Uma alternativa: revolução
Existem vários factores para trocarmos um veículo de combustão interna por outro de propulsão humana. Estes factores são bem conhecidos. Podem ser qualificados tanto pelos benefícios ambientais, sociais, económicos como humanos. A desvantagem é que sempre se fala deles de uma forma isolada, minimizando assim a verdadeira magnitude do problema.
A primeira coisa que vem à mente é a emissão de gases de efeito estufa e as suas nefastas consequências já conhecidas: as alterações climáticas, a chuva ácida, o ar poluído. O impacto ambiental dos veículos de propulsão humana é inofensivo comparado ao veículo de combustão interna.
Os veículos a motor são um “bem” de consumo que, por sua vez, exigem outro tipo de recursos, principalmente energéticos e de infra-estruturas urbanas, mas também muitos outros de forma secundária. Numa época de obsessão e de alta competitividade, a sociedade impulsiona as pessoas a ganhar mais para consumir mais. Os veículos a motor satisfazem essa necessidade mas a um preço muito alto: Os preços dos combustíveis estão a ficar proibitivos e sucedem-se os acidentes com perdas humanas e materiais, bem como o caos no tráfego. O carro faz parte de um estilo de vida consumista e afecta de uma forma irresponsável os recursos naturais do planeta.
Perspectiva-se uma crise energética, que se não merecer adequada atenção da nossa parte as consequências serão agravar a crise social e económica. Os veículos de combustão interna não são social ou economicamente viáveis, e num curto espaço de tempo tornam-se obsoletos. Promovem um estilo de vida sedentário, a poluição sonora que emitem aumenta o stress enquanto a bicicleta oferece um ritmo de vida mais humano.
A bicicleta é um veículo economicamente sustentável, socialmente justo e benévolo.
Para mim um ritmo de vida mais humano significa controlar o tempo, respirar tranquilamente e, assim, desfrutar de corpo e mente mais saudável, atento para o momento. Quando eu vou na bicicleta tenho de dominar o corpo, cobrir-me de paciência e manter a cadência. É uma válvula de escape, dá origem à reflexão e, portanto, ao desenvolvimento da consciência individual, enquanto o carro leva à obsessão, ao sentido de urgência e à falta de consciência individual. A bicicleta faz parte de um estilo de vida mais simples, económica, saudável e de lazer, em suma, é mais humana.
A minha experiência de mudança foi sendo gradual. Dei-me conta de tudo isso e decidi finalmente pôr de lado o carro e contribuir de forma mais positiva para a sociedade (o pagamento de impostos não é a única maneira de contribuir). Deixei o carro e no dia-a-dia uso a bicicleta na cidade. Tento rodar em artérias de baixo tráfego, bem alerta e com uma velocidade moderada, aprendendo a lidar com a ignorância, o abuso e a burrice de alguns condutores. A bicicleta leva-me menos tempo para percorrer algumas distâncias urbanas, com a vantagem de poder passar e parar em locais que noutro meio de transporte não o poderia fazer.
Reconheço que não será fácil. A força de vontade será sempre a primeira motivação. A seguir basta adquirir uma bicicleta do tamanho e finalidade adequadas. Ir gradualmente adquirindo experiência e condição física. Aprender com outros ciclistas urbanos e compartilhar as suas próprias experiências. Junte-se a necessidade de um transporte digno e eficiente público. As composições do comboio e do metro oferecem espaço complementar para transportar as bicicletas. Desenvolver a consciência individual e social. Volto a dizer, a mudança não será fácil, porém, se você fizer isso antes de a necessidade de deixar o carro em casa o “forçar”, então a transição poderá ser mais espontânea.
Concluindo, o uso do automóvel é ecologicamente irresponsável, socialmente injusto, e economicamente cada vez mais insustentável.



Dois comentários:
(1) A “reflexão” e a “consciência individual” são muito melhor desenvolvidas andando a pé do que de bicicleta. Andar de bicicleta exige, frequentemente, um esforço físico, para além de uma atenção ao tráfego, que dificilmente são compatíveis com a reflexão e a consciência individual. Para esses efeitos, andar a pé é muito melhor.
(2) Eu gostaria de andar de bibicleta pela cidade, mas tenho dois importantes óbices, que certamente Paulofski não terá, mas que muita boa gente tem: tenho filhos pequenos que não é possível transportar (para a escola, etc) numa bicicleta, e não tenho local em minha casa onde armazenar em segurança uma bicicleta.
(1) adoro andar a pé… mas a bicicleta é sem dúvida minha opção de mobilidade na cidade… compras etc.
(2) também tenho dois filhos e entendo a sua dificuldade. se der para dividir as tarefas com a sua mulher melhor…
http://www.flickr.com/photos/16nine/5522 710272/
Existem bicicletas onde é possivel transportar crianças! Embora as ruas ainda não estejam preparadas! Mas temos que lutar por melhores condições… se em países com mais dinheiro a bicicleta é a 1ª opção! Porquê em portugal o carro é o privilegiado!!! Está na hora da mudança e de uma pedalada por um ambiente mais verde!
“Existem bicicletas onde é possivel transportar crianças!” – É verdade, sim senhor! Vivo há dezoito anos na Alemanha e a bicicleta é um meio de transporte muito utilizado. Existem cadeirinhas próprias para transportar crianças pequenas e atrelados para transportar crianças maiores, ou duas. Mesmo quando está frio (temperaturas abaixo de zero) ou chuva (os atrelados têm uma protecção em plástico), há pais/mães que transportam os seus filhos de bicicleta!!!
Dou os Parabéns ao Paulofski, que trouxe para aqui este tema. Iria sentir-se bem na Alemanha, onde há faixas de bicicleta em quase todas as ruas citadinas 🙂 No “campo”, nem se fala…
Ah, é verdade: as crianças maiores vão sozinhas de bicicleta para a escola. Mesmo quando está frio (temperaturas negativas), mesmo quando está chuva. Não me consta que estarão mais vezes doentes do que as portuguesas 😉
E é verdade que, andando de bicicleta, se é mais rápido do que de carro (em meios urbanos) e evita o procurar de um estacionamento, que leva, às vezes, mais tempo do que a própria deslocação.
Força, Paulofski! E boa sorte na selva das cidades portuguesas! Tome bem conta de si!
Luís, dê uma vista de olhos por este texto… vai descobrir como é possível levar duas crianças à escola de bicicleta: http://www.lisboncyclechic.com/?p=1307
Neste, pode ver ainda outras soluções para uma ou duas crianças: http://www.lisboncyclechic.com/?p=290
em resposta ao ponto dois….eu também tenho um filho e compreendo-o. Mas também tento mudar um pouco o meu dia-a-dia. Talvez para muitos seja um esforço ou impensável…..mas o que é certo é que já está tudo ou quase tudo inventado neste mundo e com um bocadinho de pesquisa vemos que existem “outros mundos” que não o nosso…..depois de os conhecer é necessário aceitar a ideia e ….ou vamos na onda ou não , ver se é viável ou não etc… Mas o ter filhos não é limitativo. Veja esta caso , também ele tem dois filhos: