Convidado: PEDRO ADÃO E SILVA


Pedro Correia,

 

A pobreza da opinião

 

Sou um consumidor compulsivo de informação e, como sempre me acontece quando passo grandes temporadas fora de Portugal, não demora muito tempo até passar a seguir dois ciclos noticiosos com a mesma atenção. Mas, tendo vivido em Inglaterra e em Itália, nunca como agora que estou nos EUA senti tanta diferença entre o que leio cá e o que leio de Portugal. Como é natural, as diferenças são evidentes nos artigos sobre política internacional ou até no menor número de notícias tratadas nos noticiários televisivos (mas, também, cada uma delas mais aprofundadas). Mas onde encontro maiores diferenças é na opinião.

A análise pode ser enviesada porque, no essencial, leio dois jornais todos os dias, o Washington Post e o New York Times e, com menor atenção, vou lendo coisas através do realclearpolitics e do realclearworld. Acontece que não passa um dia sem que aprenda alguma coisa com a opinião que leio aqui; já com a que leio em Portugal, fico apenas a saber a opinião (aliás, previsível) do autor. Contra mim falo, pois sou beneficiário activo do sistema protegido que impera entre nós. Em Portugal, as colunas de opinião ou assentam na ideia estrambólica de que quem escreve opinião tem de ter rasgo literário (o que explica a sobrevivência de colunistas onde o brilhantismo estilístico serve para esconder a preguiça intelectual) ou limitam-se a um conjunto de afirmações que dispensam sustentação ou, pior ainda, dependem de um par de trocadilhos combinados com uma ou duas frases de belo efeito, preferivelmente no registo engraçadinho que tem feito escola. Quando a opinião deveria partir da defesa de um argumento com base em factos, ideias ou conhecimento disponível (por exemplo académico), o que nos é oferecido em Portugal é, frequentemente, um exercício preguiçoso baseado na fulanização, em processos de intenção e na desvalorização da capacidade de raciocínio.

 

 

Da esquerda à direita, nos EUA é possível ler todos os dias artigos que preenchem todos estes requisitos. Por exemplo, David Brooks, mais à direita, no NY Times, faz um trabalho notável de sistematização de conhecimento científico nas ciências sociais, mostrando a sua relevância para o debate da actualidade (não seria possível alguém fazer o mesmo em Portugal?). Nicholas D. Kristof ou Thomas Friedman, ambos no NY Times, que normalmente estão literalmente no epicentro geográfico dos acontecimentos, mostram as vantagens de opinar sobre o que se conhece de facto (bem sei, uma impossibilidade nos media portugueses, onde os recursos são escassos e todos os dias cresce a importância do jornalismo de secretária, baseado em dois ou três telefonemas para politólogos, feitos por jornalistas com salários abaixo dos mil euros). Anne Applebaum, David Ignatius ou Dana Milibank no Washington Post têm sempre ângulos analíticos informados, que depois tendem a desenvolver em livros de maior fôlego. Já para não falar da New York Review of Books que, no seu cosmopolitismo, sofisticação intelectual e argumentativa, é, como com justiça escreveu Tony Judt, um dos três principais activos norte-americanos (os outros são o Thomas Jefferson e o Chuck Berry). Estes são apenas alguns exemplos, mas há naturalmente muito mais. Pode parecer uma constatação algo ingénua, mas para quem se alimenta da curiosidade intelectual há uma diferença entre aprender com a opinião, principalmente com aquela de que se discorda, como me acontece aqui nos EUA, e todos os dias, quando leio na net os jornais portugueses, ficar entristecido com a pobreza intelectual do debate no espaço público em Portugal. 

Há, é evidente, boas explicações para as diferenças. A primeira é cultural: pura e simplesmente o espaço público em Portugal não beneficiou da influência anglo-saxónica e da cultura analítica que lhe está associada. Há também um problema de escala (somos demasiado pequenos) que se traduz em limitações materiais: não há recursos para investir na profissionalização do jornalismo, quanto mais da opinião. Contudo, não estamos perante desculpas suficientes.

Hoje, por exemplo, fico com a impressão que se um alienígena visitasse Portugal não deixaria de ficar surpreendido com a centralidade que Sócrates ocupa na opinião. E, quando digo centralidade de Sócrates, não falo das suas políticas, dos seus erros ou falhanços, mas dele próprio. É, por exemplo, uma tarefa hercúlea encontrar uma análise baseada em critérios racionais sobre a política portuguesa que inclua o primeiro-ministro. O que nos é oferecido é fulanização da opinião, apenas mais um sintoma da pobreza do debate. Dir-me-ão: Sócrates é responsável por o clima actual, no qual ele se tornou o centro de tudo. Peço desculpa, mas atribuir as responsabilidades deste contexto a Sócrates talvez seja conceder-lhe uma importância que um primeiro-ministro não pode ter, ao mesmo tempo que se desvaloriza dinâmicas bem mais estruturais que a alegada centralidade de Sócrates procurar esconder. Na verdade, há dias em que temo pelo futuro profissional daqueles que hoje vivem obcecados com Sócrates, mas, pensando bem, têm o futuro assegurado. Quando Sócrates deixar de estar no centro do mundo político português, passarão a dedicar igual atenção a outro protagonista. Quanto a quem é leitor, pode ficar com uma certeza, a pobreza do debate reproduzir-se-á.

 

Pedro Adão e Silva

13 comentários em “Convidado: PEDRO ADÃO E SILVA”

  1. A opinião pública, tal como o nome indica, revela o país que somos, é o mero reflexo da sociedade que a produz.
    Se esta pobreza de opinião existe (e creio que ninguém dúvida disso) só mostra o nosso fraco desenvolvimento nas suas várias vertentes, sejam elas sociais, culturais, políticas ou económicas. Em Portugal a discussão pública é polarizada, ou és comigo ou contra mim, ou se ama ou se odeia, não há zonas cinzentas onde surja uma discussão imparcial e enquanto não houver um esforço, de todos, em inverter esta situação podemos ter a certeza que o nível continuará a baixar, para prejuízo de toda a nação.

  2. eu recordo-me perfeitamente da ultimas eleições legislativas e das afirmações de apoio explicito a Socrates…e se você lê essa estrangeirada toda e produziu as afirmações que produziu na altura…então…

  3. Em grande medida, Pacheco Pereira explica por que razão Sócrates é hoje em dia quase incontornável: http://abrupto.blogspot.com/2011/05/o-demonio-que-nos-conhecemos-vindo-do.html (em especial, quinto e sexto parágrafos). Também deve considerar-se que qualquer análise (ou proposta) racional, quando exposta a apreciação por parte de Sócrates ou dos seus correlegionários, é imediatamente ridicularizada, pelo que o debate volta inevitavelmente a Sócrates. Embora aceite que tendemos a ligar demasiado às pessoas e pouco às políticas, não estou certo de que, sem Sócrates, a fulanização seja inevitável. Não houve este nível de debate quanto Guterres e Durão foram Primeiros-Ministros. Pessoas com estilos autoritários geram naturalmente mais respostas chamando precisamente a atenção para esse estilo.

  4. Mas se é assim que somos, porque haveríamos de fazer opinião à americana ou à inglesa? Os estrangeirados sempre olharam lá para fora como se o nosso problema estivesse no facto de não sermos como os outros. Portanto toca a copiar, a imitar, a adaptar e dar cabo da língua com acordos–em vez de nos concentrarmos nos nossos próprios valores e em desenvolvê-los pelo intelecto. Inclusivamente, quem sabe se não é possível fazer evoluir a opinião à Portuguesa para patamares que sejam cobiçados pelos States?

  5. Meu caro Pedro:
    Agradeço este teu texto, tão estimulante, que foca uma questão infelizmente pouco abordada entre nós (o que não sucede por acaso). Muitas vezes me tenho interrogado também sobre o modo como colunistas sem qualidade se vão perpetuando anos a fio – décadas a fio – na imprensa portuguesa, como se não estivessem sujeitos ao escrutínio críticos de leitores e responsáveis editoriais. Espanta-me sobretudo, e para usar uma expressão tua, a sobrevivência de colunistas cujo brilhantismo estilístico serve apenas para «esconder a preguiça intelectual».
    Este foi um dos textos que mais gostei de editar nesta série, já com vida longa no DELITO: foi há 11 meses que começámos.
    Um abraço.

  6. É um santo, o PM. Coitadinho. Nem é a central de comunicação do PS que infesta a comunicação social através da Lusa e de outros lacaios disseminados um pouco por toda a parte responsável pela fulanização da opinião política em Portugal. Até você, num artigo que parecia começar bem (e apesar do bom influxo dos hambúrgueres) acaba por centrar toda a sua argumentação no mesmo objecto: Sócrates. E a tentar desculpá-lo. Era este o verdadeiro objectivo do post, não era?

  7. “Quando Sócrates deixar de estar no centro do mundo político português, passarão a dedicar igual atenção a outro protagonista.” – escreve o Pedro Adão e Silva e eu acrescentaria, quando Sócrates deixar de estar no centro do mindo politico português muito jornalista, analista e comentador ficará como estando numa prancha de surf sem ondas (usando o desporto que tanto gosta) ou como diz o tuga como ‘peixe fora de água’.

    1. Quando Sócrates deixar de estar no centro, virá outro que será atacado da mesma forma.
      É assim que muitos dos jornalistas e comentadores se sentem verdadeiramente independentes. Não o sendo, obviamente…
      (era interessante que o Henrique Raposo lesse este post e reflectisse, mesmo que não dissesse a ninguém que se revê nele)

  8. Ia eu todo contente por aí abaixo a ler este belo texto e a pensar para comigo “Vou dar os parabéns ao autor por ter conseguido escrever tanto sem falar do seu amigo Sócrates”… quando pumba! veio o Sócrates à baila. Ora bolas!

  9. “(…) Na verdade, há dias em que temo pelo futuro profissional daqueles que hoje vivem obcecados com Sócrates (…)”

    Não só pelo futuro desses deve temer, caro articulista. E talvez nem principalmente.

    Igualmente – e muito – pelo daqueles que hoje vivem obcecados com aqueles que hoje vivem obcecados com Sócrates.

    Assim, sim, está completo o quadro!

  10. Caro Pedro Adão, o facto de Sócrates ocupar o centro do debate por ele mesmo e não pelas medidas, pelos efeitos políticos e pelo pensamento deve-se à mesma ordem de razões por que um doente grave tende a falar do seu tumor obsessivamente enquanto o não extirpa.

    Não somos saxónicos, mas esta é uma lei da vida, uma lei natural resumível neste axioma: Portugal está infecto de Sócrates. Respiraremos melhor no pós-socratismo, com a graça de Deus.

    PS.: não tenho apreciado as análises do meu caro Pedro Adão seja na SICN seja onde for. E o Pedro Adão perceberá porquê: demasiada sinuosidade que respalda a Situação, coisa que se encontra nos Luís Delgado e noutros da praça. Com análises habilidosas não vamos lá.

    Abraço
    Sempre a considerá-lo!

    Joaquim Carlos da Rocha Santos

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