Costa Alves: «Não há pecados capitais»


Pedro Correia,

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«Irrita-me já não conseguir irritar-me com coisas que costumavam irritar-me. O tempo acaba por moderar estas coisas…»

 

Mais do que uma entrevista, aqui houve um reencontro: Manuel Costa Alves foi um dos melhores professores que tive. Ensinou-me Geografia no liceu, dele ouvi pela primeira vez falar em cúmulos, cerros e nimbos. Dons de pedagogo que pôde exercer também, para o país inteiro, durante os anos em que apresentou o boletim meteorológico na RTP e na TVI.

 

Tem medo de quê?

Tenho medo de coisas de que não sei se tenho medo. Tenho medo de ter vertigens, por exemplo. E tenho medo do medo.

Gostaria de viver num hotel?

Não. Nem no mais luxuoso hotel que possa existir. Não há nada que pague a privacidade de uma casa e das suas memórias.

A sua bebida preferida?

Vinho tinto.

Tem alguma pedra no sapato?

Ui, tantas! Às vezes nem consigo meter o pé… São coisas que vamos acumulando ao longo da vida.

Que número calça?

40.

Que livro anda a ler?

Estou a ler um livro chamado La Guerra Civil que No Va Gustar a Nadie, de Juan Eslava Galán. Sobre a Guerra Civil de Espanha.

É um tema que o atrai muito?

Sem dúvida. Na minha cidade natal, Castelo Branco, a minha família teve ecos muito próximos da guerra civil [1936-1939], que se desenrolava também junto à fronteira.

Costuma ter muitos livros à cabeceira?

Pelo menos dois ou três.

De vários géneros?

Sim. Gosto muito de História. Mas também leio romances.

A sua personagem de ficção favorita?

Aquelas personagens do Memorial do Convento. A Blimunda e o Baltasar Mateus, o Sete-Sóis.

Rir é o melhor remédio?

Sim. E chorar também.

Lembra-se da última vez em que chorou?

Sim. A partida de pessoas a quem estou ligado emociona-me sempre muito. E as memórias que essas pessoas deixam também.

Gosta mais de conduzir ou de ser conduzido?

Gosto mais de ser conduzido. Sou um bocado comodista.

Transgredir é bom?

Em situações que não ponham em risco os outros é bom atravessarmos os limites impostos pela rotina e pelas regras que devem ser contestadas.

Qual é o seu prato preferido?

Não sou grande garfo. Mas gosto de tudo que tenha bacalhau.

Qual é o pecado capital que pratica com mais frequência?

Não há pecados capitais.

A sua cor preferida?

É o azul, mas sem conotações clubísticas.

Costuma cantar no duche?

Não. Detesto ouvir-me. Não me encanta nada o som da minha voz.

E a música da sua vida?

Há muitas. Quase todo o Zeca Afonso, por exemplo.

Sugere alguma alteração ao hino nacional?

Aquela letra está muito desactualizada. Devia levar uma volta.

Parece-lhe bem a bandeira nacional?

Sim. As cores dão força ao simbolismo republicano.

Com que figura pública gostaria de jantar esta noite?

Entre os vivos, com Nelson Mandela, sem dúvida [Mandela faleceu em 2013]. Dos que já partiram, gostaria muito de ter conhecido Gandhi.

As aparências iludem?

Imenso. É o que mais se usa.

Na meteorologia também?

Também. Há muitos fenómenos que iludem o mais experimentado meteorologista.

O que é que um verdadeiro cavalheiro nunca deve fazer?

Mas ainda há cavalheiros?

Qual é a peça de vestuário que prefere?

As calças.

Qual é o seu maior sonho?

O sonho de uma outra sociedade, muito mais justa, muito mais humana. Mas já aprendi que não será para o meu tempo.

Mas o sonho permanece?

Sim, claro.

E o maior pesadelo?

Os pesadelos relacionam-se sobretudo com a morte, nomeadamente de pessoas que nos são queridas. São receios atávicos.

O que o irrita profundamente?

Irrita-me já não conseguir irritar-me com coisas que costumavam irritar-me. O tempo acaba por moderar estas coisas…

Qual a melhor forma de relaxar?

Relaxo muito vendo o Benfica e a selecção nacional a jogar futebol. O mar de Inverno também relaxa muito.

O que faria se fosse milionário?

Não quero ser milionário.

Casamentos gay: de acordo?

Sim.

Uma mulher bonita?

A Nicole Kidman. Não sei se é bonita por dentro, mas é bonita por fora e é uma grandíssima actriz.

Acredita no paraíso?

Gostava que existisse. Mas penso que não existe.

Tem um lema?

Faz bem o que sabes fazer.

 

Entrevista publicada no Diário de Notícias (29 de Maio de 2010)

10 comentários em “Costa Alves: «Não há pecados capitais»”

  1. Gostei, identifiquei-me com algumas respostas (por exemplo, aquela do chorar: ajuda a ‘escoar’ as mágoas…).
    Figura simpática, embora apenas o conheça de o ver na tv e também pela cidade.
    🍂🍁🍂
    Maria

  2. “Irrita-me já não conseguir irritar-me com coisas que costumavam irritar-me. O tempo acaba por moderar estas coisas…” comungo da mesma opinião, infelizmente e também sou fã incondicional do Memorial do Convento.
    Esteve bem .Gostei da entrevista tirando a parte de relaxar a ver o Benfica, que deve ser coisa improvável e muito difícil de conseguir. Next!

  3. Eu gostava de ver o Benfica desaparecer da face da terra — um mundo totalmente novo em que o Benfica (e a falsa “humildade” que dizem que é necessário ter para se ser do Benfica) não aparecesse de 10 em 10 minutos nas televisões e nos blogues. Isso é que era um upgrade do caraças. Isso e jantar com políticos famosos só porque são pretos.

    1. O V. tem que deixar de se irritar com as coisas que costumam irritá-lo, ou seja: Le Rouge et Le Noir (no plural, claro!).
      Um sábado bom.
      🍂🍁🍂
      Maria

      1. O que irrita não são as coisas em si, é a repetição das mesmas banalidades de esquerda — ao ponto de não terem sentido nenhum. Por que é que fazem isso? É um mistério para mim toda a gente querer jantar com um alguém muito “bonzinho” na mitologia da Unesco.

        Bom fim-de-semana, Maria!

    2. Bem pode agradecer ao Benfica!
      Abertura do mundo, ao espirito, de que assim, como a terra, a bola é redonda. E o culto da humildade do pé . Quero lembrar-lhe que o Mandela já morreu a uns aninhos.

      1. Ai pois a abertura ao mundo, obrigado! É muito importante ouvir, sei lá, as flautas dos Incas, o som da catana no lombo de um porco-espinho ou quiçá o esgar do vómito de um feiticeiro do Congo. Maravilha.

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