Crónicas sobre esta estreita faixa de terreno (1)


Paulo Sousa,
Cá em casa, na janela da cozinha, temos um frasco com papelinhos dobrados onde registamos as coisas boas que nos vão acontecendo ao longo do ano. Fazer parte do Delito de Opinião já lá está, dobrado em quatro, para ler no fim do ano.
Fico grato pelo convite do Pedro.
Já estou a adorar fazer parte da casa.

 

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Aos olhos de demasiados dos nossos governantes, existe uma estreita faixa do território português que fica localizado a norte do Ralis, a oeste da ponte Vasco da Gama e a sul do Cristo-Rei. Por vezes de lá chegam algumas notícias de acidentes e outras tragédias variadas. O espaço público é, na sua esmagadora maioria, preenchido por eventos, pessoas e sítios, sempre ligados à capital.

 

Li algures que os franceses, nas suas repetidas e mal-sucedidas tentativas de invasão do nosso rectângulo, terão afirmado que Portugal é Lisboa e o resto é paisagem. Esta ideia não é nova e dão-se alvíssaras a quem encontrar excepções dignas de relevo.

 

Observar o mundo sempre a partir do mesmo miradouro é limitador. Existem muitas realidades que nunca terão a visibilidade merecida, e sendo ignoradas é como se não existissem.

 

Julgo que foi num periódico espanhol que surgiu o termo urbanitas. Este neologismo serve para descrever pessoas que, por habitarem nas cidades, acabam por não ter em consideração variáveis que não fazem parte do seu quotidiano. E isso leva-as a julgamentos baseados num mais limitado conjunto de valores. Não me arrisco a afirmar que a visão correcta e completa do mundo é a oposta à dos urbanitas. Apenas acho que a ausência de uma parte da realidade limita qualquer análise. O mesmo raciocínio é válido no sentido contrário, sendo que a limitação de fundo será a falta de equilíbrio entre os dois ângulos de observação.

 

É com este pensamento na minha bagagem que irei tentar aqui escrever sobre esta estreita faixa de terreno. Se correr bem até pode vir a ser uma rubrica tão regular como a regularidade com que eu tropece em histórias, ou estórias, deste lado do Ralis.

 

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Em minha casa, no exterior – para que fique claro – vivem diversas espécies. Neste momento eu poderia contribuir para a Arca de Noé e, por ordem de tamanho, com um carneiro, duas ovelhas, quatro patos mudos brancos, duas galinhas pretas, uma castanha e ainda oito frangos castanhos, dos quais um é de pescoço pelado.

 

Adquiri as ovelhas há quase dois anos, principalmente para limparem um bocado de terreno anexo à casa, o que faz delas umas sapadoras especialistas não subsidiadas. Quando as comprei já vinham prenhes e por isso foram mais caras.

 

Além da impecável limpeza do terreno e da compostagem das cascas de frutas e legumes da casa, já nos deram quatro belos borregos, três machos e uma fêmea. Apareceram quase de repente. Uma pariu dois machos num sábado de fevereiro e a outra pariu um casal no dia seguinte. Os partos foram fáceis e os borregos começaram logo a andar e a mamar. O terreno, que era mais que suficiente para duas bocas ruminantes, rapidamente ficou pequeno para seis que, poucas semanas depois já comiam erva.

 

Cresceram juntamente com as galinhas e sempre coexistiram pacificamente dando até por vezes mostra de algum companheirismo.

 

A borrega fêmea foi vítima de um dramático acidente. Um dia após o nosso jantar começamos a ouvir um grande alvoroço e quando lá cheguei já ela estava deitada no chão. Estava com espasmos que rapidamente acabaram, anunciando o pior. Após ter sido observada, já cadáver, por um entendido, reparámos que tinha engolido uma casca de banana e que esta lhe bloqueou a traqueia.

 

Durante vários dias, humanos e ovinos, todos andámos tristes.

 

Dos restantes três borregos, um foi para consumo da casa já no início do verão. Os outros dois foram trocados por um macho adulto, que por acaso é o pai deles. Com estas trocas quis evitar a consanguinidade que acabaria por acontecer caso crescessem junto das respectivas mães. Além disso, com três machos juntos a caminho da adolescência já dava para antever uma acesa luta por território e por fêmeas.

 

Se a jovem fêmea tivesse sobrevivido provavelmente teria sido ela a escolhida a dar continuidade à próxima geração e, nesse caso, as duas mais velhas já nos teriam feito companhia num almoço familiar de domingo. Sim, porque cozinhar carne criada em casa é sempre motivo para reunir aquelas pessoas que nos são queridas e é sempre um evento especial. Foi isso que fizemos com o borrego.

 

Um destes dias vou falar-vos sobre as galinhas.

27 comentários em “Crónicas sobre esta estreita faixa de terreno (1)”

  1. Também foi uma coisa que aprendi: os restos de legumes e frutas têm de ser dados cortados em pequenos pedaços.
    E como elas os adoram!

    Já agora, a segunda lição: nunca virar as costas aos machos.

    1. Desde esse dia fatídico vai tudo cortado em pedaços…

      O macho recorre à força para impedir as fêmeas de comer, o que nos obriga a alimenta-los em sítios diferentes ao mesmo tempo.

      No dia que ele mostrar vontade de me fazer um alvo faço um telefonema e marco o almoço para o domingo seguinte. É um direito que me assiste enquanto detentor do topo da pirâmide alimentar. Espero que esse dia ainda venha longe.

  2. Há mais ou menos 50 anos atrás, eu andava frequentemente com as ovelhas dos meus tios, levava-as a pastar no passal. Era no período estival, quando estava de férias da escola. Todos os dias ao início da tarde, lá ia eu. E elas, um punhado de meia dúzia, lá ficavam todas próximas da matriarca, a única presa por uma corda a qualquer troço de milho cortado. Pouco tempo depois, começavam a berregar e eu, achando que elas já estariam saciadas e, farto de lá estar e de as ouvir, lá voltava para casa com o rebanho. A casa chegados, levava-mos, eu e as ovelhas, uma corrida da minha tia dizendo que as ovelhas deveriam estar toda a tarde a comer e só aí sim, ficariam fartas. Lá voltávamos ao pasto. Outras vezes, e porque um miúdo não faz os nós bem firmes, quando eu me apercebia, já elas corriam pela calçada acima, atravessando a estrada nacional na curva da morte, e eu atrás delas sem olhar o trânsito, todos em direcção a casa. Nem sei bem, depois de todas as vezes que este episódio aconteceu, como é que ainda hoje estou vivo. Também não me lembro de alguma vez uma ovelha ter sido atropelada na curva da morte, mas por alguma razão bem macabra ela assim era chamada. Claro está que quando lá chegados, voltávamos todos para o campo, novamente estimulados pela rabecada de quem mandava. O tempo parava literalmente, quando eu estava com as ovelhas no passal, de tal forma que eu tinha tempo para tudo, tudo mesmo entenda-se, até para todo o tipo de disparates que um miúdo daquela idade é suposto fazer para crescer bem formado, inclusive para ter aprendido a fazer um relógio de sol, desenhado na terra e acertado hora a hora pelas badaladas da torre da igreja. Por isso, meu caro é que eu hoje gosto muito de conviver com os ovídeos…no prato, de preferência, acompanhados de um bom Douro. Mas sim, parabéns pela aparente boa gestão do seu minifúndio.

    1. Olá Vitor,
      Obrigado pelo seu comentário que adorei ler.
      Refere dois aspectos interessantes, que não incluí no meu texto. Um deles é a calma e serenidade que o gado ovino transmite. Não sei se pelo ritmo do mastigar, se pelo silêncio ou pela simplicidade das suas vidas, cria-se ali uma atmosfera que ajuda a travar os ponteiros do relógio.
      O outro é a capacidade que têm em consumir verdura. O apetite com que se entregam durante horas e horas a fazer desaparecer folhas e arbustos podia fazer-nos questionar sobre o que é a bulimia. E pela natureza da sua digestão durante a noite continuam a ruminar o que ingeriram durante o dia. Tem uma voracidade impressionante.

  3. Relembra-me uma, minha, história pastoral. O meu avó comprou um borreguinho, na feira da minha aldeia. Branco como a neve, fofo como algodão. Ganhei – lhe afeição. Chamei-lhe João. Um dia, durante uma refeição, o meu avó perguntou – me, em diversão:
    – Sabe – te bem?
    – Está óptimo querido avó.
    – Comes o teu João. Não te apoquentes, nem te sintas mal. Não baliu quando o degolei. Em silêncio, se foi.

    1. Segundo algumas opiniões algum gado, onde se inclui, o ovino, quando assustados libertam uma hormona qualquer, talvez adrenalina, que dá mau sabor à carne. Quem sabe fazer o serviço, sei que o faz tão sossegadamente quanto possível, com o máximo respeito pelo bicho e consideração pelos comensais.

      1. Sim. Há que ser rápido com o facalhão. Sei que no javali a primeira coisa a fazer é capá-lo, e dessangrá-lo.

        Nos ovinos o mais indicado é pô-los inconscientes quer com um bastão eléctrico, quer com um pistola de agulhão. Aponta-se sensivelmente à fronte e dispara-se. Perfurado o córtex cerebral fica dito bichano inconsciente. Depois é só esfaquear a jugular e a carótida

        1. Julgo que descreve os métodos dos matadouros industriais que são fábricas de transformar animais em produtos embalados e etiquetados com código de barras e logo de uma cadeia de distribuição.
          A produção intensiva de gado é uma industria diferente daquilo que aqui estive a escrever. Esses animais crescem e vivem entre curros e são alimentados exclusivamente a ração. São coisas diferentes.
          Penso que nos métodos tradicionais a faca seja o instrumento de referência.

        2. Eu às vezes como carne comprada em talho halal (muçulmanos), porque a acho mais saborosa do que a carne de talhos normais. Não sei se isso se deverá ao método de abate, no qual se mata o animal em estado conciente através do corte rápido da vei do pescoço.

          1. Para ser halal tem ainda outras exigências. As reses tem de estar numa orientação específica em relação a Meca e tem de ser proferida uma oração.
            Existe um debate se, posicionando uma máquina de abate industrial, de aves por exemplo, numa orientação conforme basta uma oração ao ligar o interruptor, ou se é necessária uma por cada animal.

  4. Caro Paulo,
    Nada daquilo que conta me estranha.
    É assim a vida no campo.
    Temo, no entanto, que tenha dado ideias aos Puns ou Pans (ou lá como eles se chamam).
    A casca de banana.
    A forma ecológica e civilizada de “eutaniziar” os animais.
    Ainda vou ver o André Qualquer Coisa a defender isso no parlatório.
    Parabéns pelo belo pontapé de saída.

    1. Obrigado Pedro,
      Se essa proposta avançar será com certeza custeada pelo erário público.
      Vendo bem os animais poderão ser em breve cidadãos que se distinguem dos demais (de nós, quero dizer) apenas por não terem obrigações fiscais, o que significa que não haverá necessidade de constituir pet-off-shores.

    1. Obrigado Dulce
      Agora somos colegas
      Tenho por vezes a sensação que quem legisla sobre os direitos dos animais nunca teve contacto com gado. A maior aproximação terá sido através dos filmes da Disney, onde ratos, patos, cães, canários e outros, falam, andam vestidos e comportam-se como pessoas. Esse será o seu – deles – imaginário de animais.
      Cresceram como espectadores e agora são legisladores. Estamos assim.

  5. Paulo, congratulo-me e felicito-o por este regresso em grande, e em grande forma, às “lides”. Um bom reforço, a reforçar também a minha lista de amigos no DO. Grande abraço.

    1. Olá Eduardo,
      É-me difícil colocar por escrito assuntos que me assolam sem que tenha um compromisso de o fazer. Poder fazê-lo aqui no DO é uma oportunidade e uma enorme responsabilidade.
      Há vírus a que somos expostos e que podem ficar adormecidos… mas que nunca mais nos deixam. A bloga é um deles.
      Desde o tempo do nosso saudoso Vila Forte que o bicho me circula nas veias e agora está de novo à solta.
      Um abraço

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