Milhares de pessoas festejam esta noite em Roma a queda de Silvio Berlusconi. O homem que mais marcou a política italiana nos últimos 20 anos viu-se forçado a abandonar o poder na sequência das pressões conjugadas de Bruxelas e dos ‘mercados’.
Sou insuspeito de simpatias por Berlusconi: várias vezes escrevi contra a sua falta de sentido de Estado, a sua duvidosa moralidade na gestão dos assuntos políticos e a ténue fronteira que separava a sua condição de empresário com a de responsável governativo. Mas esta saída do poder, nos termos em que ocorre, preocupa-me muito mais do que me alegra. E devia preocupar também aqueles que se manifestam a favor desta mudança política em Roma. Porque o designado sucessor de Berlusconi, Mario Monti, é um homem da confiança da superestrutura de Bruxelas, um tecnocrata puro e duro que ascende à liderança do Governo italiano não pelo voto popular mas por pressões da oligarquia financeira. A mesma que na Grécia já foi decisiva na substituição do socialista Georgios Papandreou por outro tecnocrata, Lucas Papademos.
Um velho provérbio espanhol que cito com frequência vem a propósito de tudo isto: “Cria cuervos y te comerán los ojos.” Seria bom que não aplaudíssemos a chegada dos corvos. Eles andam aí.


O Silvio já se está a rir… e com duas moçoilas, uma de cada lado.
Talvez, João. Mas o caso não é para rir.
Claro, Pedro. Muito sério e a Itália com esta opção de fazer política sem eleições pode arranjar forma da Europa dita democrática ir pelo abismo. Abraço
Custa-me ver governos substituídos por jogadas palacianas: mudam-se os ciclos políticos sem que o povo se pronuncie. Isto é a negação da democracia, de facto.
Abraço, João.
Estou começando a andar pelos blogs. Achei este com interesse, bastante interessante.
Também tem interesse o blog
http://anticolonial21.blogspot.com/
É um blog não-alinhado, de Livre-Pensamento.
Obrigado por ter gostado do Delito.
Não, meu caro, nada pode ser pior que um Berlusconi ou que um Sócrates. Nada. E quando grafo nada é mesmo nada.
Meu caro, a questão não é essa. Sócrates foi afastado do poder pelo voto popular. Ao contrário do que sucedeu com Berlusconi e Papandreou. Isso é que é preocupante.
Compreendi muito bem, Pedro, mas mesmo assim mantenho que há bens maiores que o pronunciamento moroso e toldado dos povos, sobretudo em situações de iminente desastre, especialmente quanto ao afastamento de líderes-óbices, esgotados e sem credibilidade: bens como não recair no caos, não ficar à mercê da instantaneidade dos mercados em condenar nações.
Penso que em terra de cegos, mesmo os corvos passam fome.
Pois, meu caro. Mas se os governos começam a cair porque as taxas de juros sobem acima dos 7% e os políticos dão lugar aos economistas cinzentos que mais agradam à Comissão Europeia, sem sufrágio universal, isso já começa a ser preocupante.
Magnífico artigo, não só pelo significado profundo do provérbio, como também pelo facto de evidenciar que, para alguns, o ódio a determinados políticos (não nutro qualquer simpatia por Berlusconi) ou campos ideológicos é maior que o respeito pelos resultados eleitorais…
A democracia política vai-se diluindo diariamente, Carlos. Estamos a assistir a isso. Convém não assistirmos calados.
Ainda que não tão escatológico como V. concordo com este seu texto
Nada que me admire, meu caro. E alguma escatologia acaba sempre por ter utilidade.
A democracia política actual está falida e agradeço a sua diluição. Quando se elegem políticos profissionais, amorfos, e sem ideias e que mal chegam ao poder esquecem o parco programa eleitoral que os sustentou, algo não está bem e merece -e deve- ser mudado
O facto de a liderança europeia actual estar ausente de Líderes (com L) que possam colocar os mercados no seu devido lugar é um derivado das (más) escolhas que todos os europeus têm feito nas últimas décadas. Quando se usam eleições europeias (e referendos sobre a constituição) como sondagens à política actual do Governo em funções, não podemos (nós os europeus) queixar-nos que existe défice de democracia na UE.
Naturalmente, espero que no seu lugar surja uma verdadeira democracia orientada por ideias e estratégias e em que o voto sirva para verdadeiramente expressar o pensamento político de cada um substituindo a actual clubite partidária.
Como se diz, a esperança é a última a morrer…
É um governo de transição, com mandato muito preciso de aplicar um plano de austeridade que Berlusconi foi incapaz de aplicar. Monti foi escolhido pelos partidos e será nomeado pelo presidente, tendo obviamente de passar no parlamento.
Não vejo os corvos. Berlusconi perdeu a maioria e não há aqui nenhuma alteração da ordem constitucional, nem a democracia italiana se encontra diminuída. Apenas não houve moção de censura ou moção de confiança perdida, pois não havia tempo: os mercados abrem na segunda-feira.
Há muitos exemplos de governos nomeados sem irem a eleições; em Portugal, houve vários.
O problema que se deve levantar é outro: até que ponto pode um país com situação política disfuncional e apodrecida dar-se ao luxo de levar os seus aliados à bancarrota ou, no mínimo, a graves problemas financeiros, sem que as vítimas possam interferir.
Os tratados europeus não permitem a um país meter-se na política interna de outro e as formas de pressão são mínimas.
O que se poderá discutir no futuro, no âmbito da federalização europeia que vai acelerar, é se faz sentido criar mecanismos institucionais nos tratados para se impedir um estado membro de produzir instabilidade política que afecte os outros estados da UE.
Sublinho que esta situação é inédita: a continuação de Berlusconi ameaçava conduzir a uma crise financeira internacional que afectava muitos países, portanto, a substituição do primeiro-ministro não passa de uma rara manifestação de bom senso por parte dos políticos italianos.
Havia mil razões para derrubar Berlusconi, Luís. Por incuprimento de sucessivas promessas eleitorais. Pelos processos judiciais em que era suspeito de corrupção e tráfico de influências. Pelos infindáveis escândalos em que se envolveu. Cai afinal devido à pressão dos mercados através do seu eficaz mecanismo instrumental, a subida das taxas de juro. O homem que se segue, na sequência de rápidas manobras palacianas, é a figura preferida dos burocratas da Comissão Europeia. Não tenhamos ilusões: há mudanças políticas estruturais em marcha na Europa. E nenhuma delas aponta no sentido do aprofundamento da democracia, muito pelo contrário.
Para mim, a grande interrogação é: se havia mil razões para derrubar Berlusconi (em o Pedro passa a enumerar várias, e excelentes), porque é que ele nunca caiu até agora?
A mim esta cena diz mais sobre os limites da democracia representativa do que sobre o poder dos burocratas de Bruxelas.
É isso mesmo que nos deve inquietar, Isabel: os limites da democracia representativa, que começam a estar demasiado evidentes.
Uma coisa é certa, compadre: em Itália, como na Grécia, os novos senhores designados e não votados estão nomeados a prazo. No caso grego é até ridículo, porque o que consta que ele vai fazer no curto tempo disponível não dá nem para ficar muito tempo na fila do supermercado. Segue-se a Espanha, mas a mudança virá aí pelo processo democrático clássico.
No fundo, a meu ver, tivéssemos nós a certeza de que os tecnocratas de Bruxelas também têm os dias contados e o futuro poderia então oferecer-se um nadinha mais risonho. E que os alemães e os franceses percebessem onde estão os corvos e onde deviam ser postos.
Em Portugal a mudança ocorreu graças ao voto dos cidadãos, compadre. O mesmo sucederá dentro de dias em Espanha. O problema é que ninguém elegeu os burocratas de Bruxelas que agora tomam decisões políticas ao mais alto nível. Cada vez mais.
Não tendo nenhuma simpatia por Berlusconi também acho esta substituição preocupante.
Partilho naturalmente da sua preocupação. Pelos motivos que enunciei.
voltamos a outras eras, que julgavamos perdidas na história, em que os povos faziam oferendas e sacrificam animais e até outros seres humanos, para “acalmar” a ira dos deuses de então.
agora, neste tempo, são-nos perdidos sacríficios para “acalmar” os mercados, esses novos deuses.
e até o berlusconi foi sacrificado pelos actuais sacerdotes deste culto: merkel e sarkozy.
com berlusconi a dívida pública italiana cresceu de 103%, em 2007, para 118,4 % do pib, em 2010.
nesse período, a dívida pública da alemanha cresceu de 65,2% para 83,2% do pib, a francesa cresceu de 64,2% para 82, 3% do pib, e a do reino unido cresceu de 44,4% para 79,9% do pib.
para já foi berlusconi o sacrificado, porque quando foi para o governo recebeu, em 2000, uma dívida de 108% do pib, que então em nada inquietava os tais mercados.
mudam-se os tempos mudam-se as crenças, mas a história parece um carrossel, e isso pode trazer esperança ou pode ser aterrador, depende da fase da “corrida” onde nos encontramos.
Preocupante, sem dúvida. Uma coisa é os governos mudarem por terem perdido eleições. Outra, muito diferente, é mudarem porque os ‘mercados’ perderam confiança neles.
Logo que soube da demissão partilhei de imediato da sua preocupação.
Não que a sua saída não seja benéfica ou até mesmo necessária, o próprio povo italiano há muito que dava sinais de saturação da figura em causa; o que impressiona é a facilidade com que a economia manda um politico, eleito pelo povo, às urtigas.
Em Portugal (como em acontecerá em Espanha) a mudança fez-se pelo voto popular, mas o que aconteceu em Itália e na Grécia é algo assustador. A economia sobrepôs-se definitivamente à democracia. E isto é para nos deixar a todos, no mínimo, preocupados.
«O que impressiona é a facilidade com que a economia manda um politico, eleito pelo povo, às urtigas.»
Nem mais, André.
No mesmo sentido que ontem escrevi no meu blogue: http://gonio.blogspot.com/2011/11/democr acia-dos-mercados.html
Estas soluções podem parecer as necessárias e óbvias neste momento, mas são a forma mais perigosa de enfraquecer a democracia (que na Europa da União tem uma perspectiva muito própria…).
Registo a sintonia, Gonio. Com natural agrado.
O ‘Berluscorvi’ está aqui com um olhar muito preocupado mas parece-me que, também a nós, não faltam mesmo razões de sobra para isso.
Parece-me o mesmo, caro Luís.
No espaço de uma semana, na Europa, porventura a zona do globo dotada de maior e mais profunda “cultura política”, dois governantes democraticamente eleitos são escorraçados e forçados a sair pela porta do cavalo, não pelos eleitores, mas por forças externas; na sequência, são substituídos por tecnocratas nomeados ao gosto e à medida dessas mesmas forças externas. Em nota de rodapé, a hipótese da realização de um referendo num desses países é negada, na ponta de uma chantagem miserável, pelo eixo paris-berlim. Eu ando a reler Orwell e o Pedro?…
Eu acabei de ler uma biografia do general De Gaulle, um dos maiores estadistas europeus do século XX. Um homem que se fosse agora talvez já tivesse caído devido às pressões dos “mercados”.
Duvido.
Fazem-nos falta De Gaulle’s, fazem-nos falta Willy Brandt’s, Jean Monnet’s e, do meu ponto de vista nacional, também nos fazem falta homens da cepa de Soares ou de Sá Carneiro. O problema europeu está relacionado com a incapacidade dos seus líderes políticos.
Os líderes políticos europeus são hoje produtos dos media em primeiro lugar (no sentido em que têm de ser bonitos, não podem ser um francisco assis óculo e borbulhento) e, em segundo, simpatizantes dos interesses económicos que controlam os referidos media pelos quais são “construídos”. Sintomático disso é a sua edificação enquanto líderes virtuais, todos com a sua página facebookiana, dos PR aos PM.
Por outro lado, os nossos líderes não estão preparados, entre outros motivos porque, e ao contrário dos líderes de meados do séc. passado (caramba, até hitler ou salazar eram homens lidos), os líderes actuais pura e simplesmente não possuem qualquer entendimento da história e vivem à babugem dos acontecimentos, a estes reagindo sem qualquer ideia própria assente numa compreensão dos processos históricos, et por cause, sem de facto neles influirem.
Naturalmente, os líderes são o reflexo da sociedade que se construiu nos últimos vinte a trinta anos: individualista, ausente da coisa pública, abstencionista, muito eficaz tecnicamente no seu domínio particular do saber e pouco abrangente no campo dos saberes mais vastos da história, do criticismo, das humanidades.
Assim sendo e naturalmente, não estará longe a hora dos homens da providência, dos homens extremos e dos idealistas chapados. Sobre isso, prefiro nem reflectir.
De qualquer modo, fácil é regredir, difícil é progredir, como disse um dia um anónimo qualquer. De Rosa Luxemburgo a De Gaulle vai uma distância enorme, de Berlim a Lisboa nem tanto assim, via Paris, Londres, Roma, Atenas, Bucareste.
Enfim, desvio-me do tema em apreço; o que acha Pedro, faz algum sentido pensar a Europa com líderes deste calibre, promovidos, senão criados, por este tipo de “sistema”?
Acho que com “líderes” destes a bela utopia da Europa unida jamais se consolidará, Carlos.
Mais valia reconhecer o que já De Gaulle reconhecia em 1960: «Tenho dito e repetido que na época que atravessamos não há, nem pode haver, outra Europa que não seja a dos Estados – excepto, naturalmente, nos mitos, nas ficções e nos desfiles. A Europa integrada, como se costuma dizer, onde não haja política, colocar-se-ia na dependênca de alguém exterior, que, por seu lado, não deixaria de a ter.»
Palavras sábias. E de algum modo proféticas.
Sintetizando o comentário, segundo Orwell: estamos perante o triunfo dos porcos (atenção, os verdadeiros animais suínos merecem-me todo o respeito).
De facto, Orwell é um autor que nos ajuda a entender melhor o nosso tempo. E Kafka também.
Este post falha completamente a análise da situação. E mais me espanta que a falta de lucidez pareça tão generalizada.
Considera-se preocupante que Berlusconi tenha sido forçado a abondonar o poder devido a pressões de Bruxelas e dos mercados.
Mas era suposto que Berlusconi continuasse no poder? Ou então, que saísse pelo próprio pé?…
Ou o problema são as pressões? Era suposto os políticos não sofrerem pressões de espécie alguma? Ou considera-se não haver razões para existirem pressões?…
Ou é por as pressões virem de quem vêm? Era suposto ser o povo italiano a pressionar, a resolver o assunto, já que o problema é só deles? Bruxelas não devia ter palavra no assunto? E os mercados são apenas um mito urbano?…
A simples verdade: Berlusconi viu-se forçado a demitir-se porque a Itália encontra-se em pré-falência.
Critica-se a duvidosa moralidade e a promiscuidade política de Berlusconi. Sabendo-se perfeitamente que foi isso o que o fez conquistar o poder. Pela via democrática, evidentemente.
Teme-se a subida ao poder dos tecnocratas. Por serem homens de confiança de Bruxelas. Supõe-se que o ideal seria que não houvesse qualquer relação de confiança…
E também porque não foram sufragados pelo voto popular. Supõe-se que, se fossem eleitos, já não havia qualquer problema em que fossem tecnocratas. Seriam tecno-democratas. Ou talvez o povo tenha razões para suspeitar de que eles vão tentar arruinar os respectivos países. Afinal, os maravilhosos políticos que o povo tinha eleito antes não podiam ter sido mais competentes…
Incrível: as urgências vão-se enchendo com doentes em estado crítico e ainda há quem queira organizar uma votação democrática no bloco operatório. Parece que os cirurgiões são demasiado técnicos. Uns autênticos corvos…
Para quem passa com tanta facilidade atestados de falta de lucidez aos outros é espantoso como você tenha aflorado o problema – sintetizado nesta quase frase: «não foram sufragados pelo voto popular» – sem conseguir sequer vislumbrar o fulcro da questão.
A questão é esta – e não nenhuma outra. No intervalo de poucos dias, dois governos europeus passaram a ser liderados não por dirigentes políticos mas por tecnocratas que gozam da máxima confiança em Bruxelas e junto dos “mercados”. Nenhum deles se submeteu ao sufrágio popular. No caso italiano não há sequer limite para o mandato do novo Governo. O senhor Olli Rehn, responsável pelo pelouro da Economia e Finanças no colégio de comissários europeus, aplaude certamente. Não admira: também ele ocupa funções para as quais não foi eleito por sufrágio popular.
A democracia começa a ser derrotada quando permite que alguém governe sem se apresentar a eleições. Muitas ditaduras começaram precisamente por este pequeno passo.
Continuo sem compreender como é possível que você veja as coisas de forma tão errada. Então não vê que a intervenção dos tecnocratas visa precisamente salvar as democracias?! Não vê que a democracia é impossível num Estado falido?! Não vê que a situação actual tem muito que ver com a forma como tem funcionado o sistema democrático, tal como está implantado nesses países?…
Que medo é esse relativamente a Bruxelas e aos mercados? Você não quer a “ajuda” deles? Tem uma alternativa melhor? Ou prefere ficar sozinho? Acha mesmo que isso é exequível?
Quer sufrágios populares? Tem tanta certeza de que são a solução para o problema? Mas não os houve até agora? Algum dos países em crise foi governado em ditadura nos últimos 30 anos? Com tanta democracia, seria suposto as economias serem pujantes, não?
Acha possível eleições democráticas hoje na Grécia, quando é evidente que os dois partidos que têm monopolizado o poder foram ambos responsáveis pelo descalabro do país, e não têm qualquer credibilidade? E que não existe actualmente nada fora deles que possa mostrar como credenciais uma representação popular aliada a uma inspiração democrática? E que uma solução minimamente sólida e fiável a nivel democrático demorará meses, se não anos, a ser encontrada? Tempo que manifestamente não existe?
Acha possível encontrar-se hoje uma solução democrática para Itália? Com o panorama partidário completamente fragmentado? E sabendo-se que mais duas semanas de acosso e torna-se inevitável um resgate da Itália? Para o qual não existe dinheiro?
Não há democracia que resista à bancarrota. Lembre-se da Alemanha: a situação em que se encontrava no início dos anos 30; e o que o sufrágio popular ditou na altura. Ou então, a nossa maravilhosa 1ª República: era tão democrática, tão democrática que até tornou impossível evitar a ditadura…
Você é um visionário. Consegue visualizar “democracias” sem sufrágio universal. Com governos ungidos pela oligarquia financeira europeia. Com os mercados a determinar as alternativas políticas através da subida das taxas de juros.
Você pergunta:
– «Acha possível eleições democráticas hoje na Grécia?»
– «Acha possível encontrar-se hoje uma solução democrática para Itália?»
São perguntas que poderiam ter sido feitas por um tal de Mussolini em 1922 ou por um tal de Papadopoulos em 1967. Perguntas que já contêm uma resposta. Eu, por mim, fiquei esclarecido.
Eu seria um visionário era se conseguisse ver democracias florescentes em Estados falidos.
Teme Mario Monti, que você conhece melhor (e que é escrutinado ao segundo) do que o presidente de junta da sua freguesia, que você elegeu democraticamente.
Mostra receio por Papademos, ainda sem ter passado um mês sobre a decapitação das chefias militares gregas.
Tenta evidenciar a ameaça de as alternativas políticas serem determinadas a partir da subida das taxas de juro. Realmente, é uma injustiça o que foi feito a Sócrates. Não fosse a ditadura dos mercados, e ainda estávamos em plena governação socrática. Plenamente democrática. Seríamos agora mais felizes do que nunca o fomos…
Por muito que você queira, a verdade é que hoje (e quando digo hoje, digo no imediato) não há condições nem expectativas de se encontrar uma solução sólida, a nível democrático, para enfrentar a gravidade da situação na Grécia ou em Itália.
Sim, vai haver eleições em Espanha. Mas já há mais de um ano se sabe qual vai ser o resultado. Houvesse dúvidas substanciais e a história era outra.
Sim, houve eleições em Portugal. Com um programa de governo vindo do exterior e com promessas já totalmente desditas. Com um interregno de mais de dois meses que foi terrivelmente prejudicial. Com um executivo essencialmente tecnocrata e que tenta merecer todos os dias a confiança de Bruxelas e dos mercados, para que o país possa sobreviver mais um anito.
É, ao fim e ao cabo, nisto que discordamos: você vê nos tecnocratas uma ameaça ditatorial, fantasiando sobre alternativas democráticas inexistentes; eu vejo democracias arruinadas, sendo os tecnocratas a última hipótese de se escapar à ditadura.
Você teme os Vítores Gaspares; eu temo os Otelos.
“…não vê que a intervenção dos tecnocratas visa precisamente salvar as democracias?!”
Mas esse é exatamente o argumento do Pedro Correia: será que você não se apercebe do terror, do absoluto terror, escondido por estas suas palavras? Quantas, quantas vezes, nos últimos 200 anos, os regimes liberais ou democráticos, na Europa e nos países de origem política europeia (entre os quais incluo o meu), viram-se diante da situação de uma intervenção externa ao sistema para “salvar as democracias”? São esses os corvos evocados pelo Pedro Correia: e ele tem razão, e essa situação é assustadora em todos os níveis, precisamente porque, em geral, essas intervenções não salvam coisa alguma, a não ser alguns postos e interesses ocultos.
Isso mesmo, Brasileiro.