Em política não há decisões inevitáveis
O calendário marcava o ano de 1985 e Portugal entrava para a Comunidade Económica Europeia (CEE). Com a adesão de Espanha, dizia-se que não podíamos ficar de fora. Tínhamos que “entrar na Europa”, e quem defendesse o fortalecimento dos laços económico-culturais com os países lusófonos era tido como um conservador que se opunha ao progresso do país.
Com a adesão foi chegando muito dinheiro. Investiu-se na construção estimulando um mercado habitacional a partir do crédito bancário, no desenvolvimento infra-estrutural do país a partir de auto-estradas e no financiamento de grandes superfícies dedicadas ao consumo. A partir destas três áreas de negócio, que tantas vezes se cruzaram, constituíram-se as principais fortunas dos mais ricos de Portugal.
Como moeda de troca, os países que iam patrocinando este desenvolvimento foram exigindo medidas que os favorecessem a médio prazo. Desta forma foi sendo financiado o abate da nossa frota pesqueira ou as destrutivas plantações de eucalipto e fomos sendo coagidos a subscrever as sucessivas políticas agrícolas que nos prejudicavam.
A partir de 1999, com a entrada em vigor do Euro e das políticas de redução do défice, Portugal afundou-se em sucessivas crises. O aumento das importações de bens de primeira necessidade, o gorar das expectativas da equiparação do valor dos salários com outros países da Europa ao mesmo tempo que o valor dos bens de consumo iam disparando ou a impossibilidade de accionar medidas financeiras como a desvalorização da moeda para facilitar as exportações, fizeram com que Portugal ficasse economicamente dependente de terceiros e na situação que hoje bem conhecemos.
Todos os que, nos últimos anos, combateram estas opções políticas foram sendo ostracizados e ridicularizados pelo furor mediático que louva, ano após ano, o brilhantismo da nova paixão de Portas, a noção de progresso do não-político Cavaco ou a resiliência de Sócrates. O que é ainda mais extraordinário é que, depois de 35 anos de políticas que nos conduziram ao precipício histórico em que vivemos, chegamos a umas eleições em que os de sempre se preparam para dividir novamente o pote, construindo o seu discurso em torno de três afirmações que não precisam de demonstrar:
1. A rejeição do pedido de resgate levar-nos-ia a uma situação de bancarrota;
2. A renegociação da dívida implicaria o agravamento da crise;
3. A análise à dívida pública para que dela se purgue a dívida privada é uma ideia que não merece ser discutida.
Quanto mais tempo deixarmos que a acção política se resuma a uma gestão de inevitabilidades, mais estaremos a contribuir para que o país se afunde. Para se perceber o estado em que ficará o país com um futuro governo PS/PSD/CDS não é preciso ir muito longe. Basta olhar para o estado da Grécia ou da Irlanda, em que as políticas têm sido muito semelhantes. Não é difícil de prever que, com a tríade do costume, dentro de um ano, estaremos a renegociar a dívida e o resgate e serão anunciados mais cortes e impostos.
Portugal precisa de sobressaltar a Europa, tal como fez o Chipre – com excelentes resultados para o seu povo – e como tem feito a Islândia. Nas eleições que se aproximam, votar à esquerda é decidir por quem pode ameaçar e combater as tentativas de ingerência externa. Votar à esquerda é dar força ao combate contra a acção especulativa sobre a dívida soberana e ter a certeza que a dívida pública não será engordada por aventuras e prejuízos de privados. Votar à esquerda é ter a certeza que se está a contribuir para que os cidadãos sejam colocados no centro das decisões políticas fundamentais e que processos como o Tratado de Lisboa ou a moeda única serão, sempre, objecto de referendo. Votar à esquerda é rasgar uma luz no fundo do túnel de uma Europa de políticas medíocres feita por políticos-papagaios de interesses instalados.


Conciso e esclarecedor. 20 valores em 20 possíveis. Subscrevo esta síntese.
Apoiado.
Acho tragicamente fascinante ver pessoas que concordam sistematicamente com ideias veiculadas por pessoas de esquerda, e por partidos de esquerda, mas que depois se revelam incapazes de ser consequentes e votar em consonância. E à laia de desculpa resmungam qualquer coisa com “cuba” e “coreia do norte” lá pelo meio.
Eu, por exemplo, tenho quase a certeza de que não defendo os mesmos fins que a maioria dos bloguistas do 5 dias. Mas aprendi que para tornar realidade o “razoável” e o “decente”, é preciso trazer o “impensável” para o debate público. Não defendo os mesmos fins, mas sei que o que defendo fica a meio caminho. Sem a força do radicalismo não se consegue puxar as ideias na direcção certa. A direita sabe-o bem.
Obrigado pela visita, Tiago. Foi um contributo estimulante para uma questão que promete ser inesgotável. E estás cheio de razão no título que escolheste: ‘Em política não há decisões inevitáveis’.
Nada mais certo.
Um abraço.
Obrigado pelo convite, Pedro.
Hilariante, falso, mentiroso e contraditório
E sem vergonha.
Hilariante ver quem quer desvalorizar a moeda para tornar os Portugueses mais pobres e diz isto como se fosse além de algo normal e algo legítimo. E depois tem a lata de falar de “especulação”.
“Interesses instalados”, heheh não há mais interesses instalados que o Estado Socialista . Podemos começar pelo Ministério da Educação e o da Cultura, Saúde, depois ir à Energia, Agricultura etc.
Porque é que há aumentos de Funcionários Públicos quando o Estado tem Défice?
Logo o PCP e a o Bloco são os maiores amigos da Goldman Sachs…
O conluio entre a Esquerda e os Capitalistas é total.
basta olhar para os jornais como o Publico, o Expresso etc.
Não admira que a Esquerda unida aos Capitalistas tenham estado sempre de acordo em aumentar as despesas do Estado. Sempre.
Ajuda aos dois.
Desta manipulação económica, resulta numa Economia em que os preços que são na maioria falsos. Da Educação à Saúde passando pelos Transportes à Energia os preços são todos falsos. Ninguém sabe quanto custa algo.
As consequências são a ruína tal como aconteceu na União Soviética. Preços manipulados dá sempre esse resultado.
À Esquerda só mais Dívida e só mais Défice.
À Direita também, só com menos exuberância.
Pois quer a Esquerda quer a Direita são Socialistas.
O Estado está em todo o lado. A pedido da Esquerda e da Direita.