Crepúsculo


Luís Naves,

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O assunto nunca foi discutido, mas o que sobrar da Ucrânia será parte da União Europeia depois da guerra. Kiev precisa de toneladas de dinheiro e, logo que terminem os combates, todos pagam. Tal como acontece com Chipre, haverá um Estado-membro com gigantescas necessidades de subsídios, problemas demográficos, territórios ocupados por um país terceiro, mas desta vez em larga escala. O projecto é apressado e ambíguo. Não existe memória, nos últimos 40 anos, de uma Europa tão dividida e dependente: os americanos protegiam, a Rússia vendia minerais e energia, a China comprava os produtos da indústria. Essa forma de vida acabou. As divisões, entretanto, instalaram-se. Há um arco de países mais próximos de Londres (Holanda, Suécia, Polónia); potências de costas viradas (França, Itália, Alemanha); o sul empobrecido. O problema são os nacionalismos, que critérios misteriosos dividem entre bons e maus. Itália e Hungria têm nacionalismos maus, tal como aquele que levou ao Brexit; França, Portugal, Polónia são exemplos de bons nacionalismos. Varsóvia passou de um lado para o outro, por correr em pista própria na Ucrânia. A burocracia de Bruxelas, que ninguém elegeu, ostraciza governos eleitos, mas rema contra a maré de nacionalismos maus e descontentamentos péssimos que ameaçam dividir ainda mais um continente em estilhaços. De dedo sempre espetado, a Europa lá vai passando sermões a toda a gente, enquanto a escuridão cresce nas suas ruas. A curta experiência federal chega aos limites, as nações reaparecem.

imagem, Night Café (IA)

15 comentários em “Crepúsculo”

  1. Tudo muito negro para os melhores padrões de vida do mundo que os cidadãos buscam melhorar trabalhando menos por menos tempo.
    Mas há alternativas, e de Vladisvotok a Lisboa é uma delas.
    Esse projecto já começou há muitos anos atrás e a ideologia que o semeou deixou o léxico e os conceitos que permanecem, do pacifismo ao remorso colonial, do tudo a todos à tolerância porque sim.
    A Europa está confrontada com um único facto que espanta pela novidade: o poder!
    Novidade para quem acreditou no fim da História.

  2. o sul empobrecido

    O sul da Europa não está tanto empobrecido como, pior do que isso, está em seca. Todo o arco sul da Europa está a cair numa seca persistente, como aquela que atinge a Califórnia desde há uns 30 anos. O Economist reportou recentemente sobre uma comuna francesa que já está a recusar toda e qualquer nova construção de casas novas, porque entende que já não há água suficiente para qualquer aumento da população. Cada vez mais esse será o destino também de vastas áreas do sul da Europa, pelo menos quando não se encontrem suficientemente perto do mar para serem abastecidos por água dessalinizada.

    1. Então já não precisamos de imigrantes *? Ainda bem

      * a maior falácia dos ultimos tempos — nenhum pais moderno precisa de imigrantes. Quanto menos gente melhor.

  3. As divisões, entretanto, instalaram-se.

    As divisões sempre existiram na União Europeia. Pelo menos desde 1973 que existem, em todo o caso. Não são nada de novo.

  4. O problema são os nacionalismos

    Não, o problema não são os nacionalismos, o problema são os governos que têm opções e prioridades diferentes. O governo polaco têm uma opção anti-russa, enquanto o governo húngaro tem uma preferência pró-russa. Não se trata de esses governos terem nacionalismos maus ou bons, trata-se de esses governos fazerem opções distintas.

  5. Países com a Coreia do Sul a Índia e a China entre outros, procuraram e estão desenvolver-se tecnologicamente e por consequência economicamente, tendo a importância planetária que se lhes conhece.
    Já a Europa, dirigida por esta rasca geração de dirigentes, que ou são marxistas ou fazem vénias ao marxismo, como se esta aberração não tivesse já mostrado durante cem anos o seu carácter ruinoso, resolveu ir à caça de gambuzinos.
    Os gambuzinos do racismo, os gambuzinos do colonialismo, os gambuzinos lgbt, os gambuzinos da migração, entre outros, que estão a exaurir os recursos destes países, atirando-os para a irrelevância e a pobreza.
    A Europa tem parcos recursos minerais e agrícolas. Quanto aos industriais, ofereceu-os à China e há três anos, nem máscaras cirúrgicas sabia fazer.

    Putin, com esta guerra, atestou , urbi et orbi, que a Europa é uma nulidade política, económica e militar.

  6. a Europa lá vai passando sermões a toda a gente

    Uma das coisas mais irritantes na cultura europeia (e, atualmente, norte-americana) é a mania de que se está na posse de uma verdade universal, uma espécie de Boa Nova (= evangelho) que se deve ensinar e, no limite, impôr a todos os povos do mundo. No passado essa verdade universal era o cristianismo, atualmente é a democracia liberal e os direitos humanos. A Europa não consegue ter a humildade de aceitar que as teorias e os procedimentos que são bons para si podem não o ser, necessariamente, para outros povos; ou que, em todo o caso, o ensinamento dessas teorias e procedimentos deve ocorrer somente através do exemplo, e não através da pregação.

  7. A Europa é um continente de velhotes burocratas criados nos anos dourados do pós-guerra. Os que viveram nos tempos de aperto a sério já morreram e os jovens têm um peso marginal nas decisões (veja-se o exemplo português onde um governo é eleito com maioria absoluta graças aos votos dos mais velhos ou em França onde estes se recusam a aumentar a idade de reforma não querendo saber das consequências para os mais novos). Um continente assim não pode ter um futuro risonho como é evidente e, só não vê isto quem não quer. O futuro não é nem nunca foi dos velhos!

  8. Isso depreendendo que esses territórios não vão ficar para os russos.
    Entretanto vão haver cada vez mais países a querer ” fugir” da UE.

  9. A História, “as usual”…
    Se eu estiver no Japão, ou no Brasil ou em África posso falar de Europa – agora, na própria Europa, tenho de me referir aos países europeus , numa perspectiva de nacionalidade , história, política…
    P.S. Na Ibéria faz todo o sentido falar de Europa – todos sabemos que essa “geografia mítica” começa, ( ou acaba…) na vertente este dos Pirenéus…
    JSP

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