Convidado: PAULO GUINOTE


Pedro Correia,

 

A Revolução já não é o que era!

 

E os revolucionários ainda o são menos.

Em tempos, definia-se uma revolução como uma rápida transformação social, política e económica que mudava radicalmente a elite governante e as suas políticas.

Era quase sempre conseguida à força porque, não havendo eleições, ou não sendo elas livres, não existiam mecanismos de transformação rápidos que não dependessem dos humores de um qualquer monarca ou ditador de ocasião.

Agora, pelo menos nas sociedades ocidentais ou ocidentalizadas, apesar de todas as suas distorções e limitações, existem eleições que, na prática, poderiam conduzir a quase verdadeiras revoluções pacíficas pois permitem. Isto porque, em tese, as eleições podem conduzir a uma substituição da tal elite governante e das suas políticas.

Ora bem: eu acho que Portugal precisa de uma revolução qualquer, das antigas ou das modernas. Televisionada ou não, como escreveu Joe Trippi ou cantou o Gill Scott-Heron, convocada por tuítadas ou por mensagens de um qualquer Manelinho. Ampliada pelo Facebook ou pelo megafone do Jel.

Precisamos que isto mude. Depressa. Ontem, se possível.

Em que sentido?

Se possível que não seja para pior a médio-longo prazo.

Até pode ser para pior, a curto, se sentirmos que faz algum sentido.

Não é preciso ir buscar nenhuma guilhotina, mas é tempo de mudar o estado da piolheira.

Informar os senhores que estão que é tempo de irem.

De vez, se possível.

O que me incomoda?

Que já não existam revolucionários, pois, à esquerda, os antigos refugiaram-se na coreografia e retórica da luta inconsequente e os novos, à direita, ainda não sabem bem como lidar com as coisas, pois hesitam entre as melhores leituras de cabeceira, para saberem o que fazer. Sofisticar com base em Hayek e Popper, ou brutalizar como Reagan e Bush?

À esquerda, a revolução nas ruas, com desfecho imprevisto, deixou de agradar, a menos que seja lá fora e mesmo assim depende do tiranete ou regime a deitar fora. Por cá, fazem manifestações e ao fim de 3-4 horas enrolam as bandeiras e vão-se aos couratos e às bejecas. Fazem bem. Mas é curto.

À direita, a revolução faz-se pela teoria do desmantelamento do Estado social(ista) que nunca o chegou a ser. Fazem-se tertúlias, escrevem-se umas coisas, teorizam-se uns conceitos, desconhece-se a vida da generalidade das pessoas.

De ambos os lados do chamado espectro político agitam-se meros fantasmas como oposição útil. Em ambos os lados há confusão, escassa ligação à realidade, fórmulas teóricas ultrapassadas e medo.

O medo, nas suas diversas formas, paralisou a imaginação, a capacidade de ler a realidade tal como ela é, fora dos livros que teorizam o passado e falharam a prospectiva do presente.

A revolução já não é o que era e ainda não sabemos bem o que poderá ser.

Mas por mim pode ter um começo simples: defenestrem quem está. A bem, a mal ou a muito mal.

O futuro vem a seguir.

Como estamos, não existe.

 

Paulo Guinote

6 comentários em “Convidado: PAULO GUINOTE”

  1. O problema, se é problema, é que os conceitos de esquerda e direita estão vazios. Existem esquerdistas assumidos, em teoria, que no seu quatodiano agem
    como direitistas. E vice-versa. O Mundo está farto de retórica. Só a Verdade é revolucionária , o que não tem acontecido nesta país há muito tempo, independentemente de ser de Esquerda ou Direita ambas não metem medo. Os extremos das mesmas sim.

  2. A revolução já está na rua. Aqui, na Europa, nos EUA, até na China. A rua já entendeu, consciente ou inconscientemente, que a austeridade não serve para ultrapassar a crise, a crise é que serve para impor a austeridade.

    Mas há aqui um problema de dissociação cognitiva: a mesma pessoa que entende isto no momento em que se manifesta pode muito bem acreditar, no momento em que vota, nas doses maciças de propaganda que lhe dizem o contrário.

    A tarefa da oligarquia na próxima campanha eleitoral é construir um dique: evitar que o que a rua já sabe transborde para a consciência pública e desta para o comportamento dos eleitores.

    A tarefa dos revolucionários é rebentar esse dique.

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