Convidado: VÍTOR CUNHA


Pedro Correia,

 

O país das mimosas púdicas

 

O termo “politicamente correcto” entrou com força no discurso comum e, consequentemente, no discurso político. Contudo, como acontece naturalmente com todos os termos cuja utilização se banaliza, o valor semântico manteve-se, por muito tempo, obscurecido. “Politicamente correcto” implica ortodoxia, não especial sensibilidade inclusiva como normalmente se pretende. Esta dissonância entre sintaxe e semântica leva a que a expressão comece a ser percepcionada como designação para discurso anódino, uma palha floreada para engordar sintaticamente conteúdo simples — e.g. “portuguesas e portugueses” para “portugueses” —, não como cortesia enfática para que cada ouvinte ou leitor se encontre no discurso, uma espécie de ‘encontre o Wally’ da oratória. “Politicamente correcto” é uma expressão que tem origem numa piada soviética popular nos anos 30 do século XX, que sublinha que o interesse do partido deve ser encarado como uma realidade acima da própria realidade1:

— Camarada, a tua afirmação é factualmente incorrecta.
— Sim, é. Mas é politicamente correcta.

 

A Mimosa pudica é uma planta da família das ervilhas que recolhe as folhas quando tocada ou na presença de calor. Este curioso fenómeno denomina-se por sismonastia e pode ser encontrado de forma mais exuberante na (proclamada) Direita portuguesa, que se recolhe não só com o toque mas também com o mais leve suspiro emanado da Esquerda. A proclamada Direita (doravante denominada simplesmente por “Direita” por abuso de linguagem) receia o calor, bastando o mais ténue bafo da Esquerda para que siga a ortodoxia discursiva, a do superior interesse da realidade do partido, a tal realidade mais real que a própria realidade. Quem pensa que Portugal não é um país extremamente politizado por simples observação de valores da abstenção em eleições está redondamente enganado: a politização dos indivíduos não se manifesta nas urnas e sim na facilidade com que estes adquirem o discurso formatado pelas universidades marxistas através da propagação mediática de terminologia emanada do socialismo científico e materialismo dialético.

A luta de classes é um conceito de venda difícil no século XXI. O capitalismo e o seu desenvolvimento tecnológico permitiu que operários — mantendo a terminologia marxista — se rendessem ao aburguesamento que um computador portátil e um smartphone com ligação à rede permitem. Adaptando-se à nova realidade, a realidade da posse de coisas2, tornou-se necessária a mutação de colectiva luta de classes para a esfera pessoal e individual, a dos comportamentos e costumes. Não é de surpreender que trotskyistas fossem os primeiros marxistas a adaptarem-se, motivando o sucesso do Bloco de Esquerda e similares noutros países europeus. Recentemente, dominando toda a agenda com terminologia de casta — e.g. “direitos dos homossexuais” em vez de “direitos humanos”; “combate ao preconceito” em vez de “classe oprimida” —, o ideário marxista recauchutado, inspirado nas tradições religiosas, adaptou o conceito de “pecado” em fobias múltiplas — e.g. homofobia, islamofobia, xenofobia — e o conceito de “virtude” na acção purificadora levada a cabo pelos múltiplos combates a discriminações por acção directa do governo, a elite informada para uma “sociedade mais justa”, eufemismo para o Homem Novo — e.g. “combater a homofobia”; “combater a xenofobia”.

Como todas as guerras inevitáveis, mais valia que começasse mais cedo do que mais tarde. Infelizmente, graças à sismonastia da Direita nacional, já foi içada a bandeira branca de rendição de forma preventiva, antes que alguém começasse a ter ideias. A consequência será mais uma década de destruição criativa até à silenciosa extinção dos resquícios de civilização ocidental em Portugal, a extinção que, quando finalizada, aparentará a tranquila sensação de que o país foi sempre assim desde o início dos tempos.

 

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1 “The Rise of Political Correctness”, Angelo M. Codevilla, Claremont Review of Books, 2016.
2“Communism doesn’t work because people like to own stuff”, Frank Zappa.

 

 

Vítor Cunha

(blogue BLASFÉMIAS)

9 comentários em “Convidado: VÍTOR CUNHA”

  1. Basicamente estamos na presença de um discurso muito recorrente em política.

    O autor domina a razão e nisso é secundado pela maioria das pessoas. Infelizmente existem uma série de razões que levam a que a maioria das pessoas não se manifeste dando razão aos autores:
    São intimidados pelos que não têm razão.
    São fracos de espírito e seguem os que não têm razão.
    São muito tímidos e seguem os que não têm razão (um ponto pela originalidade).

    Nunca ocorre ao autor que não é acompanhado pela maioria das pessoas simplesmente porque a maioria das pessoas não concorda com ele.

    Ele sabe o que o povo quer e que não demonstra por timidez. Perdesse ele a timidez e conduziria o povo na direção certa. É deste material que se fazem os caudilhos, os grandes educadores e os doutores de botas.

  2. Deixemo-nos de teorias.
    A nomenclatura e os processos vão mudando.
    Antes, explorava-se o povo em nome de deus.
    Depois, em nome de ideologias.
    Agora, em nome da competitividade.
    Mas a exploração das maiorias, cada vez maiores, por minorias, cada vez menores, continua e cada vez mais sofisticada e avassaladora.
    O resto é conversa cada vez mais gasta e sem sentido e, por isso, cada vez mais entediante.
    João de Brito

  3. Muito obrigado pela oportunidade, Pedro.

    Quanto à questão levantada de “pudico” vs. “púdico”, como admito desconhecer ser vivo que a pronuncie como “pudico” e como a senhora do seguinte link parece saber mais de Português que eu, optei pela versão do proletariado, até para não irritar o comentador que vê caudilhos a florescerem como eu vejo pêras no meu pomar este ano.

    1. Não me irrita, acho toda a polémica em torno do ortograficamente correto bastante estéril.
      E pode responder diretamente ao comentário.

      Quanto à luta de classes ter acabado com os smartphones acho que não lembrava ao careca, nem aos barbudos.
      Mais uma vitória para o Steve Jobs, ganhou a luta de classes.

      1. Eu não disse que a luta de classes terminou, disse que o discurso sobre a luta de classes foi substituído por outro. Há um motivo para a luta de classes não ter terminado que é nunca ter começado, até porque qualquer progressista que considera o pénis uma construção do heteropatriarcado ainda está à nora a tentar definir quem pertence às tais classes.

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