,

Exactamente. Esse tipo de imbecilidades a que abusivamente chamam praxe académica é bem o espelho do grau de cultura com que hoje se chega ao ensino mais avançado.
A praxe sempre foi um exercício mordaz com tendência para passar os limites, mas nunca com agora, em certos locais. É tudo muito básico e primitivo.
A forma como o humor se manifesta é dos indícios mais reveladores do nível de ‘lavra’ mental das pessoas…
Excelente texto. Tens toda a razão, Cláudia. Esta é uma das facetas mais estúpidas das praxes, promovendo o culto da imbecilidade. Como se isso fosse preciso, num país como o nosso. E gostei da associação que fizeste ao Saramago, que em jovem não estudou mais porque não teve possibilidades. Ao contrário destes, que queimam cadernos e livros.
Ainda tenho os meus livros todos… já dos apontamentos não posso dizer o mesmo, porque a partir da universidade as minhas notas tornaram-se erráticas e desorganizadas – como eu, aliás. Desconhecia por completo esta prática.
Estou chocada, não fazia ideia de que existe essa praxe nas escolas. Tens tanta razão! O gesto é sintomático do nosso desprezo pela aprendizagem, num país em que a iliteracia é mascarada com passagens administrativas para as estatísticas comunitárias. Parabéns pelo texto.
Devo esclarecer, já agora, que (enquanto aluna, professora e simples transeunte) assisti sempre a estes actos à porta de liceus/escolas básicas+secundárias. Na universidade nunca assisti a esse exercício, não sei se acontece. Penso que os rituais de passagem têm importância, mas entre o rito e (como diz a Chloé) o primitivismo auto-satisfeito vai (ou deveria ir) uma grande distância.
Nunca vi fazerem isto na minha escola…Mas pronto, também nunca tinha ouvido falar de praxes no secundário até há bem pouco tempo..
Por falar em praxes (no sentido literal: actos, práticas habituais), anteontem mostraram-me uma fotografia acabada de tirar a um menino que terminou nesse dia o último ano da pré-escolar, vestido num fatinho preto académico (incluindo aquela espécie de cartola à americana) e de diploma em riste. Há uns anos soube de uma viagem de finalistas do 4º ano do 1º ciclo. Está tudo doido.
Desconhecia totalmente este acto bárbaro a que alguém chama praxe e eu penso que só pode chamar-se estupidez. Num país onde os níveis de literacia e aproveitamento escolar são aquilo que se conhece, onde os manuais escolares – além de custarem os olhos da cara – são actualmente uma autêntica indústria e o ‘negócio da china’ que também são conhecidos, onde devia ser incentivada a prática da entrega dos livros no final de cada ano lectivo, em bom estado, a fim de se receber os do ano seguinte, deveria ser considerado pura e simplesmente criminoso permitir um ‘divertimento’ destes. Isto demonstra bem o amor dos portugueses à cultura e a conveniência de se continuar este vergonhoso estado de coisas, no qual, quantos mais manuais se estragarem, melhor para o grande negócio das editoras. Nos países civilizados, os livros escolares são considerados um património público gerido pelas escolas e é incentivada a prática que acima referi. Por cá, é o que se vê.
Desconhecia tal barbaridade. Qual é a responsabilidade dos agentes escolares. As escolas permitem e, se não permitem, reportam tais factos aos superiores hierárquicos? Isso aconteceu aonde e acontece com que frequência? Isto merece/deve ser denunciado, caramba!!!
Luís R. F., O.C.M.,
Seguramente haverá relatos de ‘fogueiras’ e ‘rasganços’ semelhantes em diferentes pontos do país, mas penso que os adultos que assistem a isto se sentem tristes mas não indignados o suficiente para reportarem a instâncias superiores. Com também não reportam alguns ajustes de contas de fim de ano lectivo de alunos com funcionários e professores (envolvendo cuspidelas, sopapos, portas de carros riscados). O pior nisto é a indiferença que se instalou. Vai ser precisa uma considerável mudança de mentalidades para deixar de considerar banais estes actos de violência material e simbólica.