Convidado: RICARDO VICENTE


Pedro Correia,

 

 

Dos debates e do défice democrático

 

A maior parte dos debates  – Prós e Contras, tête-à-têtes legislativos, presidenciais e outros – não servem nem para esclarecer nem para convencer e não mudam a opinião a ninguém. Em política, quase toda a gente já nasceu ensinada – e raramente se vê alguém mudar de ideias e admitir tal mudança. Todas as epifanias são privadas e a modéstia pública é rara.

Quando muito, os debates prestam-se ao delimitar de identidades de grupo, seja os de esquerda e os de direita, seja progressistas e conservadores ou qualquer outra distinção binária. E servem sobretudo para radicalizar essas identidades, para defini-las pelo paroxismo.

Enquanto os debates vão decorrendo no espaço público e entre os extremos dos que são pelo sim em todos os referendos (históricos, possíveis e imaginados) e os que defendem o não em todos os mesmos – está o grande centro, isto é, a maioria das pessoas, “sociologicamente” à esquerda nos assuntos da economia, do Estado e dos empregos, moralmente desinteressada nas chamadas questões fracturantes.

Estas questões em particular favorecem a popularização de partidos políticos extremistas e dão o ensejo a que as direitas desenvolvam uma sua versão praticável de “luta” (que é tradicionalmente um conceito e uma prática da esquerda).

Para o maior número das pessoas, que se abstém, se desinteressa e livremente se silencia, nenhum debate, nenhum referendo, nenhum prós e contras, nenhuma grande causa ou fractura verdadeiramente importa. Pelo menos, não aquelas que lhes são habitualmente apresentadas…

Significa isto que as gentes desmerecem a democracia ou que ainda não estão bem preparadas ou que necessitam perpetuamente de uma vanguarda iluminada e libertadora? Não: a abstenção e o desinteresse popular significam apenas que os políticos, opinadores e outros etceteras andam a mais das vezes dedicados ao que do ponto de vista da democracia – o poder do povo – menos interessa.

Perguntem às pessoas por desemprego, impostos e custo de vida: o desinteresse e o alheamento evaporam-se imediatamente. Os que decidem as agendas e as hierarquias dos debates optam amiúde por assuntos minoritários ou de pouco relevo para o quotidiano da maioria. E esta, não bastando já ter os seus problemas e as suas prioridades, acaba ainda por ser apelidada de pouco moderna e civilizada ou é mesmo acusada de fraca sofisticação mental – tudo porque se desinteressa dos temas preferidos pelas elites do pensamento.

Não é justo que da desarmonia de interesses entre representantes e opinadores, por um lado, e as pessoas em geral, por outro, resultem aquelas acusações.

 

Ricardo Vicente

6 comentários em “Convidado: RICARDO VICENTE”

  1. Gosto!
    Ricardo excelente.

    O discurso em Portugal está contaminado.
    Interrompe-se: um sinal de sapiência medíocre, um sinal de adivinhação do outro.
    Pessoaliza-se: à falta de matéria, o argumento ad personam.
    Desvia-se do essencial: idem item anterior.

  2. Viva, Ricardo. Excelente texto. Fica-me a ideia, e hei-de escrever um dia destes sobre o tema, que vivemos num país partido. Uma das linhas de fractura está, como dizes, no discurso e prioridades dos políticos vs. necessidades dos governados.

  3. Só por si, reconhecer a distância entre «representantes e opinadores, por um lado, e as pessoas em geral, por outro» já é desassombrada e importante. Parabéns, Ricardo.

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