Cristalino!


Luís Menezes Leitão,

Acompanhei com bastante cepticismo a euforia nacional em torno do “sucesso” da candidatura de António Guterres à ONU, expressa em sucessivas votações. Sempre achei que essas votações não serviam absolutamente para nada, uma vez que a Realpolitik é que iria decidir quem iria ser o Secretário-Geral da ONU. E, por isso, a figura dos candidatos a responder a interrogatórios sucessivos “para inglês ver” é perfeitamente patética.

 

Neste momento, por razões geopolíticas, está assente que o próximo secretário-geral da ONU deverá vir da Europa Oriental e que deverá preferentemente ser uma mulher. Não faz por isso qualquer sentido esperar que um homem da Europa Ocidental possa ganhar a eleição. Mesmo que ganhe todas as votações, haverá sempre um veto de um membro permanente a inviabilizar a ascensão ao cargo. E não vale a pena falar em violação às regras democráticas: a ONU não é uma democracia já que, se o fosse, não haveria direito de veto.

 

A questão tem paralelo com o que se passou com o austríaco Kurt Waldheim em 1981. Tendo sido indiscutivelmente um bom secretário-geral da ONU, cumpriu dois mandatos à frente da organização com o agrado geral. Quando se tentou recandidatar a um terceiro mandato, surpreendentemente surgiu o veto da República Popular da China. Era o único país que se opunha à reeleição, pelo que Waldheim insistiu. 16 vezes se apresentou a votos e 16 vezes a China o rejeitou. A justificação para o veto foi apenas esta: Waldheim fora um excelente secretário-geral, mas em 35 anos da organização esse cargo fora ocupado durante 25 anos por homens do ocidente. Agora a China queria um secretário-geral oriundo do terceiro mundo. E assim Waldheim acabou por retirar a sua candidatura, tendo sido eleito o peruano Javier Pérez de Cuellar, que teve um mandato sem qualquer brilho à frente da organização.

 

Portanto, não vale a pena os nossos políticos fazerem de virgens ofendidas, e proclamarem a sua indignação pela entrada na corrida de Kristalina Georgieva, que já se percebeu muito bem que vai ser a escolhida. Aliás, já se sabia desde o início que, a bem ou a mal, o próximo secretário-geral será da Europa do Leste. Um dos maiores problemas actuais na esfera internacional é a ascensão da Rússia, e é necessário um secretário-geral que possa fazer a ponte entre a Rússia e o Ocidente, essencial para resolver antes de tudo o conflito na Síria. Neste quadro não é o currículo de Guterres na área dos refugiados que lhe permite qualquer expectativa de ascender ao cargo. Como ele próprio costuma dizer: “é a vida!”. Na verdade, ele de nada se pode queixar que isto desde o princípio foi sempre absolutamente cristalino.

0 comentários em “Cristalino!”

  1. Acho bem. Detestaria que Guterres ganhasse a corrida. Tipicamente socialista e ainda mais cobarde do que Durão Barroso, abandona os eleitores que votaram nele depois de se aproveitar da política. Aposto que é benfiquista e retornado, também. Gente que faz o pântano e que depois se queixa dele.

  2. Dá gosto ler análises não provincianas.

    Massajar o ego dos portugueses com supostos heróis do regime.
    Propaganda política interna, via endeusamento das figuras do regime, é na verdade contra-producente, quando perante um eleitorado politicamente sapiente, como é o português.

    A ONU é de quem paga, e mais de metada, agora, por enquanto, é a administração Obama … a brincar com papel verde.

  3. Estaria de acordo com o post, não fosse o facto de a Bulgária se ter enredado na coisa, tendo agora duas candidatas no colo (o que não é permitido). Bokova não vai dar o braço a torcer, até porque estão em jogo questões de política interna búlgara (os socialistas não estão dispostos a engolir a humilhação). E a substituição por Georgieva é uma cambalhota demasiado óbvia, mesmo para os standards da ONU, onde as aparências são o único que lhe resta.
    Quanto aos nossos políticos se fazerem de virgens ofendidas, também isso é parte do jogo. Cristalino.
    E Guterres não perderá a face se ficar absolutamente claro que a sua derrota se deve apenas a ter nascido com pilinha, numa jangada de pedra. Era uma oportunidade única; mas não é a morte do artista.

  4. O seu pensamento é matemático e faz sentido. Porém, na política o que faz sentido raramente ocorre; muito menos em tempo útil.

    Fique atento para ver se a Georgieva vai ficar ou não.

  5. Em boa verdade, entre 1945 e 1981, haviam ocupado o cargo de secretário geral 3 ocidentais: Gladwin Jebb, Trygve Lie e Dag Hammarskjöld. Seguira-se U Thant, birmanês. As contas chinesas eram algo arrevezadas…

  6. O Waldheim foi um chefe de sala que corria de mesa em mesa para receber as reclamações. A ONU até agora só teve dois secretários-gerais: o Hammarskjold e o Annan. Os outros foram verbo de encher para se cumprir a Carta. A este propósito leia-se o excelente texto de Simon Chesterman na Global Governança, no. 21, 2015, 505-513 (“The Secretary-General we deserve”).

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