O clamor
Há uns anos, ao balcão de um conhecido restaurante lisboeta, debatia com o empregado a essência da democracia. Ele saudava – com saudade e em saudação… – Oliveira Salazar, e afirmava que os melhores anos da sua vida tinham sido passados sob a ditadura.
Eu tentava explicar-lhe as vantagens da democracia: o direito de voto, a liberdade de expressão, a fiscalização permanente do poder.
Em vão. À liberdade de expressão, respondeu-me: “de que me serve poder gritar se não tiver o que comer e por isso nem força terei para gritar?”. Ao direito de voto, disparou: “de que me serve votar, se ganham sempre os mesmos desde 1974? Ao menos com o Salazar não havia ilusões de mudança”. E à fiscalização do poder, foi claro na resposta: “quando alguém percebe o erro que eles cometeram ou os abusos praticados, já eles estão longe a administrar empresas privadas ou mesmo públicas…”.
Na simplicidade da argumentação, aquele homem calou-me. Era impossível dar-lhe razão, mas era ainda mais difícil rebater a argumentação.
Tenho-me lembrado dele nestes dias de crise. Nestes dias em que de nada serve a liberdade de gritarmos contra o sistema, de pouco serviu a presumível fiscalização do poder que nos cabe, nestes dias em que está à vista o que do nosso voto foi feito.
No caldo que está criado para desacreditar o sistema, abrem-se as bolhas da intolerância que resultam nos raciocínios simples, lineares, difíceis de rebater. Quando a democracia não responde por si, naturalmente, a quem dela duvida, quem por ela pode responder que não seja ditadura? Foi aqui que chegámos. É aqui que estamos. De uma vez por todas, alguém que nos grite o essencial: que este é o pior dos regimes, com a excepção de todos os outros. É por isso que clamam os democratas. É por isso que clamo e reclamo. Mas também é isso que, como o empregado salazarista do restaurante que frequento, começo a precisar que me provem. Já não chega acreditar.


«No caldo que está criado para desacreditar o sistema (…)», este texto é de uma lucidez transparente. Ainda por cima, sou muito sensível à palavra «desacreditar», porque já perdi a pachorra para ouvir a toda a hora a palavra “descredibilizar”. Parabéns ao Pedro.
Excelente. Há “salazaristas” em todo o lado e, curiosamente, os mais pobres.
Olá, Pedro, bem-vindo ao Delito! Com um texto cheio de verdades demolidoras num beco sem saída, mas não há outras melhores nos tempos que correm. Ainda assim, apetece-me dizer como o Álvaro de Campos:”Merda, sou lúcido!”
Murros no estômago!
“Não alcançamos a liberdade buscando a liberdade, mas sim a verdade. A liberdade não é um fim, mas uma consequência.” (Lev Tolstói)
Como eu os compreendo. Ao empregado do restaurante e ao Pedro.
Talvez um dia inventem uma vacina. Ou, quem sabe, lavem a fronha à democracia, o que já dispensaria a vacina.
Completamente encurralados: essa é que é essa! Nós pobres democratas e ela, a democracia!
Nem o voto! Podemos votar? Já não servia de nada, como referia e bem o seu “desafiador”, mas até já isso desaparece: diz que o poder está naquela coisa dos mercados. Ora essa coisa não vai a votos e acha mesmo que isso de votos cria instabilidade, que é assim como que fazer-lhe cócegas. Querem é governos de salvação nacional e a amplas coligações, coisas de fazer de conta! E que garantam a sua estabilidade!
Acreditar até à miséria final…
Parabéns, Pedro, pelo belo texto.
Gosto muito de te ver por cá, Pedro. Esta tua reflexão vem ao encontro de muitas das minhas próprias preocupações. Nunca devemos dar por garantida nenhuma ‘conquista’, tanto no plano político como no plano social.
Abraço.
Pedro,
Infelizmente os poderosos têm uma paciência danada para esperar a hora adequada para nos dar a estocada final. E nós a vê-los passar sem poder contrariá-los.
O povo não é estúpido está é dividido… em classes.
Abraços
Tenho a felicitá-lo como preencheu a minha sensibilidade. Pedro infelizmente somos uma cambada de burros e nunca mais aprendemos, melhor aqueles que possam saber, tenham determinação e força são desde logo amordaçados e menosprezados, e um país que queira progredir nunca o conseguirá! Mas deixo-o este enxerto de 1867:“ … ORDINÁRIAMENTE todos os ministros são inteligentes, escrevem bem, discursam com cortesia e pura dicção, vão a faustosas inaugurações e são excelentes convivas. Porém, são nulos a resolver crises. Não têm a austeridade, nem a concepção, nem o instinto político, nem a experiência que faz o ESTADISTA. É assim que há muito tempo em Portugal são regidos os destinos políticos. Política de acaso, política de compadrio, política de expediente. País governado ao acaso, governado por vaidades e por interesses, por especulação e corrupção, por privilégio e influência de camarilha, será possível conservar a sua independência? …”