Da frontalidade


escafandro,

As declarações de Passos Coelho sobre o desemprego foram infelizes, sim senhor. A crise é real e há milhares de pessoas sem perspectiva. Mas teriam sido mal recebidas ainda que as circunstâncias fossem outras, menos graves. Os portugueses são hiper-sensíveis a opiniões claras e desagradáveis. Como, há uns tempos, nos ofenderam as palavras de uma actriz brasileira. Como, durante anos, reagimos mal aos alertas de gente sem jeito nem paciência para disfarçar opiniões: Medina Carreira e Manuela Ferreira Leite, por exemplo. Estamos habituados a escutar em silêncio e a preferir uma promessa que suspeitamos vazia a um aviso sincero. Estamos habituados a compromissos, às relações de poder baseadas na hipocrisia, a fingir que tudo está bem. Não somos piegas no sentido de uma tarefa nos assustar; não queremos é que nos digam que ela é desagradável. Raramente achamos que as coisas vão bem (no limite, «vão indo») mas tal é motivo para um encolher de ombros, para um «logo se verá», não para declarações frontais e mudanças de rumo. E, claro, as pessoas que agem de outro modo surgem-nos como estranhas e ameaçadoras. Quem raio julgam que são? O José Mourinho?

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