Convidado: PAULO SOUSA


Pedro Correia,

 

Sobre os livros

  

Antes de serem lidos, todos os livros encerram um potencial de nos poder vir a agitar o espírito, de nos ensinar, ou até assustar. Fazem-nos sonhar, sorrir, gargalhar e até chorar. Depois de lidos, muitos deles ficam connosco para sempre. Um punhado mais restrito altera a maneira como pensamos e por isso mudam também aquilo que somos. Tal como acontece com algumas das pessoas com quem nos cruzamos na vida, alguns livros são verdadeiros pontos de viragem. São como o fim ou princípio de capítulos que dividem a nossa existência em partes distintas, como se tudo se resumisse a um antes e depois de cada um deles. 

Lembro-me de haver sempre  livros à minha volta. Quando era pequeno eles eram muito poucos e por isso muito mais preciosos. A escassez fazia-os gozar de uma procura que levava a que fossem partilhados repetidamente.

Ainda antes de eu saber ler, o meu irmão e o meu primo já tinham lido todos os livros que existiam nas duas casas. Sempre que o magro espólio era aumentado nenhum dos dois aceitava esperar pelo outro e acabavam a ler em simultâneo. O mais rápido esperava uns segundos pelo outro para só então se virar a página. Lembro-me de os ver assim, sentados no último degrau da escada, lado a lado, ora a interiorizar a mensagem ora a ver qual dos dois lia mais rápido. Tal como na natureza, após a escassez vem a sofreguidão. Para saborear não se pode ter fome e eles, que já salivavam antes de abrir a primeira página, liam tudo sem mastigar e sem se preocupar com a digestão.

1430028827-libri-classici-leggere[1].jpg

 

Eu via aquilo e queria também poder aceder àquele mundo que só existia quando as páginas se abriam. Esse mundo era frequentado por diversas pessoas da família de diferentes gerações. A muito partilhada lista de títulos fazia dos nossos livros um ponto de passagem que mais tarde ou mais cedo todos palmilhavam. Tornavam-se por isso também num ponto de encontro.

Quando finalmente aprendi a ler, a lista do títulos disponíveis nas nossas casas já era um pouco mais generosa e foi crescendo sempre sem nunca mais parar. Nunca tive de ler à desgarrada e nunca soube de mais ninguém que o tivesse feito.

Olhando para as gerações mais recentes, nenhum membro da nossa família alargada partilha o gosto por ler com semelhante intensidade. Todos consomem a maior parte dos tempos livres à frente de ecrãs.

Será que estamos a caminho de um mundo onde, como antes de Gutemberg, os livros voltarão ser lidos apenas por uma minoria?

Da mesma forma que a fotografia não matou a pintura, nem a televisão matou o cinema, também não serão os suportes electrónicos que matarão o livro. Mas mais do que perguntar se os novos suportes são complementares ou alternativos ao livro impresso, a dúvida que me coloco reside na capacidade e na disponibilidade intelectual de quem cresce como espectador passivo em frente de ecrãs. Que capacidade de interpretar, ou até de fantasiar, sobre o que do passado chegou até aos nossos dias terá quem não conhece o cheiro dos livros?

 

Paulo Sousa

(blogue VALE DO ANZEL)

7 comentários em “Convidado: PAULO SOUSA”

  1. Não imagina o desgosto que me fazem cá por casa os meus filhos não partilharem, ainda, o gosto pela leitura. Inclusive já os tentei comprar para lerem a Tabacaria. Mas é cada vez mais difícil tentar convencê -los que a Cultura serve para nos conhecermos melhor como pessoas. A fomentar a argumentação e a argúcia contra a arrogância da ignorância. Mas se nem na maioria dos pais – obcecados com as notas da escola- esta ideia cola, como convencer os filhos?. Aliás o estado a que chegámos é culpa dos mais velhos, alguns ditos sábios e cheios de certezas, e não dos jovens

  2. “Ainda antes de eu saber ler, o meu irmão e o meu primo já tinham lido todos os livros que existiam nas duas casas.” Que bom. É que na minha família são todos umas bestas e de livros nada. Por isso eu sou assim.

  3. Não sei responder à pergunta final. Penso contudo que os jovens sonham na mesma. Talvez de outra forma, mas sonham e projectam. Não me lembro de livros que tenham sido pontos de viragem ou me tenham mudado comportamentos explícitos. Não lhes reconheço tal poder sobre a minha pessoa. Os livros são-me um gosto, uma forma de descansar da vida que me pertence, um mundo paralelo onde gosto de entreter-me. É provável que, tal como tudo o mais que vivo, me influenciem. Mas não constituem marcos e nem assinalo qualquer título. Em mim, têm o seu lugar cativo a par de tanta outra coisa. E, havendo hierarquia, as pessoas seriam sempre mais importantes que eles.
    Mas o seu texto está muito bom. e é fácil imaginar os dois garotos a ler em uníssono. Também li algumas coisas assim:).

  4. Nos tempos dos saudoso Vila Forte, o blog de Porto de Mós, escrevia-se freneticamente à velocidade dos acontecimentos. Chegamos a conseguir ser mais rápidos que os acontecimentos pois estes eram por vezes consequência do que ali era escrito.
    A escrita era voraz e nem sempre cuidada à escala do merecimento dos leitores e da língua portuguesa.
    O texto que agora publiquei foi escrito muito mais pausadamente, por etapas, teve diferentes versões e várias vezes ficou a assentar, como se faz com a sopa.
    A falta de tempo e consequentemente de disponibilidade cerebral é para mim o infame arqui-rival da escrita e da leitura. Demasiadas vezes fica a rir-se de mim, embora o combate nunca termine. Continuo a alimentar a esperança de um dia lhe poder desferir uma demorada e exemplar derrota.
    Agradecer ao Pedro Correia a oportunidade de escrever no Delito de Opinião, o blog que é para mim o exemplo do melhor do que a blogosfera nos deu a todos.
    A blogosfera portuguesa existiria sem o Delito de Opinião mas não teria o mesmo nível.
    A liberdade de expressão no tempo das redes sociais depende mais do espírito de missão de pessoas como o Pedro Correia, e não me lembro de mais ninguém com quem o possa comparar, do que da Constituição da República.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *