Convidado: PAULO SOUSA


Pedro Correia,

 

Sobre a adopção de crianças por casais gay

 

É do conhecimento comum que existem no nosso país demasiadas crianças à guarda do Estado. Muitas delas acabam por crescer em instituições que dificilmente substituem o ambiente familiar. Isto acontece porque genericamente a nossa legislação dificulta a adopção.

No mundo anglo-saxónico é frequente uma criança mudar de um país para outro para ser adoptada. O sistema baseia-se numa relação próxima entre as instituições que têm sob a sua tutela essas crianças, assim como na boa-fé e na capacidade que cada país terá para acompanhar a evolução de cada caso.

Em Portugal, pelo contrário, o sistema baseia-se na desconfiança pois, a cada pedido de adopção, os organismos oficiais, donos do destino dos menores nessa situação, fazem por complicar.

Os defensores do actual sistema dirão que desta forma tentam defender os menores de possíveis abusadores. Porém, o caso Casa Pia mostra-nos que, se de facto têm essa preocupação, deviam era acelerar cada caso o mais possível e assim esvaziar as instituições onde, perdoem-me a expressão, os menores estão armazenados, sendo que, muitas vezes, nestes armazéns não faltarão as montras.

A legislação não é clara nem linear. Basta lembrar os vários casos mediáticos em que os menores são entregues a uma família afectiva, depois regressam aos pais progenitores, mais tarde deixam-nos sair do país, para depois ouvirmos o juíz dizer que está arrependido. No final o grande perdedor é sempre a criança.

Perante a inacção do Estado, que Governo após Governo nada faz, caberá à sociedade civil criar pressão para o mais rapidamente possível evoluirmos para uma situação mais equilibrada. Quem de facto quiser ajudar as crianças institucionalizadas deve procurar alargar ao máximo a base de apoio deste movimento.

Nesta linha de pensamento, pergunto-me porque é que alguns dos sectores ditos progressistas, que se dizem genuinamente preocupados com a felicidade das crianças, desprezam à partida o apoio da Igreja neste grupo de pressão.

Arrisco uma resposta. Isso acontece porque não são as necessidades e os direitos das crianças que estão no centro do debate, mas sim de uma certa agenda política.

Da mesma forma que a liberdade em Portugal é refém da esquerda, também a adopção de crianças é refém do lobby gay.

Pobres crianças.

 

Paulo Sousa

21 comentários em “Convidado: PAULO SOUSA”

  1. Muita gente dirá que não é bem assim, claro, mas é sempre preferível chamar as coisas pelos nomes, como aqui acontece. Parabéns pela defesa de facto dos menores, Paulo.

  2. Não serei a pessoa mais avalisada para falar sobre adopção, mas parece-me que algo vai mal neste campo em Portugal, pelo o que podemos ler: http://nosadoptamos.blogs.sapo.pt/

    Não percebi a tua ligação do tema ao lobby gay, desculpa a distracção, mas se puderes explica melhor.
    Parabéns pelo destaque e abraço

    1. o que tem o tal ‘lobby gay’ a ver com o assunto? e, já agora, a igreja – a tal que, descoberto agora em espanha, andou a vender, durante décadas, recém-nascidos a casais endinheirados, dizendo aos desgraçados pais reais que tinham tido um nado-morto que não convinha ver dada a possibilidade de trauma, motivo pelo qual tratavam também do ‘funeral’.
      não percebo.

      estava a ir bem, mas transformou tudo num post dos tais – para os anais.

      1. Parece-me desmedidamente abusivo dizer que «a igreja – a tal que, descoberto agora em espanha, andou a vender, durante décadas, recém-nascidos a casais endinheirados (…)». Eu sei que é muito vulgar tomar a parte pelo todo, mas uns padres não são a Igreja, como V. e eu não somos os portugueses.

        Haverá alguma dúvida de que a Igreja é a entidade que maior e mais meritória acção exerce em relação a todos os desprotegidos em todo o mundo e sem olhar a credos, raças e por aí fora?

        Basta constatar, como está mais do que sabido, que a maioria dos Estados se demite das suas obrigações (até constitucionais) e se deixa substituir pela Igreja. Não é preciso ser-se crente para concordar com este facto.

        1. não, joão carvalho, não é abusivo, pois não se trata de ‘alguns padres’ – são padres e freiras, bastantes, em conjunto com médicos – e a igreja é católica, para o bem e para o mal, isto é, universal (olhem, fiz uma rima). quero com isto dizer que, à semelhança de outras desgraças, a coisa pode extravasar dioceses.
          mas devo dar o benefício da dúvida, já que a coisa está em investigação, pelo que acrescento um já popular ‘presumivelmente’. ficamos assim saldados, espero.

          quanto ao ser a igreja a salvaguarda dos desprotegidos, de todas as cores, raças, credos, etc., devo confessar que, enquanto instituição de caridade, o é realmente. tal deve-se ao facto de ser a mesma igreja que mantém concordatas com os mais variados governos e que, por isso, goza de influência política invejável.
          logicamente, tal não tira o mérito a alguns que, por via da instituição, fazem o que podem – e o que não podem, muitas vezes pagando caro por tal – pelos necessitados.

          mas o contrário é também válido. as recentes tomadas de posição em relação ao uso de preservativo – eu sei, já chega, mas tem que ser referido -, à educação sexual, aos gays; a par da tentativa, durante muito tempo, de ignorar os males de que claustros um pouco por todo mundo padeciam, e que culminou num triste mea culpa do papa (quero acreditar que sentido, para bem dos muitos fieis), faz da igreja exemplo de coisas mais tenebrosas. como a que referi.

          e depois, o erro de que me acusa, pratica-o também, ao dizer que ‘a maioria dos estados’ se deixa substituir pela igreja. não é verdade.
          tal acontece nos estados pútridos ou calamitosos (pela guerra, pelas intempéries, you name it…) em que o governo não governa. ou então, nos estados em que é ela própria parte do governo.
          será sintomático que a igreja apareça sempre no meio da podridão? é apenas uma pergunta que me faço, mais do que uma observação. mas já que estou a escrever… 🙂

          abraço,
          cjt

          1. Não, Carlos. A Igreja aparece em todos os cantos do mundo onde é precisa e faz o que nenhum governo faz: no ensino, na protecção de menores e de idosos, na fome, no frio, nas mães solteiras, etc., etc.

            Isso é um dado adquirido, que envolve milhões de pessoas abnegadas em todos os continentes e que nunca tinha visto alguém contrariar. Daqui para diante já seria repetir-me, meu caro.

            Um abraço.

          2. joão, eu não contrariei, apenas coloquei condicionantes e explicações. as coisas não são tão simples assim.
            por outro lado, refiro precisamente as pessoas que, algumas delas, auxiliam desinteressadamente, pagando tantas delas por isso.
            agora a instituição, enfim… é uma coisa político-religiosa feita de seres humanos.

            mas não nos repitamos. ficamos assim.

            abraço,
            cjt

        2. Há duvidas sim senhor, claro que há. Em Portugal existem mais de 500 Instituições com menores à sua guarda, uma grande parte delas está de uma ou outra forma ligada à igreja. No conjunto das instituições há mais de 1000 crianças, destas menos de 10% tem um projecto de vida que passe pela adopção ou por alguma outra saída que passe por ter uma vida normal no seio de uma família, o que fez a igreja para que estes números mudem?

          De quantas das instituições ligadas à igreja nunca saiu uma criança para adopção?, é a igreja a favor da adopção, faz tudo o que pode para que as crianças deixem d estar institucionalizadas?.. ou simplesmente limita-se a tratar as crianças como se fossem suas e a receber a mensalidade do estado?

          Jorge Soares

    2. Um lobby, por definição, é um grupo de pressão de um dado sector social ou sócio-profissional com objectivos comuns. Creio que o autor considera que existe pressão por parte do grupo que ele indica, não será?

      1. claro que existe pressão da comunidade gay e da comunidade ‘straight’ para que a adopção seja permitida a todo e qualquer indivíduo que garanta o bem estar da criança.
        reformulo a pergunta: em que é que a actividade fica ‘refém do lobby gay’?

  3. “alguns dos sectores ditos progressistas […] desprezam à partida o apoio da Igreja neste grupo de pressão”

    Pode dar-nos algum exemplo concreto em que isto tenha acontecido?

    “a adopção de crianças é refém do lobby gay”

    Como assim? O lobby gay procura, de alguma forma, prejudicar a adoção? Pode dar-nos um exemplo concreto disso?

    1. apenas mais uma coisa: eu não desprezo a actividade de um grupo de pressão, seja ele qual for, desde que exista garantia do interesse no bem estar da criança, acima de qualquer interesse político, educacional, religioso, etc.
      venham padres ou venham gays, interessa é que os putos tenham casa, família que os ame e lhes dê educação, alimento e os deixe crescer em liberdade, como crianças que são.

  4. Paulo, qualquer texto em defesa das crianças institucionalizadas é de louvar, no entanto, não percebo qual a ligação do texto com o título.

    Queria só deixar um ou dois esclarecimentos ao que foi escrito, não existe uma relação directa entre o facto de haver muitas crianças institucionalizadas e as dificuldades na adopção em Portugal. Na verdade, e ao contrario do que as grande maioria das pessoas pensa, o processo de adopção é bastante simples e pouco burocrático, as dificuldades em adoptar são por aí, devem-se sim ao facto de que na realidade existem em Portugal poucas crianças para adoptar.

    O que acabo de dizer parece um contras-senso, mas não é. 90 % das crianças que estão institucionalizadas não tem como projecto de vida a adopção, estão simplesmente entregues ao estado para que este as guarde, as crie e as eduque, são crianças que vivem nas mais de 500 instituições que existem no país e que na sua grande maioria estarão lá até serem maiores de idade.. tudo isto à custa do estado.

    De quem é a culpa de tudo isto?.. é de muita gente, em primeiro lugar das famílias que abdicam dos seus deveres de pais, em segundo lugar dos tribunais, de juízes e procuradores que interpretam a lei de uma forma que permite que este tipo de coisas aconteça e que situações que deveriam ser temporárias se tornem definitivas, em terceiro lugar das muitas instituições que acham que as crianças são suas e que só no seu seio elas estão bem, há instituições em Portugal que são simplesmente contra a adopção, instituições de onde nunca saiu uma criança para ser adoptada…e por ultimo, de todos nós, que permitimos que tudo isto aconteça.

    Quanto à igreja, neste momento é parte do problema, uma enorme percentagem das instituições do país estão muito próximas da igreja, tem tudo para fazer que as coisas aconteçam..e fazer com que as coisas aconteçam é fazer com que não existam em Portugal crianças institucionalizadas, lutar para que as coisas mudem, dar projectos de vida às crianças que o estado coloca à sua guarda… fazer com que mais dessas crianças possam ir para a adopção… não o faz porquê?

    Jorge Soares

    1. Um comentário que dava um belo post…
      Eu escrevi que não estava avalisado para escrever sobre o tema, mas o Jorge sabe como poucos o que é a adopção em Portugal e o que é ser pai biológico e adoptivo.Parabéns pelo comentário,esclarecedor e sem teias de aranha.Obrigado pela parte que me toca.
      Abraço Jorge

  5. Agradeço todos os comentários.
    Quando se fala em adopção de crianças é inevitável referir o papel social da Igreja. Podemos pegar nos condenáveis e muito mediáticos casos em que esteve envolvida, ou até noutros em que não tem qualquer ligação, mas se queremos debater conceitos e ideias não vale a pena consumir energias em casos pontuais.
    O antagonismo entre o lobby gay e a Igreja faz com que o debate sobre a adopção de crianças por casais gay, o tema do post, seja sempre um debate inquinado pelas diferenças prévias.
    Escrevi este texto com o propósito de mostrar que um debate sério e conclusivo sobre a adopção deve ser totalmente desligado do debate dos direitos da comunidade gay, sob o risco de se poder tornar num anexo de reivindicações e não algo que merece ser olhado com mais atenção pelas vidas humanas envolvidas.

    Falando sobre isto neste momento, em que tomamos consciência que a dívida do Estado Português não é uma pequena encosta mas sim um imenso icebergue, depreendo o quanto Sócrates soube apanhar o país pela certa. Enquanto se discutiam temas fracturantes, o país seguia, impávido e sereno, para o que parece ser um beco de saída muito difícil.

    Não posso deixar de agradecer ao Pedro Correia pela oportunidade de poder blogar entre tão ilustre elenco da blogosfera nacional.
    Muito obrigado

  6. Uma bela discussão suscitada por este post do Paulo sobre uma matéria que me parece mais do domíinio da cidadania do que da ideologia, ou de um dos seus principais derivados, um subproduto chamado preconceito.
    Neste sentido o comentário do Jorge, uma autoridade na matéria como referiu o Pedro Oliveira, diz tudo.
    Parabéns Paulo. Mas parabéns ao Jorge, que não conheço pessoalmente mas apenas da blogosfera.

  7. De facto, o Jorge tem razão. A grande maioria das crianças institucionalizadas não estão para adopção. A maior parte, tem como projecto de vida delineado o regresso à família biológica ou no caso dos jovens, a autonomização. O problema é que a autonomização implica que os jovens se mantenham institucionalizados até terem as condições necessárias para poderem sair e viver autonomamente, o que como se sabe, é bastante difícil e moroso, especialmente em Portugal. A taxa efectiva de retorno à família biológica é bastante baixa e demora, na maior parte das vezes, muitos anos até se concretizar, pelo que todos esses factores contribuem para a manutenção de uma alta taxa de institucionalização de crianças.

    Em relação à Igreja, mais uma vez e como o Jorge bem disse, é uma parte do problema. Salvo algumas excepções, a maior parte das instituições religiosas ou de cariz religioso (que são a maioria em Portugal) são as que apresentam menores taxas de desinstitucionalização de crianças. Porquê? Lobby da igreja: financiamento do Estado, manutenção e reforço do poder da religião/igreja, do rebanho de fiéis, do status. O direito das crianças a uma família é de facto a menor preocupação da maioria das instituições religiosas.

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