Da importância da memória


Pedro Correia,

Faz hoje 50 anos: a maior revolta estudantil contra o salazarismo. Merece ser lembrada, por motivos vários. Desde logo porque a memória é fundamental numa sociedade adulta. Para que um passado opressor não seja mitificado em nome das dificuldades actuais. Os erros de uma democracia encontram-se sempre num patamar ético superior aos eventuais acertos de uma ditadura.

12 comentários em “Da importância da memória”

  1. “Os erros de uma democracia encontram-se sempre num patamar ético superior aos eventuais acertos de uma ditadura.” Discordo, meu bom Pedro. Não há patamares superiores nem inferiores para os erros. Qualquer relatório da Human Rights Watch ou da Amnistia Internacional são prova bastante que as democracias são apenas um álibi para os atropelos aos direitos humanos. Mas a ir por aí eu colocaria a questão exactamente ao contrário. Há erros próprios das ditaduras, que em democracia são muito mais graves. Porque era suposto que não existissem. Um abraço.

    1. Meu caro Fernando: com isto quero dizer, naturalmente, que os erros em democracia corrigem-se através dos mecanismos inerentes ao próprio sistema. Em ditadura, corrigem-se (quando isso ocorre, tarde e a más horas) só através de um preço inaceitavelmente alto, pago sempre pela privação da liberdade e por vezes até pelo sangue de milhares de vidas humanas. Veja-se o que se passa na Síria contemporânea, por exemplo. Ou na Arábia Saudita. Ou no Sara Ocidental. Ou na Guiné Equatorial. Etc, etc.
      Mas no essencial estamos de acordo, estou certo disso.

      1. Sim, tenho a certeza de que no fundamental estamos de acordo. O meu comentário foi só para esclarecer que assim como abomino as ditaduras não endeuso as democracias. A minha perspectiva da política é a perspectiva das vítimas, sejam elas das ditaduras ou das democracias. Foi só para esclarecer que nenhum dos horrores que vejo ao longe me inibe de ver os que estão ao perto. Isto só porque acredito que a principal função da ética é a de estar à altura das circunstâncias. E as democracias, com os seus inerentes mecanismos, não têm estado.

        1. Curiosamente ou não, estou a aproximar-me bastante desta sua posição. E não o faço com tristeza ou alegria. Trata-se de mero pragmatismo e de uma longa vida a assistir ao endeusamento da democracia partidária em detrimento de uma democracia directa, em que possamos pedir responsabilidades a que de facto as tem.
          Não delego em nenhum partido as minhas opções. Delego, sim, em pessoas nas quais confio e que podem até pertencer a partidos que nada me dizem.

          1. Nem eu, Helena, o faço com tristeza ou alegria. Estou no ponto em que avalio os regimes pelas suas vítimas e pela forma e urgência como corrigem os erros. A sua cor, aroma ou consistência tanto me faz.

  2. Convém lembrar que os sectores políticos que protagonizaram estes protestos académicos alegadamente em nome da Liberdade e da Democracia, uma dúzia anos mais tarde tentaram implantar em Portugal uma ditadura comunista. Alguns dos estudantes de 1962 opuseram-se a essa tentativa, mas outros participaram nela, recorrendo a atentados bombistas e a abusos diversos dos direitos humanos, incluindo a prisão arbitrária e a tortura. Convém não esquecer estas coisas e não alinhar em branqueamentos.

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