Da educação para a virtude


Rui Rocha,

É Paul de Saint-Victor que nos conta o episódio num dos seus ensaios. Benvenuto Cellini, um dos expoentes máximos do Renascimento, tinha cinco anos quando, numa tarde de inverno, o seu pai, que tocava viola perto da lareira, acreditou ver um animal semelhante a um lagarto a dançar vivo nas chamas. Ordenou à criança que se aproximasse e deu-lhe uma violenta bofetada que o fez romper em lágrimas. Acto seguido, o pai enxugou-as com ternura. “Meu querido”, disse-lhe, “não te bato para punir-te, mas somente para que recordes ao longo de toda a tua vida que este lagarto que vês aqui no fogo é uma salamandra, animal que ainda não foi visto por nenhum homem vivo sobre a terra’”. Pois isso. Que se perceba que a ida do Barrosito para o Departamento de Supervisão Prudencial do Banco de Portugal, sem concurso prévio, está inscrita na mesma técnica de provocar a dor para desencadear memórias inapagáveis que foi utilizada pelo pai de Cellini. Não há sofrimento mais incisivo para o brio profissional de quem o tiver do que esse que resulta de entrar para uma Instituição pela porta do cavalo. Só o carinho insuperável de um pai, de um padrinho, permite uma visão tão abrangente que troque a provação presente pela prazenteira memória futura provocada por uma tal vergonha. O Barrosito, esse certamente não esquecerá. E, tal como Cellini, perceberá mais tarde a que profundidade pode descer o amor exacerbado de um padrinho, de um pai.

6 comentários em “Da educação para a virtude”

  1. Boa reflexão.

    Há certos escândalos que podiam ser certamente evitados. Temos assim mais um exemplo de que como se gerem instituições públicas, quer ao nível de contratação de recursos quer na gestão dos mesmos recursos.

    Acontece que em matéria prudencial o faraó do Egipto também guardava nos celeiros o trigo, para tentar evitar os sete anos de vacas magras.
    Porém, como os pimogénitos eram aqueles que tinham direito a uma ração superior desse cereal acabaram por morrer. E morriam porque o míldio tinha atacado o trigo, consequentemente quem o ingeria em maior quantidade batia as botas.

  2. Se fosse hoje em dia e em certos países culturalmente avançados, o papá do menino Cellini seria julgado por maus tratos à criança e, sem apelo nem agravo, condenado.

    E, digo eu, com bastante razão.

  3. Será que quem assim procede tem noção do dano que faz ao país?

    Uma só notícia destas destrói anos de argumentação a favor do mérito, do empreendedorismo, da igualdade de oportunidades de “se te esforçares e estudares, chegas lá”.

    Gera apenas desalento, indignação, desistência e frustração entre aqueles (muitos) que não pertencem à casta.

    Quantos candidatos ficaram de fora? Qual a avaliação de competências para o lugar? O que dizer a todos aqueles que tiveram melhores notas, estudaram mais, prepararam-se para a sua oportunidade e que -agora – vêm alguém passar-lhes à frente por nomeação.

    E ao próprio. Será que não percebe que sempre pesará sobre a sua cabeça o espectro da cunha. Que mesmo que ande bem montado e bem vestido, toda a gente que com ele se cruzar vai achar que ele só está onde está por mérito do pai? Não o incomodará? Não deveria ser ele o primeiro a querer afirmar-se por mérito próprio?

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