Convidado: PEDRO OLIVEIRA


Pedro Correia,

 

Sem balizas não se marcam golos

  

 

– Bom dia.

– Queria levantar cem euros.

– Tem preferência nas notas?

– Tanto faz.

– Aqui estão, duas de cinquenta.

– Ai, o que é que eu faço com dinheiro tão grande? 

– Então dê cá as de cinquenta. Quer como?

– Mais miúdo.

– Estão aqui, dez notas de dez euros.

– Está a brincar? Não quero levar essa miudagem toda.

– Então quantas é que quer trocar em maiores?

– Veja o senhor.

– Troco-lhe estas seis por três de vinte, leva sessenta em vinte e quarenta em dez.

– Troque-me esta de vinte por quatro de cinco.

 

Há uma frase do meu escritor francês (nascido na Argélia) preferido que diz isto: “le peu de morale que je sais, je l’ ai appris sur les terrains de football”.

Quantas situações da nossa vida se complicam pela falta de balizas, pelo enredamento em que nos vemos envolvidos, pela falta de objectividade.

 

Voltando ao diálogo que inicia este texto e que exaspera qualquer um (até eu fiquei cansado ao escrevê-lo), as coisas poder-se-iam ter resolvido de forma simples se a pessoa que foi efectuar o levantamento tivesse dito: “Quero cem euros em duas notas de vinte, duas de dez e quatro de cinco.”

É claro que isso seria simples de mais. A nossa tendência natural é para complicar, burocratizar. Tornar difícil, o fácil e tornar complexo, o simples.

 

Falei há pouco em Camus mas é óbvio que o escritor não conheceu o futebol português, não assistiu, diariamente, aos doze programas televisivos, não ouviu os quarenta e seis debates radiofónicos nem leu os três jornais futebolísticos. Lá está, conseguimos tornar insuportável um jogo que na sua essência é composto por onze atletas de cada equipa a correrem atrás de uma bola para a introduzirem dentro de uma baliza.

A conclusão a que queria chegar é que a vida pode ser tão simples como um jogo de futebol, mas preferimos emaranhar em vez de rematar.

 

 

Pedro Oliveira

(blogue ENCRUZILHAMENTO)

9 comentários em “Convidado: PEDRO OLIVEIRA”

  1. Ao que parece temos um guarda-redes especialista em descartar balizas.
    Raríssimo Presidente que apenas teve parco conhecimento e embrulhou.
    Para que serviria o especifico se Sua Excelência não comenta casos concretos?
    Quando será que o efeito dominó vai fazer derrubar o buda?
    Que tire o dedo que o segura ou ainda torce a mão.
    Defender com a cuca não é tão simples e acaba por fazer mossa.

    1. Caro Rão Arques,

      Não é bem um guarda-redes especialista em descartar balizas, chamar-lhe-ia antes um James Dean com penteado à Marco Paulo e bandolete vermelha, o rebelde que não faz o que a sociedade lhe impõe mas que se guia pelas próprias regras; “se eu quiser agarrar a bola a bola e entrar com ela para dentro da baliza, faço-o” e fê-lo.
      Quanto à justificação que o presidente da república deu sobre o caso Raríssimas, acredito que a política não se faz em directo nas televisões, há assuntos que devem ser tratados de forma discreta.
      O buda assemelha-se mais a um “sempre em pé”, inclina-se para a esquerda, inclina-se para a direita, parece que vai cair para trás, parece que vai cair para a frente mas equilibra-se sempre, fica sempre seguro, mais seguro que o próprio Seguro.
      Quanto à última frase não atingi, provavelmente, porque estou “lelé da cuca”.
      Abraço e obrigado pelo pertinente comentário.

      1. Se bem me lembro, um dia Marcelo terá dito, creio que referindo-se a Balsemão que estava lelé da cuca, pelo que me ocorreu passar-lhe igual receita. Obrigado pela atenção.

    1. Caro José Manuel Faria,
      A intenção não foi escrever um texto, sobre futebol, só sobre futebol.
      Golos feitos todos falhamos (eu já falhei alguns, confesso).
      Abraço e obrigado pelo comentário

  2. Caro Pedro Correia,
    Muito obrigado por este convite que muito me honra, fiquei, especialmente, agradado, com a cor da passadeira (estou a brincar, escolhi este emogi, pelas cores que são, também, as do Delito).
    Como sabes, como todos os leitores sabem, não é fácil escrever, sem tema, sem dimensão e sem prazo. Mal comparado é como a pessoa das notas não queria de cinquenta, não queria de dez mas nunca disse, especificamente, o que queria.
    Sem balizas não se marcam golos, não tem a ver com o futebol, tem a ver com a vida.
    Sinto-me lisonjeado pela oportunidade de partilhar este espaço com todos os autores (actuais e passados) e especialmente com os leitores, são eles a principal razão de espaços como este existirem.
    Grande abraço, Pedro
    (e “ganda Doumbia, três e se o golo à Pizzi contasse eram quatro [até agora])

  3. Sr. Pedro Oliveira gostei do texto mas tenho a apontar-lhe, ao texto, não a si que não o conheço, uma pequena correção.
    Diz que #quero 100 euros em 2 de 20+ 2 de 10+4 de 5# isso dá 80 não dá 100. Apesar de não saber fazer contas, o senhor, eu sei, gostei da originalidade e do encadeamento temático.

    1. Caro Aurélio Buarcos,

      “- Troco-lhe estas seis por três de vinte, leva sessenta em vinte e quarenta em dez.
      – Troque-me esta de vinte por quatro de cinco.”

      Aqui estava certo.
      Há quem prefira focar-se naquilo que está, aparentemente, mal.
      Foi propositado.
      Tive um professor de História no secundário que nos ensinou a estarmos sempre muitos atento aos enunciados dos testes pois continham sempre aquilo a que ele chamava “rasteiras” era uma forma de lermos tudo com atenção, dizia ele.
      Um teste desse professor podia ter esta pergunta:
      Em que ano Diogo Cão descobriu o caminho marítimo para a Índia e qual a importância dessa descoberta para Portugal?
      Utilizei a “rasteira”, também, neste texto que escrevi para o DdO é um recurso como outro qualquer e fiquei agradado que tivesse reparado nessa subtileza que poderia passar despercebida.
      Agradecido pelas palavras amáveis que me dirige no final do comentário.

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