Convites a rejeitar.


Luís Menezes Leitão,

Quando Durão Barroso liderava a oposição em Portugal em condições difíceis entendi, juntamente com outras pessoas, manifestar-lhe apoio político. Nessa altura ele encontrava-se completamente cercado, com um António Guterres, que ia de vento em popa no governo, e com o PSD, como é tradicional, dilacerado por uma feroz oposição interna, capitaneada por Santana Lopes. Era, porém, visível que o país estava a caminhar para o desastre e que só uma vitória de Barroso, primeiro no PSD e depois no governo, poderia travar este caminho. E de facto assim aconteceu. Com a vitória do PSD nas autárquicas, Guterres abandonou o governo, reconhecendo a situação pantanosa em que tinha deixado cair o país, e foi possível constituir um governo que teve pela primeira vez como missão controlar o défice.

 

Durão Barroso decidiu, porém, abandonar esse governo na altura mais difícil, deixando o país entregue a Santana Lopes com os resultados que se conhecem. Essa atitude desiludiu-me imenso, pois entendo que não se pode abandonar desta forma o governo do nosso país quando ele mais precisava de nós. Mas apesar disso não deixei de considerar que, estando em causa assumir o cargo mais importante da União Europeia, tinha que se compreender que alguém não resistisse a assumir esse desafio. E, apesar de achar que o seu mandato não foi brilhante, uma vez que deixou reforçar a componente intergovernamental na União Europeia, a verdade é que conseguiu concluir dois mandatos na altura mais difícil que a União atravessou. Por isso, quando saiu da União Europeia podia assumir um estatuto de senador respeitado, leccionar numa Universidade e dar conferências pelo mundo inteiro.

 

Durão Barroso não resisitiu, porém, a ir para a Goldman Sachs, o que é absolutamente impensável face ao estatuto que detinha e que naturalmente lhe acarretará sempre um ataque feroz das instituições comunitárias, destruindo as boas relações com as mesmas. Durão Barroso deveria ter percebido que o seu passado já não lhe permite assumir certas funções. Faz lembrar Gorbatchev quando decidiu fazer um anúncio à Pizzahut depois de ter sido o líder da segunda potência mundial. O respeito dos governantes pelas suas antigas funções implica que certos convites devam ser rejeitados, por muito bem remunerados que sejam.

31 comentários em “Convites a rejeitar.”

  1. “Era, porém, visível que o país estava a caminhar para o desastre e que só uma vitória de Barroso, primeiro no PSD e depois no governo, poderia travar este caminho.”
    Grande frase que revela a dificuldade em aceitar o pluralismo. Se a esquerda está no governo, a direita não diz que o eleitorado escolheu outra via, diz que o país está a caminhar par o desastre porque escolheram a via errada.
    Vice-versa, se a direita está no governo, a esquerda não diz que o eleitorado escolheu outra via, diz que o país está a caminhar par o desastre porque escolheram a via errada.
    Cada um considera que a sua via é a única certa. E sente o dever de, de qualquer maneira, conduzir o país ao caminho certo. A pensar assim, será possível um entendimento pacífico?

  2. Bom dia. Concordo na generalidade com o que escreve. Quando refere – ……respeito dos governantes pelas suas antigas funções…… – isso tem implícito, creio, desde logo o respeito pelo próprio, mas verificando-se constantemente que os “próprios” não se respeitam, e menos ainda nutrem respeito pelos seus concidadãos, como aliás exemplifica com o abandono de funções de Barroso; mas muitos outros dão à sola. Só tratam da vidinha, desde que militaram em grupelhos ou conspiravam em esconsos!
    António Cabral

  3. Durão não é mais nem menos que um político do seu tempo.
    Tempo em que deus foi substituído pelo dinheiro e pela ganância.
    Todos os outros valores deixaram de ter qualquer valor.
    Desgraçadamente!
    João de Brito

    1. Deus substituído pelo dinheiro e pela ganância? Já foi ver os cofres do Vaticano?
      Aqueles que falam em nome de deus são muitas vezes dos mais gananciosos.

      1. O Vaticano?!
        O Vaticano foi o primeiro, no tempo e na vontade, a trocar deus pelo dinheiro.
        Não é por acaso que encabeça uma das religiões mais bem sucedidas da história… e na história.
        João de Brito

  4. Eu acho que toda essa malta, sem exceção, que na juventude militou em grupelhos da extrema-esquerda é muitíssimo pouco recomendável. Não há, em minha opinião, um único deles a quem eu comprasse um carro em segunda mão. Estou sempre de pé atrás com qualquer deles.

  5. Acredito que as revoluções estão para as transformações sociais da mesma forma que as conversões estão para os indivíduos.
    Vem isto a propósito para referir que só os inteligentes são orgulhosos; e que o contrário a isto, a inteligentes orgulhosos, são os vaidosos, que compõem maioritariamente as sociedades.

    Portanto, não estranhemos que os orgulhosos estejam sós e que os vaidosos constantemente edifiquem redis para pastarem em grupo e os grupos.
    O vigário das pessoas inteligentes, que são poucas, é a consciência; o vigário do grupo é a ideologia e muitas vezes, igualmente na proporção, as religiões. O cristianismo é o único meio que proporciona essa autonomia ao Homem, pois permite-lhe descobrir que “quem deita a mão ao arado e olha para trás não é digno da edificação do Reino”.

    Aqui chegado, verifico que a dita (r)evolução das sociedades tem uma única via: a manutenção da vaidade. Vaidade esta que se expressa nas mais variadas áreas da sociedade, e que até vai ao ponto de criar mais um novo redil dando-lhe o nome de quotas de uma suposta paridade.
    Concluindo:

    Vaidade

    Sonho que sou a Poetisa eleita,
    Aquela que diz tudo e tudo sabe,
    Que tem a inspiração pura e perfeita,
    Que reúne num verso a imensidade!

    Sonho que um verso meu tem claridade
    Para encher todo o mundo! E que deleita
    Mesmo aqueles que morrem de saudade!
    Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

    Sonho que sou Alguém cá neste mundo …
    Aquela de saber vasto e profundo,
    Aos pés de quem a Terra anda curvada!

    E quando mais no céu eu vou sonhando,
    E quando mais no alto ando voando,
    Acordo do meu sonho … E não sou nada! …

    Florbela Espanca, in “Livro de Mágoas”

    Vaidade, Tudo Vaidade

    Vaidade, meu amor, tudo vaidade!
    Ouve: quando eu, um dia, for alguém,
    Tuas amigas ter-te-ão amizade,
    (Se isso é amizade) mais do que, hoje, têm.

    Vaidade é o luxo, a gloria, a caridade,
    Tudo vaidade! E, se pensares bem,
    Verás, perdoa-me esta crueldade,
    Que é uma vaidade o amor de tua mãe…

    Vaidade! Um dia, foi-se-me a Fortuna
    E eu vi-me só no mar com minha escuna,
    E ninguém me valeu na tempestade!

    Hoje, já voltam com seu ar composto,
    Mas eu, vê lá! eu volto-lhes o rosto…
    E isto em mim não será uma vaidade?

    António Nobre

    1. “O cristianismo é o Único meio”

      Estudou o Alcorão, os Vedas, o Avesta, o Talmude, os Analectos, Tao Te Ching, Séneca, Epicteto, Epicuro, Zenão….como supostamente estudou a Bíblia?

      Único sempre me soou a vaidade.

      The Root of All Evil – The God Delusion

      https://youtu.be/8nAos1M-_Ts

      1. Lá vem você, Vlad, com a sua cantilena. Mostre lá aqui ao pessoal o que foi que esses mostraram de igual antes do cristianismo ( se é que alguns deles existiam antes do cristianismo).
        O problema dos ideólogos é caírem numa ostentação da bondade que até parece maldade.
        O fogo divino de Prometeu, co-criador da raça humana, ocorre com Jesus e em Jesus (esta afirmação é um desafio, para que se chegue à frente). Foi Cristo que abanou e abalou todos os deuses. E ainda se mantém.

          1. O meu não é o seu. Cada um deve aprender o seu caminho.

            Abraço e desculpe pelo outro dia.

          2. Eu continuo a enviar-lhe um abraço. O outro dia? Já passou.

            Mas eu não disse isso. O que eu disse foi que mostrasse os caminhos do Senhor. Quaisquer que sejam esses caminhos.

            Aproveito isto para dizer-lhe uma vez mais que os cumes das montanhas atingem-se por várias encostas. Todavia nesta escalada tem de haver uma coisa em comum para que o cume seja alcançado.
            Muitas vezes este cume não é alcançado pelo facto de também possuirmos uma atitude hedonista perante a nossa própria vida e perante a vida. O cristianismo revela-nos algo muito pouco descodificado nesta cultura ocidental; e talvez por isto se foque muito como mistério algo que é verdadeiramente transcendente, sobrenatural. Sobrenatural na medida em que supera o que é natural na atitude humana.

            Vem isto a propósito para dizer-lhe que o que Cristo nos revelou não foi a Vida como bem sagrado (“Quem quiser ganhar sua vida, perdê-la-á; e quem a perder, ganhá-la-á”). Portanto, o que é sagrado é o Amor. Por isto mesmo Ele propôs a troca: Sua vida pela redenção do Homem. E este amor é tão sagrado que faz com que o amante fique “ao relento” para que o amado repouse.

  6. “implica que certos convites devam ser rejeitados, por muito bem remunerados que sejam.” Uau, está a gozar ou quê? Remunerações, hoje não se rejeitam!!

    1. Como escreveu São Paulo na Carta a Timóteo (6, 9-10),: «Aqueles que querem enriquecer caem na tentação, e nos laços do demónio, e em muitas concupiscências loucas e nocivas, que submergem os homens na perdição e na ruína.
      Porque o amor ao dinheiro é a raiz de toda a espécie de males; e nessa cobiça alguns se desviaram da fé, e se trespassaram a si mesmos com muitas dores».

      1. Hmmmm….S. Paulo!

        “A mulher aprenda em silêncio, com toda a submissão. E não permito que a mulher ensine, nem exerça autoridade de homem; esteja, porém, em silêncio” Timóteo 2:11

        A proporção de CEO’s psicopatas é igual à da população prisional.

        http://visao.sapo.pt/actualidade/sociedade/2016-09-14-A-proporcao-de-CEOs-psicopatas-e-igual-a-da-populacao-prisional

        Ninguém reina inocentemente. A partir de determinada altura tem-se de decidir que parte abdicar….e os apartamentos, na Avenida Kleber não se comparam aos do cemitério dos prazeres.E afinal porque diabo de razão num cemitério poderão crer em prazeres?

        1. “Mas o Paráclito, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, ensinar-vos-á todas as coisas e vos recordará tudo o que vos tenho dito.” João 14, 26

          Talvez lhe faça falta para entender a Bíblia e seu contexto.

          Quanto aos psicopatas, já há muito tempo que existem estudos sobre a matéria. Escreve-se e levam-se estudos a efeito também sobre o “gene matador”. Mas nada de substancialmente conclusivo tem sido apresentado, pois tudo depende do meio e da circunstância.

          Mas isso veio a propósito de quê?

          1. Romano Prodi – Prime Minister of Italy (1996–1998, 2006–2008) and President of the European Commission (1999–2004).

            Trabalhou no Goldman Sachs.

  7. O exemplo de Santana Lopes não faz sentido. Parece até que o amigo Chaves com a sua traição foi exemplar.
    Ninguém em consciência acha que 6 meses de governo prove alguma coisa.
    Quantas demissões Costa tem no seu activo?

  8. A clarividência de LML sobre Durão Barroso é a mesma em relação ao problema da Catalunha. Ainda não percebeu que em ambos os casos é um problema de deslumbramento pacóvio.

          1. Mas surge o nome de um ex- presidente do Comissão, como Barroso

            Romano Prodi – Prime Minister of Italy (1996–1998, 2006–2008) and President of the European Commission (1999–2004

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