“O actual estado de coisas, em Portugal, nasceu podre nas suas raízes. Herdou todos os podres do anterior. E com este começo, tudo foi possível depois: veio o compadrio quase declarado nos partidos e no governo, depois de se ter declarado a abolição da censura, veio a impossibilidade de distinguir o interesse geral dos interesses dos grupos de pressão, chamados partidos, a impossibilidade de estabalecer um critério que joeirasse os patriotas e os oportunistas, a verdade e a mentira, veio o considerar-se o endividamento como um meio “honesto” de viver. Os cravos do 25 de Abril que, muitos, candidamente, tomaram por símbolo de uma Primavera, fanaram-se sob um monte de esterco. As nossas dificuldades presentes, que vão agravar-se no futuro próximo, merecemo-las moralmente” – excerto de uma crónica assinada no Diário de Notícias por António José Saraiva em 26.1.1979
Crónicas que o tempo não apagou
Teresa Ribeiro,

muito pertinente e real.
Lemos estas palavras e ficamos com a ideia de que o tempo parou em Portugal. E já lá vão trinta e tal anos que esta crónica foi escrita.
Foi o que me impressionou, Alexandre. Como já alguém disse, em Portugal parece que como acontece com Bill Murray no filme Groundhog Day, estamos sempre a acordar no mesmo dia.
Você sabe que viver sem défice quer dizer vivemos com menos dinheiro não é?
Eu pergunto isto porque parece que muitas pessoas que protestam contra o endividamento depois
não querem corte em nada.
É normal, Lucky. Ninguém gosta de perder direitos adquiridos, nem aqui nem na China. O que não é normal é quem nos governa ter sempre tantas dificuldades em enfrentar e vencer essas resistências.
Lembro-me bem deste artigo de António José Saraiva. Um texto antológico, intitulado ‘O 25 de Abril e a História’. Gerou uma celeuma monumental na altura. Uma celeuma que nenhum artigo é capaz de suscitar agora.
A democracia ainda estava verde. Agora ameaça cair de madura.